Reportagens  
Brainpix
Cicarelli e Tato Malzoni: mais
de 80 mil e-mails de protesto chegaram à MTV e foram criados um blog e uma comunidade no orkut contra a apresentadora
Brainpix
Com a censura ao YouTube, 5 milhões de internautas não puderam acessar o site:
“Lamento a situação”, diz ela
• • •
Capa
Bela polêmica

Daniella Cicarelli envolve-se em nova confusão, revolta
internautas após bloqueio do YouTube, diz que o pedido
para retirar o site do ar partiu do namorado e, agora quer
desistir da ação de veto ao vídeo com cenas tórridas na praia
texto Rodrigo Cardoso e Claudia Jordão
foto edu lopes
 Cronograma: dois anos de confusões
 Envie esta matéria para um amigo
Entre os poemas eternizados pelo cultuado poeta Paulo Leminski, um podia servir de alento para Daniella Cicarelli: “Problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear, o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”. O mais novo problema na vida da modelo de 27 anos e apresentadora do Beija Sapo, na MTV, não esperou o domingo chegar. Na manhã do sábado 13, Cicarelli corria pelo campus da Universidade de São Paulo (USP), quando seu celular tocou: “Você não acha melhor vir aqui falar com eles?”, perguntou um diretor da MTV. Naquele momento, ocorria uma manifestação na frente da emissora paulista, na qual se cobravam explicações pelo envolvimento de Cicarelli com o bloqueio do site de compartilhamento de vídeos YouTube e se pedia a demissão da apresentadora.

Organizado pela comunidade “Protesto – Fora Cicarelli”, com cerca de 13 mil participantes no site de relacionamento Orkut, o ato reuniu apenas dez jovens, um carro de som e inúmeros cartazes. Pouco, mas o suficiente para atrair o dobro de jornalistas. Ciente disso, a apresentadora correu da USP para casa, tomou um banho e foi para a MTV se encontrar com os manifestantes. “A Daniella chegou supernervosa aqui”, conta um funcionário da emissora.

A missão dela era convencer os jovens de que não havia mentido quando disse em entrevista à Globo e ao jornal Folha de S.Paulo que a responsabilidade pelo bloqueio do site YouTube na segunda-feira 8, por um dia, não era dela, mas do namorado, Tato Malzoni. “Lamento a situação”, disse a apresentadora em nota divulgada horas depois. Todo o burburinho na MTV foi registrado por uma equipe da emissora. Segundo um amigo, desgastada após duas horas de conversa, ela decidiu procurar um advogado e entrar com um pedido para sair do processo que moveu junto com o namorado.

Era mais um capítulo do caso que ficou conhecido como “Cicarelli x YouTube” que se iniciou em setembro passado, quando ela e Tato foram flagrados em cenas picantes numa praia da Espanha e as imagens foram parar na internet. Logo depois, o casal entrou com uma ação na Justiça para impedir a veiculação das imagens. “Tivemos nossa privacidade invadida e por isso tomamos algumas medidas legais”, alegou a apresentadora na nota. Dias antes da manifestação na MTV, o desembargador Ênio Zuliani, do Tribunal da Justiça de São Paulo, havia ordenado que o vídeo fosse retirado do YouTube. Por uma interpretação do juiz Lincoln de Moura, que mandou notificar as empresas provedoras, o site todo ficou um dia fora do ar prejudicando pelo menos 5 milhões de usuários – boa parte deles jovens telespectadores da estrela da MTV.

A fúria chegou a um ponto em que os próprios súditos da rainha do Beija Sapo voltaram-se contra ela. Segundo um funcionário da emissora, o gerenciador da comunidade “Protesto – Fora Cicarelli” já foi candidato a príncipe no programa Beija Sapo. Do bloqueio do YouTube, visto como censura, na contramão da liberdade de expressão, também nasceu o blog “Boicote à Cicarelli” – postagens nele pediam para as pessoas não assistirem à MTV e preterir todos os produtos anunciados pela modelo. Pior: mais de 80 mil e-mails de protesto chegaram à emissora.

“O agravo que culminou com o bloqueio do YouTube foi pedido na Justiça apenas pelo Tato. A Daniella sabia que ele pediria um
agravo, mas não sabia que era para tirar o site do ar”, garante um amigo da modelo, que acredita que o namoro não sofreu abalos com
o fato. “Daniella ficou chateada (com a repercussão). Mas não tinha como pedir para o Tato não entrar com o pedido, ele não é bonzinho, não é cordeirinho. Ele acha que houve uma invasão de privacidade e está p. até hoje.”

O jornalista Mário Rosa, autor de A Reputação na Velocidade do Pensamento, sobre imagem e ética na era digital, acredita que a desconfiança do público quanto à participação dela no bloqueio do YouTube é um perigo. “Isso a coloca no limite da curva Tamburello (onde Ayrton Senna sofreu o acidente que tirou sua vida)”, afirma. Ela pode não ter uma nova chance. “Daqui para a frente deixa de ser derrapagem e passa a ser capotagem. Enquanto se discutia uma transgressão de costume (o namoro tórrido na praia), não havia manifestações, falava-se sobre uma controvérsia. Agora, é o fato de a Cicarelli não ser confiável que a coloca na posição de vilã. A falta de transparência cria rejeição”, completa Mário Rosa.

O publicitário Sergio Amado, presidente no Brasil do Grupo Ogilvy e chairman do board mundial da multinacional inglesa, que detém, entre outras, as contas da IBM, American Express, Motorola e Tetra Pak, diz que Cicarelli deveria ter vindo a público no ato da veiculação do vídeo assumir que cometeu um equívoco. “Aquilo não foi invasão de privacidade, mas de moralidade. E ela foi entrar numa questão perigosa, como o YouTube, que mexe com liberdade de imprensa, censura. Seu currículo já está bem carregado de confusão”, afirma o publicitário. “Eu não faria uma campanha com a Daniella Cicarelli. Prefiro uma pessoa falando à minha marca como a Gisele Bündchen, cuja postura privada é mais correta.”

Mário Rosa, autor de outros dois livros que tratam de crises de imagem, A Síndrome de Aquiles e A Era do Escândalo, é enfático:
“Há um problema de gestão da marca Cicarelli”. O próprio Zico Góes, diretor de programação da MTV, não esconde um erro na condução
do caso do vídeo por parte de sua contratada. “Cicarelli não sabe o que fazer por não ter ninguém para assessorá-la. Ela sempre vem procurar a gente”, afirma. “(No caso YouTube) o meu chefe, o André Mantovani (diretor geral da MTV), falou para a Cicarelli que ela teria
de se pronunciar.”

Não é primeira vez que a emissora atende o pedido de socorro da apresentadora. Como ocorreu em 2005, quando Cicarelli expulsou a modelo Caroline Bittencourt do castelo onde se realizava seu casamento com o jogador Ronaldo, em Paris, a MTV divulgou – e levou ao ar várias vezes – uma nota à imprensa isentando Cicarelli de culpa pelo bloqueio ao YouTube. “Em briga de marido e mulher, a MTV não mete a colher”, finalizava o texto, na tevê. Tanto Cicarelli, quanto o empresário dela, Caíco de Queiróz, que cuida da imagem da modelo e apresentadora, foram procurados e não quiseram se manifestar.

O consultor de imagem Mário Rosa, porém, mete a colher. Ele sugere que o nome de Cicarelli seja associado a valores positivos. Mas não agora. O momento é de esperar a poeira baixar. “Qualquer ação dela nesse sentido poderia soar falso”, afirma Rosa.

Apesar de as inúmeras confusões em que se envolveu prejudicarem, ao fim, o patrimônio de imagem que construiu, ela ainda dispõe de talento para colher frutos. Sandra Chayo, diretora de marketing e
estilo da Hope, grife de lingerie com a qual a modelo tem contrato
até junho deste ano, afirma que as clientes da marca, mesmo que
não gostem de Cicarelli, admitem que ela tem um corpão e que a calcinha cai bem. “Não há dúvida (de que a polêmica do YouTube) afetou a imagem da Cicarelli e da marca. Mas também não há dúvida de que ela é uma supermodelo e tem um supercorpo”, afirma Sandra, que não descarta usar Cicarelli para a divulgação de novos produtos da Hope. “Não é que a gente apoie as coisas que ela faz, mas ela é uma grande modelo.”