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Os ganhadores

Publicidade
Eduardo Fischer

Ciência
Mayana Zatz

“O futuro é realizar o sonho de
abrir o capital da holding, em
2008. Quero contar uma história
pra mim”, diz Eduardo Fischer
Fischer ganhou 700 prêmios nacionais e internacionais em 20 anos. A Holding Total tem 100% de capital nacional, emprega 700 pessoas em 9 países da América Latina e em Portugal. O grupo encerra 2006 com faturamento de R$ 800 milhões
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Capa - Personalidade do Ano 2006
Eduardo Fischer

Personalidade do ano na Publicidade, o empresário
abriu este ano a Fischer Portugal, conquistou nove
contas novas, entre as quais as das cervejas Sol e
Kaiser, e completa 25 anos de Fischer América
texto gisele vitória
fotos murillo constantino
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Antes de abrir sua agência aos 19 anos, Fischer ouviu do pai:
“Agência de Publicidade? Filho, você é viado?” Depois, Gregório
Fischer foi seu grande incentivador
O comercial da infância de Eduardo Fischer foi o dos Cobertores Parahyba. Não que o garoto agitado e insone de 7 anos o achasse genial. Ao contrário, a propaganda o irritava. “O jingle era aquele ‘Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar...’”, cantarola o publicitário paulista, presidente da Fischer América e chairman da holding Total. “Meu pai me mandava imediatamente para a cama.” Para a paz do industrial Gregório Fischer, pai do publicitário, o comercial dos anos 60 que encerrava a programação da rede Tupi às 21 horas dava resultados: o menino que aos cinco anos já empinava cavalo era difícil de domar, daqueles que nunca aceitou chupeta para pegar no sono e que atropelava fases. “Eu não engatinhava, eu rolava”, gargalha ele. Como não era de ficar chupando dedo (o vício sua mãe Berta lhe cortou na tenra infância), Eduardo correu atrás do primeiro emprego aos 18 anos e não conseguiu. Montou então, aos 19, uma pequena agência de publicidade. Hoje, Eduardo Fischer é dono de um conglomerado de comunicação e marketing presente em 9 países da América Latina e em Portugal. Encerra o ano com um faturamento de R$ 800 milhões, num crescimento de 15%, dando resultados para clientes como Honda, Vivo e Caixa Econômica. “O futuro é realizar o sonho de abrir o capital da empresa, provavelmente em 2008”, diz o publicitário. “Quero contar uma história pra mim.”

Eduardo Fischer festejou em novembro os 25 anos da Fischer América quatro dias depois de ter completado 50 de idade. Este ano a agência conquistou 9 novas contas, entre as das cervejas Kaiser, Sol e Heineken, da Femsa, um dos maiores grupos cervejeiros do mundo. A expansão internacional do grupo – com 100% de capital brasileiro – deu um grande passo com a primeira filial na Europa, a Fischer Portugal. Um profissional de 700 prêmios nem precisava aumentar sua coleção de troféus, mas a Fischer foi a segunda agência brasileira mais premiada no Festival de Cannes deste ano.

Com a mulher Rony e as filhas Karina, 14, Paloma,
11, e Gabrielle, 9: “Eduardo é um realizador de
sonhos. Pode ser para a família, para os
amigos, para os clientes”, diz Rony
Com suas novas contas, o famoso senhor cerveja, autor de campanhas como “Brahma a número 1” e “Experimenta”, da Nova Schin, declarou de novo a guerra mais esperada do verão: a Sol e a Kaiser avançam nas areias escaldantes com campanhas para cair na boca do povo. A Sol já registra 7% de aumento nas vendas e a Kaiser retoma o crescimento. Apreciador e profundo conhecedor de cervejas, vinhos e uísques, Eduardo Fischer não se lembra de seu primeiro gole de loura gelada. “Provavelmente foi com 18 anos, mas eu não gostava, achava amarga”, diz. Na sua memória gustativa, ficou uma lembrança anterior: o vinho do Porto misturado à gema de ovo que o pai lhe dava aos 10. “Eu adorava. Era um hábito dele. Foi criado em Caxias do Sul, em colônia italiana”, diz.

O pai permeia as histórias do publicitário. Respeitado criador de cavalos da raça Lusitano, Fischer deve a ele suas primeiras cavalgadas aos 3 anos nas férias em Águas de Lindóia. Sua foto no amado pangaré Cauby, que o pai alugava por dois meses, não o deixa mentir. Falecido em outubro do ano passado, Gregório foi um incentivador do filho. “Ele sempre foi meu melhor amigo”, diz. A foto no porta-retrato sobre a mesa de trabalho do empresário em São Paulo fica no seu campo de visão. Provavelmente Gregório foi um dos primeiros brasileiros civis a saber que o Brasil entraria na Segunda Guerra Mundial. Em 1944, sua indústria de confecção, a Imperial Roupas Fischer, era a maior no País. Um militar o obrigou a entrar num avião DC-3 até o Comando Geral do Exército. Depois de supor o pior, respirou aliviado: precisaria confeccionar em 30 dias 5.000 ponchos para o Exército brasileiro ir à guerra. “Acho que ele deu um jeito”, conta Fischer.

Gregório emancipou Eduardo no dia seguinte ao seu aniversário de 18 anos e, de posse do primeiro carro (a marca quase escapa, mas ele se lembra que tem a conta da Honda), rodou cinco mil quilômetros em cinco dias, ao lado de uma namoradinha. “Me lembro da placa: CM-1545”, diz. Aos 19 anos, depois de trabalhar como redator na Rede Globo e de uma temporada em Nova York, ele decidiu que precisava ter sua empresa. Nem havia entrado na faculdade de publicidade mas o pai lhe deu um voto de confiança, passado um primeiro susto: “Agência de publicidade? Meu filho, você é viado?”, reagiu, pelo telefone, ao ouvir o pedido de uma “graninha emprestada” para abrir o negócio com o sócio Tato Gabus Mendes. “Para ele, publicidade era coisa de modelo”, diz Fischer. Depois de uma conversa esclarecedora, Gregório abraçou a causa e o pontapé inicial foi dado.

Hoje, o grupo Total é mais do que uma agência de publicidade. “Deixamos de ser fazedores de anúncios para ser parceiros de soluções estratégicas em comunicação e marketing. Funcionamos como consultores”, explica. Num mercado dominado pelas grandes multinacionais da comunicação, o foco de Eduardo Fischer é expandir a multinacional verde-amarela. “O Brasil é um grande mercado, mas é difícil a empresa nacional conquistar a conta que quer, por causa dos acordos internacionais dos grandes clientes”, diz. Vender? As propostas são constantes. “Não pense que é fácil dizer não”, diz ele, que de 1986 a 1990 manteve a sociedade, junto com Roberto Justus, com a multinacional Young & Rubican. “Mas as propostas vão ser sempre piores do que aquilo que almejo. Ao fundar a Total, em 1998, planejei esse futuro.”

Um futuro planejado e muitos cases no passado. O advogado Sergio Dantino, amigo de Fischer há 30 anos e advogado da empresa, orgulha-se de ter participado de alguns. “Eduardo é um dos mais criativos publicitários que conheci em 45 anos nessa área”, diz.
“Muita gente tem idéia e não realiza. Ele tem e executa.” Assim foi a aventura de reunir a Seleção Brasileira da Copa de 1994 para a campanha da Brahma. Em 11 de outubro de 1993, Dantino atendeu uma ligação de Fischer.

– O que vai fazer este fim de semana? – perguntou o publicitário.
– Nada, é feriado, vou descansar.
– Não tá a fim de viajar? – propôs Fischer. Dantino topou sem saber para onde iria. Encontraram-se no Aeroporto Internacional de Guarulhos. “Vamos dar um pulinho em Paris”, disse Fischer. Só dentro do avião Dantino soube do objetivo secreto da viagem: contratar Raí, Bebeto e Romário para a milionária campanha da Brahma na Copa. Foram três dias sem dormir, viajando entre França e Espanha, onde jogavam os craques, que ainda não estavam oficialmente convocados. “Num jantar com vinho, Raí disse que não faria campanhas de bebida. Eduardo reagiu: ‘Sabe qual o teor de álcool no vinho que você está tomando? 14%. A cerveja tem 4%’. Ele sorriu e aceitou”, conta Dantino. Voltaram exaustos para o Brasil e a operação prosseguiu com contratos de 26 jogadores. Na véspera da final contra a Itália, novo gol de Fischer aconteceu numa reunião com os jogadores no apartamento de Dantino no hotel da Seleção em Los Angeles. “Foi combinado que, se o Brasil fosse campeão, os tetracampeões dariam a volta no estádio com o dedo indicador levantado em referência à Numero 1”, conta. “Assim aconteceu. Foi a emoção do sonho e o maior case publicitário que já vi.”

A exemplo da viagem secreta de trabalho, Eduardo Fischer também é o rei das surpresas em casa. Que o diga sua mulher Rony, com quem é casado há 16 anos. Ela foi brindada em abril do ano passado com uma festa-surpresa no aniversário de 40 anos em O Leopolldo, em São Paulo. “Eu me senti mais importante do que no meu casamento”, conta ela, publicitária que conheceu Eduardo na própria Fischer. “Eduardo faz com que eu me sinta uma rainha o tempo todo. Sou muito apaixonada.” O casal deixou em casa as filhas Karina, 14, Paloma, 11, e Gabrielle, 9, e seguiu para um jantar com “uns ingleses”. Ao chegar lá, Rony encontrou Zizi Possi no palco e uma linda decoração de flores vermelhas. “Achei que ele iria fazer alguma fusão de empresas e não tinha me contado. Quando vi minhas filhas impecáveis chegando com flores para mim comecei a chorar”, conta. “As portas se abriram e 400 amigos cantaram parabéns.”

No seu próprio aniversário de 40 anos, há 10 anos, a surpresa foi para os amigos. Eduardo Fischer convidou 11 amigos para uma viagem- surpresa. “A única coisa que sabiam era que tipo de roupa levar para uma semana em algum lugar do mundo com um amigo em quem confiavam”, conta Rony. Só no avião, a turma foi informada de que era uma viagem para a Patagônia. O grupo passou uma semana inesquecível. “Eduardo é assim, um realizador de sonhos, que cuida de tudo com detalhes. Pode ser para a família, para os amigos, para os clientes. Faz parte da alma dele.”