Reportagens  

Os ganhadores

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Eduardo Fischer

Ciência
Mayana Zatz

Cao Hamburger alimentou seu
filme com algumas memórias do próprio passado, como a vibração com a conquista do tricampeonato, em 1970, e a prisão dos pais
na ditadura militar
O diretor vai desenvolver um programa infantil: “É uma questão de educação nacional. As televisões têm que puxar para
si essa responsabilidade”
Aos 44 anos, Cao Hamburger acumula vários prêmios. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias fez quase 300 mil espectadores em seis semanas e levou os troféus do júri popular no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O curta Frankenstein Punk foi laureado no Festival de Gramado, em 1987, assim como A Garota das Telas, que também foi eleito melhor curta no Festival de Brasília, em 1988
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Capa - Personalidade do Ano 2006
Cao Hamburger

Sucesso nos anos 90 com Castelo Rá-Tim-Bum, o
paulistano livrou-se do rótulo de diretor de programas
infantis ao lançar O Ano em que Meus Pais Saíram de
Férias
, filme de rara unanimidade, que o transformou
na Personalidade do Ano no cinema
texto Mariane Morisawa
fotos claudio gatti
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Cao com Michel Joelsas, protagonista do filme:
como o personagem Mauro, o diretor também
era goleiro, mas, segundo ele, dos bons
Aquele 1970 foi marcante para o menino Carlos. Eufórico, ele acompanhou pela primeira vez uma Copa do Mundo, aos 8 anos. Justo aquela do tricampeonato, da melhor Seleção Brasileira de todos os tempos. O feito de Tostão, Jairzinho, Pelé e Rivellino foi tão absurdo aos olhos da garotada do bairro que mudou o uniforme do time de Cao, apelido antigo de Carlos Império Hamburger. Em vez da camiseta tingida de azul, a camisa canarinho foi adotada. Mas aquele 1970 também foi o ano em que os pais de Cao “saíram de férias”. Amélia passou uma semana na prisão, e Ernst, duas. Um pouco desses dois momentos está em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, filme que ele dirigiu e que foi recebido com elogios pela crítica e com carinho pelo público, alcançando uma bilheteria de quase 300 mil espectadores em seis semanas. Mauro, o personagem, tem 12 anos e deixa sua Belo Horizonte para viver com o avô em São Paulo – os pais estão fugindo da repressão. Por uma dessas coisas da vida, o garoto se vê sozinho e é acolhido no caldeirão cultural que era o bairro do Bom Retiro da época.

Como Mauro, Cao Hamburger era goleiro. E muito bom, em suas palavras. No entanto, o craque do Bandeirantes Futebol Clube era Monique, dona de um chute poderoso, que lembra um pouquinho a Hanna do filme. “Os adversários detestavam perder da gente por
causa da Monique. Era um vexame ser derrotado por um time que tinha uma mulher”, diz o diretor. As lembranças que ajudaram a alimentar o filme são esparsas na memória do cineasta. Da Copa,
ele se lembra da televisão nova, dos fogos de artifício que acordavam
o irmão bebê na hora dos gols, da comemoração em carros pela cidade. “Para mim aquela Copa é a glória, até hoje”, diz ele, que sabe de cor a escalação. Da prisão dos pais, as recordações são ainda
mais nebulosas. Cao se lembra da sensação de incerteza e de uma conversa sobre a escova de dentes da mãe entre a avó Helena, mãe
de sua mãe, e seu tio, irmão de seu pai, coisa que o menino achou inusitada, estando os pais fora de casa. Quando Amélia, sua mãe, voltou, o diretor se recorda de que ela só dormia. Uma semana depois, o menino estava “agarrando no gol”, como se diz no futebol, quando avisaram que seu pai tinha acabado de passar atrás da trave, num
táxi. Ele foi correndo para casa. Cenas que são reconhecidas no filme, ainda que o cineasta goste de frisar que não se trata de autobiografia – também há memórias do roteirista Cláudio Galperin. É mais uma daquelas histórias em que a ficção se alimenta da realidade. Amélia Hamburger concorda. “O filme é o filme, e a vida é a vida”, diz ela, que ficou tocada com duas coisas: a solidão do menino e a solidariedade que ele recebeu da comunidade. Sobre aquele período tão difícil, ela prefere calar.

Até porque não é um assunto que seja comentado na casa de
Ernst e Amélia Hamburger. “Eles não falam, e a gente não pergunta”, diz Cao. “Não deve ter sido uma experiência muito legal.” Ernst nasceu na Alemanha, em 1933, e sua família veio para o Brasil três anos mais tarde, fugindo do nazismo. Físico, foi um dos quatro brasileiros a serem agraciados com o Prêmio Kalinga, concedido pela Unesco para aqueles que se destacam na divulgação científica. Amélia Império Hamburger, de família católica, também é física e pesquisadora respeitada. Eles não participaram diretamente da luta armada, mas ajudaram muita gente. Cao se lembra de brincar com
um rapaz que ficou doente e passou bastante tempo na sua casa. Com quase dois metros de altura, era chamado de Miudinho pelas crianças – o nome verdadeiro é Ottoni Fernandes Jr., jornalista e
autor de O Baú do Guerrilheiro.

Os pais cientistas sempre incentivaram as artes, e isso se vê nas profissões escolhidas pelos cinco filhos: Cao é cineasta, Sônia virou produtora de cinema, Vera é diretora de arte e Fernando é fotógrafo, enquanto a antropóloga Esther dá aulas na Escola de Comunicações e Artes da USP. Crianças, eles tiveram aulas de música e teatro, com amigos do tio, o grande cenógrafo e artista plástico Flávio Império, irmão de Amélia. A peça Chinelo na Bandeja, inventada por Amélia e Flávio quando eram pequenos, passou para a outra geração e era um clássico no quintal da casa no bairro do Butantã, em São Paulo, na época cheio de ruas de terra e terrenos baldios. A vizinhança foi palco também da primeira paixão de Cao. Aos 11 anos, ele conheceu Ana Maria Caira, educadora e autora de livros infantis que é sua mulher até hoje e mãe de seus filhos Antônio, 17, e Carolina, 16 – o rapaz gosta de música e já fez dois curtas, e ela dança balé.

Cao também tentou ser músico antes de descobrir o cinema. No Colégio Equipe, ele formou com Nando Reis a banda Os Camarões, que se apresentava de branco e tocava um misto de rock, reggae e MPB. “Eu me esforçava muito para tocar, não era uma coisa fácil para mim. Daí fui percebendo que não era a minha praia. Infelizmente, porque acho que os músicos estão mais perto de Deus”, diz o diretor de 44 anos, que não é religioso. À procura de um caminho na vida, ele se interessou por um curso de animação. “Foi uma porta de entrada para o cinema, hoje vejo assim”, diz ele, que fez curtas famosos, como Frankstein Punk. Ficou tão célebre que ganhou o rótulo de “diretor de animação”.

O segundo rótulo pregado em sua camisa foi o de “diretor de programa infantil”. Ele estava feliz da vida na TV Cultura depois que o Plano Collor obrigou-o a fechar sua produtora de efeitos especiais e o fim da Embrafilme desmoronou qualquer sonho de dirigir cinema. Fazia a série de animação Urbanóides quando Fernando Meirelles e Roberto Muylaert o convidaram para desenvolver a continuação do bem-sucedido Rá-Tim-Bum. Surgiu assim o Castelo Rá-Tim-Bum, histórico na televisão brasileira.

O programa rendeu também sua estréia em longas-metragens. Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme fez cerca de 800 mil espectadores em 2000. Depois do lançamento, ele partiu para a Inglaterra para trabalhar na produtora que tinha feito o Teletubbies. Foi lá que O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias nasceu do desejo de Cao de se despir do rótulo de “diretor de programa infantil”. “Queria que fosse um filme para adultos que falasse da infância. Era um jeito de fazer a transição”, conta ele, que pretendia fazer uma passagem lenta e gradual para o mundo adulto.

Fernando Meirelles, mais uma vez, desviou-o da rota, convidando-o para dirigir Filhos do Carnaval, minissérie sobre escolas de samba e jogo do bicho exibida pela HBO e indicada ao Emmy Internacional neste ano. “Fui jogado no universo adulto, sem claquete. E foi ótimo”, afirma. Meirelles sempre achou Cao consistente, mas tinha um receio: “Ele tinha fama de ser aquele tipo de diretor que gosta de ter tudo sob controle. Isso fazia com que ele fosse ‘lento’, embora o certo seria chamá-lo de supercriterioso”, diz Meirelles, que confessa ter sido até meio terrorista na pressão para que ele cumprisse os prazos. “Ele não se abalou. Fez tudo absolutamente dentro do cronograma e com uma sofisticação de acabamento que poucos longas brasileiros têm. Estava na cara que estava pronto para o que desse e viesse”, completa o cineasta.

Cao também perdeu qualquer receio depois de perceber que os processos, sejam para adultos ou crianças, são muito parecidos. “E nunca considerei os produtos para criança produtos menores, nunca considerei as crianças seres inferiores”, afirma Cao, que prepara um programa infantil. “Está precisando. É uma questão de educação nacional, as televisões têm que puxar para si essa responsabilidade”, diz. E também dois longas adultos, um com a O2 de Fernando Meirelles e outro, um thriller psicológico sobre a relação do homem com a morte. “Vamos lá. Vamos fazer coisa diferente”, afirma ele, já se desvencilhando de qualquer possível rótulo.