Entrevista  
‘‘Queria tanto conhecer o país
da minha mãe e fui expulso de
casa pela minha avó sueca. Ninguém sabia que eu ia e ela
não falava inglês. Bati na porta
e ela se assustou’’
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Amyr Klink
‘‘Não credito a Deus nada do que fiz’’
continuação

A viagem foi tranqüila?
Foi tensa porque dois amigos que têm criança quiseram ir. Achei que eram muitas crianças mas no final foi o máximo. Fiquei preocupado com a saída pelo Cabo Horn. Entrei de uma vez. Não estava muito fácil, mas não estava terrível. Elas de cara perceberam que onde estavam não era mais lugar de brincar. Criança tem uma sensibilidade para o ambiente maior que a gente. Elas sacam que a situação está dura e não enchem a paciência. Ao contrário de muitos profissionais que são verdadeiros exemplos de covardia a bordo, reclamam porque estão com sono ou porque vai molhar a roupa.

Qual foi o maior medo que passou?
No mar, houve milhares de situações de pânico, mas não me lembro
de uma específica. Uma onda gigante dá no máximo um frio na barriga, como montanha russa. É um medo administrável, daqueles que a
gente gosta. Quando tenho medo, tenho reações muito engraçadas, assobio, faço piada.

Acredita em Deus?
Não. Fui um excelente aluno do Colégio São Luiz, mas eu perguntava: “Por que Deus? As outras religiões estão erradas?”. Não credito a Deus nada do que fiz. Eu não teria dado a volta ao mundo se entrasse no barco e ficasse orando “ó, Deus, me leve!”. Hoje, em casa, sou muito questionado pelas crianças. Uma delas desconfia que eu não acredito em Deus. Ela fala: “Papai, se não existisse Deus, nós não estaríamos juntos agora”. Ela tenta me convencer. Elas são super-religiosas, uma surpresa para mim. Freqüentam a igreja por influência dos avós (maternos). Eu acho importante ter uma religião mas tem que ter discernimento. Uma hora elas vão ter que conhecer outras religiões e decidir por conta própria.

Como lida com a saudade quando está no mar?
Nunca me desligo da família ou dos amigos durante uma viagem. Apenas é um período maior que estou envolvido com o barco. A Marina está sempre monitorando as posições do barco, acompanha o que acontece e resolve problemas daqui. No começo, as crianças sofriam bastante quando se davam conta de que eu tinha saído. Elas queriam o pai, eu estava viajando, elas não entendiam o porquê. Até que começaram a participar do processo de acompanhar. Sou um pai presente. Quando tenho viagens pequenas, levo as crianças. Elas vão brincar no estaleiro, vou buscá-las na escola, a gente almoça junto.

Perdeu algum momento importante do desenvolvimento delas ?
Eu poderia ter sentido quando elas começaram a falar, mas as
palavras foram interessantes. Quando fui fazer a volta ao mundo, elas começaram a falar “balelha” (baleia), “voca” (foca), “inbim” (pingüim) (risos). Não sei por que os animais polares fazem tanto sucesso
com as crianças!

Como foi ser criado entre culturas tão diferentes?
Foi curioso. Minha mãe era um ser desprendido do material. Meu pai era um aventureiro global que se apaixonou pelo Brasil. Adorava jogar em cassinos, gostava de carros, mulheres, maçanetas de ouro, castelos. Ele tinha um círculo de amigos poderoso. Tinha ligação com os reis sauditas, dos Emirados Árabes, autoridades da França. Esse era o círculo de pessoas que jogavam. O problema é que quando ele se casou com a minha mãe as jogadas dele começaram a passar dos limites.

O que ele fazia?
Ele teve idéia de criar um país no Paraná. Ainda não havia o Estado de Israel e ele tinha amigos judeus que queriam encontrar um lugar junto com o irmão de Evita Péron. Ele ficou muito desapontado quando surgiu o Estado de Israel e se tornou um anti-semita radical. A gente morava na Avenida Paulista, éramos vizinhos do Leon Feffer (ex-cônsul de Israel em São Paulo, morto em 1999), que a gente adorava. Mas quando dava aqueles desesperos políticos e diplomáticos no meu pai, o coitado do Leon tinha de contratar segurança. Meu pai gritava: “Vou matar aquele cachorro”. Ele era polêmico. No final, era engraçado.

Como foi conhecer os países de seus pais ?
Eu queria tanto conhecer o país da minha mãe e fui expulso de casa pela minha avó sueca. Ninguém sabia que eu ia para lá, ela não falava inglês. Bati na porta, ela se assustou e bateu a porta na minha cara. Fiquei indignado. No Líbano, vi que meus tios eram mais loucos que meu pai. Meu tio não se conformava de eu não gostar de armas. Falava que era uma vergonha para a família.