Entrevista  
Fotos: Divulgação
“Brinco de boneca com a Júlia, rolo com ela na cama, assisto aos filmes que ela quer. Falo com o Bruno todos os dias, mesmo que por cinco, dez minutos”, conta Bernardinho sobre os filhos
• • •

CONTINUAÇÃO

A perda dos pais
• • •
Bernadinho
‘‘‘Sou um cara pacato’’
O técnico da seleção masculina de vôlei lança livro sobre sua trajetória, acha melhor lidar com o time feminino do que com os homens e conta que em casa não é exigente com os filhos
texto: Márcia Montojos
fotos: Leandro Pimentel

Desde que assumiu a seleção masculina de vôlei, em 2000, o técnico Bernardinho tornou-se unanimidade. Afinal, foram 17 vitórias em 20 finais disputadas nesse período. Mas, aos 47 anos, esse carioca de Copacabana não se acomoda. Treinador do Rexona Ades e da seleção, Bernardinho também preside o Instituto Compartilhar, uma ONG criada por ele, em 2003, e que já beneficiou aproximadamente seis mil crianças em projetos ligados ao esporte. Também é bem-sucedido em outras áreas. É sócio da rede de restaurantes Delírio Tropical e das academias de ginástica A! e BodyTech, no Rio, e enveredou para a literatura ao lançar Transformando Suor em Ouro, pela Sextante. Em apenas dois meses, o livro já está na terceira edição, com mais de 100 mil exemplares vendidos. Além disso, dois novos projetos literários estão em andamento. Casado com a ex-jogadora de vôlei Fernanda Venturini e pai de Júlia, de 5 anos, e de Bruno, de 19, Bernardinho é sinônimo de sucesso.

O que o levou a escrever o livro?
Muita gente pedia, mas durante um tempo fiquei meio constrangido em escrever por parecer um negócio de autopromoção. Depois, vendo o quanto de curiosidade existia e, o mais importante, sabendo da minha curiosidade a respeito da trajetória de vários esportistas, achei que devia fazer. Não é um livro autobiográfico, embora siga a cronologia da minha vida.

O que espera do Pan? Será a medalha mais importante por ser inédita?
Temos a Liga Mundial antes do Pan. Mas é claro que em função de termos falhado e ficado com o bronze em 2003, e por ser jogado no Brasil, a importância é potencializada. Vamos ter de nos preparar muito porque a gente parte com o peso do favoritismo contra franco-atiradores. Então a preparação para esse campeonato vai ter que ser a melhor possível.

Quem faz a diferença na seleção?
O grande diferencial é o time. Não sei se cada um deles é o melhor isoladamente, mas quando jogam juntos fazem a grande diferença. Quando o Giba foi eleito, com toda justiça, o melhor jogador do mundial, ele ouviu críticas de pessoas do time dele dizendo que ele não joga no time como joga na seleção. Lá pelas tantas, ele respondeu: “Se vocês querem que eu jogue como na seleção, então contratem o André Eller, Gustavo, Ricardinho”. Isso demonstra que ele é uma peça importante dentro de uma estrutura.

Como lida com a derrota?
Mal, muito mal, mas sem esse negócio de depressão. Mal em atividade permanente, buscando os porquês para não repetir os mesmos erros. A primeira coisa que você tem que fazer é assumir suas responsabilidades, o que nesse País é muito difícil porque as pessoas têm mania de atribuir aos outros suas responsabilidades.

Já criou alguma inimizade na sua trajetória?
Não acredito. Mas tem pessoas com que você tem menos afinidade. Cortar alguém é uma questão muito delicada, é pior que demitir. Emprego tem outros, seleção só tem uma. Um cara treina 20 anos para uma olimpíada e você corta, claro que cria um desafeto, não um inimigo.

Qual a diferença de treinar o feminino e o masculino?
Basicamente a questão emocional, mas são igualmente competitivos. A mulher tem muito mais oscilações. E não é só por questões fisiológicas, o homem também tem sintomas de TPM sem as questões fisiológicas. Todo mundo tem seus dias, tem vezes que o cara tá um saco sem razões aparentes. Acho que é uma questão mais cultural que genética. A mulher no Brasil é criada dando vazão aos seus sentimentos, ela chora. O homem pode estar destroçado que não fala nada, é o machão que não chora. Ainda mais o desportista, o cara imbatível. Então, por esse lado, é melhor lidar com um grupo de mulheres.

Como impõe disciplina aos jogadores?
Cobro horários e empenho com nossos compromissos. Fora isso, é tranqüilo. A gente faz churrasco toda quarta-feira, mas no dia seguinte treinamos que nem malucos. Se você prender o cara, ele foge pela janela de trás. Temos um horário de referência, 11 horas, mas se o cara conhece a mulher da vida dele, tem mais é que passar a noite fora. Claro que sabendo que no dia seguinte vai treinar duro. Não pode é chegar e falar que tomou todas e não está legal. Já aconteceu de eu fazer vomitar. Vi que a menina estava mal, fingi que não era comigo, fui puxando no treino até ela vomitar.