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“Só uma vez fui chamado de bebum na rua. Na maioria das vezes as pessoas querem me levar para a casa delas e cuidar de mim”, conta o ator de 48 anos
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Televisão
Ator em campo

Sucesso no papel de um alcoólatra em Páginas da Vida, Eduardo Lago diz que recarrega as energias na região
serrana do Rio, onde já foi fazendeiro e dono de restaurante
texto Márcia Montojos
fotos Alexandre sant’anna
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Há cerca de duas semanas, Eduardo Lago saiu de casa às 6h15 para tomar café da manhã numa padaria. Momentos depois, foi abordado por um homem que queria contar a história do pai morto em conseqüência do alcoolismo. Pacientemente o ator ouviu o desabafo de mais um telespectador de Páginas da Vida que se identifica com o drama de seu personagem, o alcoólatra Bira. O assédio do público se tornou rotina na vida de Eduardo, que ganhou destaque na trama das oito ao encontrar a medida certa para o bêbado que oscila entre vítima e vilão. “O Eduardo tem a capacidade rara de incorporar o personagem de tal maneira, que o público passa a acreditar nele como pessoa real”, elogia o autor Manoel Carlos.

Aos 48 anos, Eduardo saboreia o sucesso do personagem com uma satisfação especial. Ele temia a reação do público por considerar o alcoólatra alvo de preconceito. Mas, para sua surpresa, aconteceu o inverso. As pessoas o param na rua para conversar, contar as experiências familiares e até dar conselhos. “Só uma vez me chamaram de bebum. Na maioria das vezes as pessoas querem me levar para suas casas e cuidar de mim.” O ator admite, no entanto, que fica constrangido com algumas abordagens. Recentemente, numa loja de sucos, uma mulher começou a chorar compulsivamente ao relatar o drama da mãe na luta contra o álcool. “É complicado, não sou psicólogo mas tento consolar as pessoas.”

Para manter o equilíbrio físico e emocional – diante da carga dramática do personagem – o ator intensificou o ritmo de exercícios à beira-mar. “Sou um cara bem-humorado, aquele tipo que acorda rindo, mas tenho me sentido sem energia”, diz Eduardo, morador do bairro do Leblon. Para se revigorar, tem viajado nos finais de semana para Itaipava, região serrana do Rio. “Odeio badalação, gosto de ficar em casa cozinhando alguma coisa.”

A paixão de Eduardo por gastronomia o levou a ter um restaurante quase dez anos atrás. Em 1996, ele decidiu fazer uma pausa na profissão de ator e foi morar numa fazenda em Petrópolis, também na região serrana do Rio, plantando feijão e criando gado. A empreitada durou um ano até que ele desistiu do negócio por causa de problemas com o sócio. Vendeu a fazenda, mas continuou na cidade, onde abriu o restaurante. “Foi um dos períodos mais legais da minha vida”, conta o ator, solteiro após dois casamentos desfeitos.

O convite para participar de um filme o trouxe de volta para a vida de artista. O projeto não foi adiante, mas ele retornou aos palcos. O reencontro com uma ex-namorada, porém, o levou mais uma vez
para o campo. O casal se mudou para o Rio Grande do Sul, onde
ficou por um ano. “Estava com mais de 40 anos e pensei que
era hora de organizar a minha vida e voltei”, conta Eduardo, que descobriu o sucesso pelas mãos de Manoel Carlos em Mulheres Apaixonadas (2003).