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Por onde anda

Sula Miranda para toda obra
A rainha dos caminhoneiros vira decoradora, critica o estilo da irmã Gretchen e diz que se constrangia com as cantadas de Silvio Santos

Rodrigo Cardoso

Edu Lopes
Sula deitada num chão feito de vidros: “Os vendedores de materiais de construção estranham ao me ver fazendo compras. Digo logo que sou decoradora – e cantora nas horas vagas”

Dia desses o empresário Osmar Gonçalves, 52 anos, marido da cantora Sula Miranda, passeava de carro com a esposa e o filho Natan, de 1 ano e 8 meses. Ao passar sobre um quebra-molas ouviu um barulho no porta-malas. Chegando em casa ele foi verificar o problema. Acabou encontrando tijolos em cima do estepe. A bagunça era obra da rainha dos caminhoneiros, ou melhor, da decoradora Sula. Essa é a nova profissão da cantora sertaneja. “A bolsa dela é tão pesada que desconfio que carregue mármore dentro”, brinca Osmar. Em junho, Sula irá ceder sua casa de 4 000 m2, em Campos do Jordão, para sediar a Mostra de Arquitetura e Decoração (Moad). Aos 36 anos, a histeria dos tempos de cantora vem dando lugar ao espanto. “Os vendedores de materiais de construção estranham ao me ver fazendo compras. Digo logo que sou decoradora -- e cantora nas horas vagas”, fala.

Embora negue ter abandonado a vida artística, o iê-iê-iê dos palcos ficou para trás há dois anos. A cor rosa, marca registrada do seu figurino, automóvel e até grampeador, ainda não foi usada em suas obras. O shortinho e o microfone perderam espaço para o tailleur e a régua. Até o ônibus rosa usado nos shows foi vendido. Antes de entregá-lo, no entanto, ela o transformou em verde, laranja e branco a pedido da nova proprietária. O ganha-pão de Sula, hoje, é outro. Uma consulta sua custa R$ 150. Um projeto, R$ 1 mil. E uma ambientação, num espaço de 200 m2, até R$ 30 mil. A administradora Júlia Nakano, 50 anos, diz que torceu o nariz quando lhe indicaram os serviços da cantora para decorar sua casa em Campos do Jordão. “Ela deve fazer tudo na base da orelhada”, pensei. “Mas ela entende, tem um gosto refinado e não se importa em pegar no batente. Já a vi trepada numa cadeira, dentro do banheiro, verificando uma parede.” Há um ano, Sula se associou a duas arquitetas e já entregou dez obras. “Ganho mais do que num show”, afirma. Sua rotina é sair às compras com clientes, levantar preços de produtos e firmar parcerias. “A carreira de cantora tornou-se difícil para mim, depois que atingi uma certa idade.”

Antes de encarar a primeira obra, em 1998, Sula, que já era formada em Educação Artística, fez um curso de decoração. Meses antes, rescindira um contrato com a gravadora RGE e nunca mais entrou num estúdio de gravação. A rainha dos caminhoneiros frustrou-se com o próprio desempenho. “Nunca fui cantora de sucesso, não tive uma música que tocou em todas as rádios e duvido que tenha vendido 1 milhão de discos, somando os 12 que lancei”, diz. “Nunca me considerei artista. Sempre fui empresária.” Sula chegou a ter 40 lojas com seu nome espalhadas pelo País, que vendiam 150 produtos, entre calcinhas e batons, licenciados por ela. Há quatro anos, decidiu abandonar o negócio. “Os franqueados não pagavam e ameaçavam ir à imprensa se eu insistisse na cobrança”, conta. Sula não possui mais nenhum produto daquele tempo. Diz que, em breve, emprestará a imagem para alavancar as vendas de torneiras, ferragens, metais... “Não foi bom ser dona”, afirma. “Tenho saudade da época em que era funcionária. No SBT, adorava receber ticket refeição porque corria para o Mc Donald’s para gastar tudo.”

“ESCAPADINHAS”


Quando o assunto descamba para a infância, a rainha dos caminhoneiros, mulher-forte das estradas, fragiliza-se ao lembrar que nunca aprendeu a andar de bicicleta. Diz que seu pai, ciumento, não deixava as três filhas brincarem na rua. “Ele era muito safado em sua juventude. Foi um grande consumidor e, quando teve de encarar o fato de ser fornecedor, não gostou muito”, afirma. Segundo ela, sua irmã Gretchen arranjava um jeito de “dar umas escapadinhas”. A rainha do rebolado nega as fugas. “Até para comprar pão eu ia de mão dada com a mãe.” Gretchen e Sula cantaram juntas no grupo As Melindrosas, nos anos 70, mas logo se separaram. “Nunca gostei do estilo da Gretchen. Rebolar não é comigo. Só que nunca fiz mais sucesso do que ela”, diz Sula. Pode ser modéstia da rainha dos caminhoneiros. Sula, ao contrário da irmã, foi apresentadora em quatro emissoras: Record, SBT, Gazeta e Manchete.

TRAUMA DE SILVIO SANTOS


No SBT, para ganhar a confiança de Silvio Santos, gastou US$ 30 mil para fazer o piloto de um programa. Pouco tempo depois de estrear, foi apontada como amante do empresário, em 1992. “O Silvio brigou com a esposa e precisava de uma justificativa para o escândalo”, diz ela. “Talvez por conveniência, não desmentiu publicamente e eu fui um bode expiatório.” Sula conta que ligou para o camarim do dono do SBT e se apresentou como filha do empresário para conseguir falar com ele. “Silvio fala que minhas pernas são bonitas desde o dia em que me conheceu. Sempre falou e ainda fala”, defende-se. “Outro dia fui ao Qual é a Música e ele pegou a ficha do programa e colocou dentro da alça da minha blusa. Pensei: ‘Tô perdida, vai voltar tudo de novo.’ Fiquei com trauma e ainda fico constrangida na frente do Silvio.” Sula não sabe como o boato surgiu, mas lembra que até dentro de avião ouvia gracinhas do tipo: “Silvio Santos vem aí!”. “E perdi um namorado lindo. Ele trabalhava na Bolsa de Valores e não agüentou as brincadeiras”, diz. Seis meses depois do boato, ela foi dispensada pelo SBT.

Pior do que ganhar o título de “Amante do Homem do Baú”, conta Sula, foi tornar-se viúva e superar a morte trágica de seu ex-marido, Luiz Flávio Maximino. Há dez anos, depois de uma sessão de fotos em que posava de minissaia, Sula, o ex-marido e a equipe fotográfica jantavam juntos na cobertura do casal, em São Paulo. Luiz, segundo Sula, bebeu uísque e vinho mais do que o de praxe. E o que seria uma confraternização virou tragédia. Ao final da ceia, seu ex-marido perguntou: “Por que você usou aquelas roupas?” Cansada, Sula disse que conversaria sobre o assunto no dia seguinte. “Quando brigávamos, o Luiz ameaçava ir embora de casa, se jogar da sacada, e tudo o mais”, afirma. “Eu não dei bola porque ele sempre voltou atrás.” Mas nesse dia Sula viu Luiz pegar a arma e pediu para que ele a guardasse. Minutos depois, ela ouviu o disparo ao lado de seu quarto. “Tenho certeza de que o Luiz disparou para chamar minha atenção, mas o tiro saiu pela culatra e acertou a cabeça dele”, conta. “Ele queria mostrar que era o machão e se acidentou.” Sula tentou socorrê-lo fazendo respiração boca-a-boca, mas Luiz morreu doze horas depois. O laudo da perícia atestou suicídio. Os “acidentes de percurso”, no entanto, nunca fizeram a rainha dos caminhoneiros puxar o freio de mão. Escolada, após mais de vinte anos de estrada, ela aprende agora a se desviar das armadilhas da nova profissão. “Outro dia fui recebida com espanto num encontro de decoradores”, conta Sula. “Ainda não sou famosa no ramo. Ainda.”

 


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