Entrevista  
“Sou um pai presente. Quando tenho viagens pequenas, levo as crianças. Elas vão brincar no estaleiro, vou buscá-las na escola, a gente almoça junto”, diz ele
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CONTINUAÇÃO

Piada na hora do medo
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Amyr Klink
‘‘Não credito a Deus nada do que fiz’’
O navegador lança seu quinto livro, conta a viagem de
barco que fez com as filhas pequenas para a Antártica
e diz que as filhas são super-religiosas e ele, ateu
texto: Claudia Jordão
fotos: Fabiano Cerquiari

Não é à toa que o navegador paulista, radicado em Parati (RJ), Amyr Klink, 51, é um desbravador de mares. Filho de sueca com libanês, ele carrega sangue viking e fenício. Primogênito de quatro irmãos, foi criado entre o despreendimento da mãe, que estudou Belas Artes em Paris, e o rigor do pai, que era “daqueles homens que trancavam a mulher em casa”. Economista, é casado há 10 anos com Marina Bandeira Klink e é pai das gêmeas Tamara e Laura, de 9 anos, e de Marina, de 6. Amyr se despede do veleiro Paratii II, construído por ele, para se aventurar por outros mares: construir um barco com motor elétrico ou a hidrogênio. Por enquanto, se ocupa em levar brasileiros endinheirados para a Antártica em parceria com uma empresa norueguesa. Com 250 mil milhas navegadas – quase 13 voltas ao mundo –, este ano ele realizou o sonho de levar a família para uma viagem de três meses para o continente gelado. Agora lança o quinto livro, Linha D’Água (Companhia das Letras, 336 págs., R$ 41), sobre a vida de quem constrói barcos e ganha o mundo ao sabor dos ventos.

Como começou a construir barcos para viajar o mundo?
Inesperadamente. Minha família tinha muitas terras, dívidas e nenhuma receita. Como eu era o filho mais velho, resolvi produzir leite em Parati. Comecei com gado holandês. Tinha uma leiteria na cidade. A gente enchia saco plástico, dava nó e entregava para a pessoa. Ao mesmo tempo, resolvi estudar literatura francesa. Meu pai falava seis idiomas, a minha mãe, cinco, e eles falavam francês quando não queriam que nós entendêssemos. Foi a grande janela para o que faço hoje.

Por quê?
Descobri o mundo que vivo hoje na Livraria Francesa, em São Paulo. Lá, encontrei diários de viagem de navegadores da França. Caiu em minhas mãos o relato de Jérôme Poncet e sua mulher Sally, e falei: “Pumba!” Anos antes, tive o privilégio de conhecê-los. Eles estiveram em Parati por quatro meses juntando alimentos para descer para o Sul. Isso foi antes de eles irem pela primeira vez para a Antártica. Até então nenhum barco pequeno tinha ido. Era como partir para além do precipício.

Demorou para realizar seu sonho?
Foi muito lento porque não é o tipo da coisa que você decide e acontece. Queria muito fazer um veleiro, mas não sabia como começar. Ouvia que tinha que pertencer a um clube de vela, mas eu detestava todos. Precisa andar com uniforme branco, barcos olímpicos, regras de regata. Eu vivia num mundo onde as regras não eram artificiais, mas de sobrevivência. Passei a visitar estaleiros. Era um intruso, um cara de Parati que fazia um monte de perguntas, mas que nunca ia comprar um barco. Aí houve um desvio de caminho, que foi a viagem que fiz a remo (sozinho, da África ao Brasil, em 1984). Ganhei notoriedade e quando voltei foi diferente.

Como foi levar sua família para a Antártica?
Sempre tive vontade, mas tinha o cuidado de não impor esse mundo náutico para as meninas. Vivi anos com franceses, desprendidos e duros, que viajam para locais inacreditáveis, que levam ou fazem filhos lá. Nisso, continuo muito brasileiro. Não tenho o desprendimento de assistir ao nascimento de filho no mato. Ano passado, fiz a quinta viagem com o Paratii II para a Antártica. Foi uma viagem difícil, cheia de compromissos. Aí veio o convite da minha mulher para fazermos a viagem. Foi muito legal, teve até caça ao tesouro.

Que tesouro?
Há uns quatro anos, eu e uns amigos estávamos bebendo vinho e tomando sol sem camisa na Antártica e resolvemos arrumar uma desculpa para voltar. Aí escondemos um tesouro. Eu nunca tinha falado para as minhas filhas porque não tinha muita importância. Quando contei para a Marina virou uma coisa. Levamos pá e tudo. Era uma caixa com bobagens, garrafas de uísque, canivete, lanterna, termômetro, fotos. E o dinheiro que eu tinha na carteira.