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Esporte

A teimosia do velho mestre
Mesmo com isquemia cerebral, Telê Santana lança livro de memórias, vira consultor de time em Minas Gerais e sonha em voltar ao Fluminense

Fábio Bittencourt,
de Belo Horizonte (MG)

Edu Lopes
“Uma hora, ou outra, ainda pego um avião e vou para a Espanha com meu currículo embaixo do braço”, afirma Telê

Aos 68 anos, Telê Santana Silva vive um momento ímpar e até paradoxal. Ao mesmo tempo em que conta suas histórias em Telê, Fio de Esperança, reunidas em livro pelo jornalista André Ribeiro, o ex-técnico do São Paulo e da seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986, padece de isquemia cerebral, doença que limita a circulação sangüínea na massa encefálica, causa falhas na memória e deixa a fala lenta. Mas a doen-ça não foi o suficiente para afastá-lo de sua maior paixão, o futebol. Nos próximos dias, Telê assume o posto de consultor das equipes de base do Clube Atlético Patrocinense, da cidade de Patrocínio, no interior de Minas Gerais. Sua tarefa será descobrir novos talentos e alavancar o time para a primeira divisão no ano que vem. “É mais fácil arrumar bons meninos no interior”, ensina o mestre do futebol, que também vai ser homenageado com seu nome no centro de treinamento da equipe.

Desta vez, Telê Santana vai ditar as regras à distância. Passará a organizar o departamento de futebol do clube, verificar as condições de trabalho dos jogadores e definir os investimentos que serão feitos na equipe. O dia-a-dia das funções do técnico conhecido pelos milhões de brasileiros aficionados em futebol ficará a cargo de seu filho, Renê, 43 anos. “A metodologia do trabalho vai ser baseada nos ensinamentos que recebi de meu pai durante minha vida”, afirma Renê. “Minha família faz de tudo para evitar que eu volte”, diz Telê. “Mas vocês ainda vão me ver de novo no Fluminense, pode acreditar nisso.”

Voltar ao batente é um alento à carreira de um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro. Durante anos, Telê carregou nos ombros o peso pela derrota em duas copas do mundo – a de 1982, na Espanha, e em 1986, no México. A fama de pé frio só desapareceu quando ele montou um supertime no São Paulo e se consagrou bicampeão mundial no início da década de 90.

DOENÇA DE SURPRESA


Nessa boa fase profissional, Telê Santana tinha em mãos a oportunidade de dirigir o Barcelona, um dos clubes de primeira linha do futebol mundial. Mas o projeto teve que ser abortado. A doença o pegou de surpresa. No dia 29 de janeiro de 1996, Telê saiu do Centro de Treinamento do São Paulo, no bairro da Barra Funda, para fazer um cateterismo no Instituto Dante Pazzanese. O exame era para descobrir as causas de tonturas que se manifestavam eventualmente e revelou a existência da isquemia cerebral. A partir daí, a vida de Telê foi virando de ponta-cabeça. E as características da doença surgiram em seguida. Telê passou a falar pausadamente e se locomover com dificuldade. “Foi como se tivessem apagado uma luz”, diz Ivonete, sua mulher.

Hoje, o dia-a-dia do mestre é uma epopéia. São poucas as coisas corriqueiras que Telê faz sozinho. Conta, e muito, com a atenção de Ivonete. Ela faz parte das atribuições motoras do marido. Ajuda-o a tomar banho, a se vestir e a andar. No cotidiano de Ivonete há ainda a tarefa de fazer sua barba. Prepara a espuma, a água quente em uma bacia e a lâmina. “No começo eu tinha medo de cortá-lo, mas agora é até melhor do que quando ele fazia sozinho e mal feita”, diz Ivonete. Às vezes, um descuido é o suficiente para criar um outro problema. Em outubro passado, por exemplo, Telê caiu, fraturou o fêmur da perna esquerda e teve de colocar uma prótese.

LAPSOS DE MEMÓRIA


Telê e Ivonete se conheceram em 1951, época em que ele começava a carreira no Fluminense. A jovem estava com 17 anos, quando foi apresentada por um tio ao ponta direita do tricolor carioca. De onde morava até a casa da namorada, Telê gastava mais de uma hora de ônibus. O jogador do Flu ficou nesse vai e volta durante dois anos, quando pediu a mão de Ivonete em casamento. Resultado matemático de um casamento de 47 anos: dois filhos e quatro netos. “Tive sorte no casamento. Com minha mulher, divido minhas alegrias e tristezas.”

Para montar sua biografia, foram necessárias mais de 50 horas de entrevistas feitas por André Ribeiro e a paciência para esperar vir à tona suas lembranças futebolísticas, já que a memória do protagonista tinhas falhas abruptas no decorrer de suas narrativas dos fatos. “O Telê é o grande exemplo da profissionalização do futebol no Brasil”, diz André. “Ele jogou por mais de dez anos no mesmo clube, um fato raro hoje em dia”, conclui. A prova disso pode ser apreciada nas 476 páginas de Telê, Fio de Esperança, um dos destaques da editora Gryphus na Bienal do Livro de São Paulo. Em uma das passagens, Telê revela ter deixado o atacante Dario, o Dadá Maravilha, que acabara de conquistar o tricampeonato mundial pelo Brasil no México, em 1970, no banco de reservas do Atlético Mineiro, como punição por seu excesso de peso. Motivo, aliás, tido como tabu naquela época. Em outra passagem, há a descrição minu-ciosa da tristeza que Telê sentiu após a derrota do Brasil para a Itália na Copa de 82, na Espanha.

Quando não está em Belo Horizonte, o casal pode ser encontrado no Rio de Janeiro pelo menos uma semana no mês. É lá que Telê reencontra velhos amigos do futebol como Píndaro, Orlando, Didi e Nílton Santos. Jantares com pratos com lingüiça de porco e carnes gordas davam o toque gastronômico, mas agora foram substituídos por frutas e verduras. O prato principal, claro, continua sendo o futebol: “Uma hora, ou outra, ainda pego um avião e vou para a Espanha com meu currículo embaixo do braço”, profetiza Telê ao falar sobre seu futuro profissional aos amigos.

 


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