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Entre os poemas eternizados pelo cultuado poeta
Paulo Leminski, um podia servir de alento para
Daniella Cicarelli: “Problemas não
se resolvem, problemas têm família
grande, e aos domingos saem todos a passear, o
problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”.
O mais novo problema na vida da modelo de 27 anos
e apresentadora do Beija Sapo, na MTV,
não esperou o domingo chegar. Na manhã
do sábado 13, Cicarelli corria pelo campus
da Universidade de São Paulo (USP), quando
seu celular tocou: “Você não
acha melhor vir aqui falar com eles?”, perguntou
um diretor da MTV. Naquele momento, ocorria uma
manifestação na frente da emissora
paulista, na qual se cobravam explicações
pelo envolvimento de Cicarelli com o bloqueio
do site de compartilhamento de vídeos YouTube
e se pedia a demissão da apresentadora.
Organizado pela comunidade
“Protesto – Fora Cicarelli”,
com cerca de 13 mil participantes no site de
relacionamento Orkut, o ato reuniu apenas dez
jovens, um carro de som e inúmeros cartazes.
Pouco, mas o suficiente para atrair o dobro
de jornalistas. Ciente disso, a apresentadora
correu da USP para casa, tomou um banho e foi
para a MTV se encontrar com os manifestantes.
“A Daniella chegou supernervosa aqui”,
conta um funcionário da emissora.
A missão dela era convencer os jovens
de que não havia mentido quando disse
em entrevista à Globo e ao jornal Folha
de S.Paulo que a responsabilidade pelo
bloqueio do site YouTube na segunda-feira 8,
por um dia, não era dela, mas do namorado,
Tato Malzoni. “Lamento a situação”,
disse a apresentadora em nota divulgada horas
depois. Todo o burburinho na MTV foi registrado
por uma equipe da emissora. Segundo um amigo,
desgastada após duas horas de conversa,
ela decidiu procurar um advogado e entrar com
um pedido para sair do processo que moveu junto
com o namorado.
Era mais um capítulo do caso que ficou
conhecido como “Cicarelli x YouTube”
que se iniciou em setembro passado, quando ela
e Tato foram flagrados em cenas picantes numa
praia da Espanha e as imagens foram parar na
internet. Logo depois, o casal entrou com uma
ação na Justiça para impedir
a veiculação das imagens. “Tivemos
nossa privacidade invadida e por isso tomamos
algumas medidas legais”, alegou a apresentadora
na nota. Dias antes da manifestação
na MTV, o desembargador Ênio Zuliani,
do Tribunal da Justiça de São
Paulo, havia ordenado que o vídeo fosse
retirado do YouTube. Por uma interpretação
do juiz Lincoln de Moura, que mandou notificar
as empresas provedoras, o site todo ficou um
dia fora do ar prejudicando pelo menos 5 milhões
de usuários – boa parte deles jovens
telespectadores da estrela da MTV.
A fúria chegou a um ponto em que os
próprios súditos da rainha do
Beija Sapo voltaram-se contra ela.
Segundo um funcionário da emissora, o
gerenciador da comunidade “Protesto –
Fora Cicarelli” já foi candidato
a príncipe no programa Beija Sapo.
Do bloqueio do YouTube, visto como censura,
na contramão da liberdade de expressão,
também nasceu o blog “Boicote à
Cicarelli” – postagens nele pediam
para as pessoas não assistirem à
MTV e preterir todos os produtos anunciados
pela modelo. Pior: mais de 80 mil e-mails de
protesto chegaram à emissora.
“O agravo que culminou com o bloqueio
do YouTube foi pedido na Justiça apenas
pelo Tato. A Daniella sabia que ele pediria
um
agravo, mas não sabia que era para tirar
o site do ar”, garante um amigo da modelo,
que acredita que o namoro não sofreu
abalos com
o fato. “Daniella ficou chateada (com
a repercussão). Mas não tinha
como pedir para o Tato não entrar com
o pedido, ele não é bonzinho,
não é cordeirinho. Ele acha que
houve uma invasão de privacidade e está
p. até hoje.”
O jornalista Mário Rosa, autor de A
Reputação na Velocidade do Pensamento,
sobre imagem e ética na era digital,
acredita que a desconfiança do público
quanto à participação dela
no bloqueio do YouTube é um perigo. “Isso
a coloca no limite da curva Tamburello (onde
Ayrton Senna sofreu o acidente que tirou sua
vida)”, afirma. Ela pode não
ter uma nova chance. “Daqui para a frente
deixa de ser derrapagem e passa a ser capotagem.
Enquanto se discutia uma transgressão
de costume (o namoro tórrido na praia),
não havia manifestações,
falava-se sobre uma controvérsia. Agora,
é o fato de a Cicarelli não ser
confiável que a coloca na posição
de vilã. A falta de transparência
cria rejeição”, completa
Mário Rosa.
O publicitário Sergio Amado, presidente
no Brasil do Grupo Ogilvy e chairman do board
mundial da multinacional inglesa, que detém,
entre outras, as contas da IBM, American Express,
Motorola e Tetra Pak, diz que Cicarelli deveria
ter vindo a público no ato da veiculação
do vídeo assumir que cometeu um equívoco.
“Aquilo não foi invasão
de privacidade, mas de moralidade. E ela foi
entrar numa questão perigosa, como o
YouTube, que mexe com liberdade de imprensa,
censura. Seu currículo já está
bem carregado de confusão”, afirma
o publicitário. “Eu não
faria uma campanha com a Daniella Cicarelli.
Prefiro uma pessoa falando à minha marca
como a Gisele Bündchen, cuja postura privada
é mais correta.”
Mário Rosa, autor de outros dois livros
que tratam de crises de imagem, A Síndrome
de Aquiles e A Era do Escândalo,
é enfático:
“Há um problema de gestão
da marca Cicarelli”. O próprio
Zico Góes, diretor de programação
da MTV, não esconde um erro na condução
do caso do vídeo por parte de sua contratada.
“Cicarelli não sabe o que fazer
por não ter ninguém para assessorá-la.
Ela sempre vem procurar a gente”, afirma.
“(No caso YouTube) o meu chefe,
o André Mantovani (diretor geral
da MTV), falou para a Cicarelli que ela
teria
de se pronunciar.”
Não é primeira vez que a emissora
atende o pedido de socorro da apresentadora.
Como ocorreu em 2005, quando Cicarelli expulsou
a modelo Caroline Bittencourt do castelo onde
se realizava seu casamento com o jogador Ronaldo,
em Paris, a MTV divulgou – e levou ao
ar várias vezes – uma nota à
imprensa isentando Cicarelli de culpa pelo bloqueio
ao YouTube. “Em briga de marido e mulher,
a MTV não mete a colher”, finalizava
o texto, na tevê. Tanto Cicarelli, quanto
o empresário dela, Caíco de Queiróz,
que cuida da imagem da modelo e apresentadora,
foram procurados e não quiseram se manifestar.
O consultor de imagem Mário Rosa, porém,
mete a colher. Ele sugere que o nome de Cicarelli
seja associado a valores positivos. Mas não
agora. O momento é de esperar a poeira
baixar. “Qualquer ação dela
nesse sentido poderia soar falso”, afirma
Rosa.
Apesar de as inúmeras confusões
em que se envolveu prejudicarem, ao fim, o patrimônio
de imagem que construiu, ela ainda dispõe
de talento para colher frutos. Sandra Chayo,
diretora de marketing e
estilo da Hope, grife de lingerie com a qual
a modelo tem contrato
até junho deste ano, afirma que as clientes
da marca, mesmo que
não gostem de Cicarelli, admitem que
ela tem um corpão e que a calcinha cai
bem. “Não há dúvida
(de que a polêmica do YouTube)
afetou a imagem da Cicarelli e da marca. Mas
também não há dúvida
de que ela é uma supermodelo e tem um
supercorpo”, afirma Sandra, que não
descarta usar Cicarelli para a divulgação
de novos produtos da Hope. “Não
é que a gente apoie as coisas que ela
faz, mas ela é uma grande modelo.”
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