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wellington cerqueira
Frei Betto e o ator Daniel de Oliveira, que o interpreta em Batismo de Sangue (no detalhe), filme de Helvécio Ratton que estréia dia 20
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Cinema
Frei Betto

Daniel de Oliveira parece uma cópia do jovem Frei Betto no filme Batismo de Sangue, inspirado no livro do frade sobre o envolvimento dos dominicanos na resistência ao regime militar. A Gente, Frei Betto escreve sobre sua experiência com o ator, e Daniel conta como foi interpretar o religioso
depoimento a Mariane Morisawa
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Fiquei comovidamente surpreso ao ver o resultado do trabalho de Daniel. Senti-me clonado. Já conhecia o talento dele para encarnar personagens reais, como no filme Cazuza, em que aparece numa semelhança atroz com o cantor e compositor. Mas não esperava que fosse captar tão precisamente o meu modo de ser há quase 40 anos. Prova de que ele esbanja talento.

Daniel e eu convivemos apenas dois dias, em Belo Horizonte, quando da preparação do filme, quase todo rodado em Minas, com seqüências filmadas no Rio e na França. Havia lido o livro em que narro o envolvimento dos frades dominicanos com a resistência à ditadura militar e visto algumas fotos minhas mais jovem, como a cena de minha prisão nos jornais.

Nos conhecemos no bairro Santo Antônio, na capital mineira, no espaço onde o diretor Helvécio Ratton deu as primeiras instruções aos atores. Na ocasião, eu havia feito uma palestra para o elenco sobre o Brasil dos anos 60 e o movimento estudantil. Depois ele se juntou a mim e fomos andar pela cidade. Tomamos chope num bar de esquina, conversamos muito, voltei aos detalhes da atuação dos dominicanos e dos estudantes na luta contra a ditadura militar. Levei-o até a casa da minha mãe, e lá ele conheceu meus irmãos, observou o lugar onde fui criado e hábitos da família. Percebi que, naquelas 48 horas, ele me observava detalhadamente. Ao vê-lo na tela, me revi nos anos 60. Vestuário, gestos, olhar, modo de falar e sorrir, tudo me parece, não o meu alter ego, mas eu próprio.

O livro Batismo de Sangue consumiu-me dez anos de pesquisas e escritura sofrida. A primeira edição, de 1983, recebeu o prêmio de melhor livro de memórias do ano. Como ainda o Brasil vivia sob ditadura militar, vi-me obrigado a excluir informações e detalhes que constam da atual edição da Editora Rocco, ampliada graças também à volta dos exilados. Há quem diga que filmes inspirados em livros nunca conseguem que a imagem supere a literatura. No caso de Batismo de Sangue, premiado no Festival de Brasília, posso afirmar que Helvécio imprimiu, à saga de uma geração, elevada qualidade estética e profunda emoção. Ao dar a ele o livro, anos atrás, escrevi como dedicatória: ‘Helvécio, a realidade extrapola a ficção’. Ele tomou-a como desafio.

E agora posso dizer que a ficção virou a realidade pelo avesso, recriou-a em requintada mescla de imagens, músicas e cores, e transubstanciou-a em impactante verdade histórica. É quase impossível assistir ao Batismo de Sangue sem que a emoção nos faça derramar lágrimas, como a mim aconteceu no Festival de Tiradentes. Não eram lágrimas de tristeza, mas de orgulho de uma geração que não se dobrou ao arbítrio e se sacrificou para que o povo brasileiro viva numa democracia. E fico com a impressão, frente à globocolonização neoliberal que assola o planeta, que no passado o futuro era melhor.”

 
Daniel de Oliveira
“O Betto é fácil de decifrar. É só aquele sorriso discreto que ele tem”

Estava trabalhando com a Patrícia Pillar em Cabocla, e ela me falou que o Helvécio Ratton ia fazer um filme chamado Batismo de Sangue, inspirado num livro do Frei Betto. De cara, comprei o livro e gostei demais. Soube que ia querer estar dentro. Durante um tempo, houve um suspense para saber qual personagem ia ser. Peguei o Betto e fiquei feliz, acho um grande cara. Já em Belo Horizonte, durante a preparação com o Sérgio Penna, a gente fez uma entrevista com os frades: o Ivo, o Fernando, o Oswaldo e o Betto. Só observei. Depois a gente se encontrou num jantar. A primeira coisa que o Betto me falou foi: ‘Nem sei se você está fazendo bem esse papel, mas bom gosto tem, porque sua namorada é muito bonita’. Um cavalheiro! Em vez de perguntar coisas, preferia ler seus livros. Quando o encontrava, tentava deixá-lo o mais descontraído possível, para buscar um outro Betto, o homem, não o escritor. Mais importante que seus gestos era seu tempo. Isso é mais difícil para mim, que sou muito acelerado. Quando eu fui assistir ao filme, no Rio, ele me disse: ‘Hoje você vai ver como ficou igual a mim! Engraçado que você ficou até bonito igual eu era!’. Ele elogiou, disse que eu tinha pego detalhes dele (ao lado, no detalhe, Daniel no papel de Frei Betto).

Eu até me acho parecido com ele. Vi fotos antigas do Betto e fiquei invocado na hora de escolher os óculos, porque ele usava óculos de armação mais escura. Mas para mim não ficou bom. Colocamos um mais claro. Até eu me acostumar com aqueles óculos mais claros! Eu me estranhei quando me olhei no espelho. Depois falei para o Betto que ele era um cara vasto e complexo, mas fácil de decifrar. É só aquele sorriso discreto que ele tem no rosto, vendo as coisas com simplicidade e otimismo. E nesse filme eu procurei ser o mais discreto possível. Tentar passar como se ninguém estivesse me vendo. Porque ele era frade e revolucionário. Nos dois ambientes, ele não podia aparecer muito. E eu sou um cara que chega derrubando as cadeiras.

Tenho muita admiração por ele. Aumentou meu interesse em entender aquele período. E se acontecer de novo? Sei que estaria dentro de qualquer célula da luta!”