 |
| “Não
existia outra opção. Falamos de identidade e
devastação. E isso é o Tietê’’ Antônio Araújo
|
Desde setembro de 2005, a primeira coisa que o encenador
Antônio Araújo, o Tó, pensava ao
acordar era correr ao computador. Sua preocupação
soaria fútil à maioria dos mortais. Para
o diretor do Teatro da Vertigem, grupo que, há
14 anos, causa sensação com espetáculos
incomuns, navegar pelos sites de meteorologia em busca
das possibilidades de chuva definiria seu dia. “Virou
obsessão”, diz ele. Foi nessa época
que o Vertigem começou os ensaios de BR-3, saga
escrita por Bernardo Carvalho e dirigida por Araújo
orçada em R$ 900 mil, no palco pouco convencional
para o qual foi concebida, o Rio Tietê, na capital
paulista. Se chovesse, o trabalho estaria suspenso.
 |
 |
|
A ação de BR-3, texto de Bernardo
Carvalho (ao lado),
se
passa em barcos e nas
margens do Tietê |
BR-3 foi encenado de março a maio deste ano.
Em uma embarcação, espectadores acompanhavam
a vida de uma nordestina que chefia o tráfico
de drogas na Vila Brasilândia, em São Paulo,
e momentos de sua história nas cidades de Brasília
e Brasiléia, no Acre. A maioria das cenas se
realizava em barcos ou nas margens do Tietê. O
cenário é defendido pelo diretor mineiro
de 41 anos, radicado em São Paulo desde os 16.
“Não existia outra opção.
Falamos de identidade e devastação. E
isso é o Tietê”, afirma Araújo.
Montar espetáculos pouco convencionais é
marca do Vertigem. A trilogia bíblica (1992-2001)
é formada por Paraíso Perdido, que estreou
em uma igreja, O Livro de Jó, encenado em um
hospital, e Apocalipse 1.11, lançado no presídio
do Hipódromo. BR-3 é a radicalização.
Uma experiência iniciada no final de 2003, quando
o grupo, contemplado com a Lei de Fomento da Prefeitura
de São Paulo, começou uma pesquisa na
Brasilândia que ainda passaria por Brasília
e Brasiléia. Araújo tinha apenas a convicção
de que o espetáculo falaria do País
a partir das localidades que tinham em comum o radical
“Brasil”. “Poderia dar em nada,
mas faríamos uma pesquisa séria”,
diz a assistente de direção Eliana Monteiro.
“Essa capacidade de enfrentar o risco é
uma coisa que o Vertigem não pode perder, mas
só tive certeza de que BR-3 aconteceria quando
o Bernardo nos apresentou um roteiro na volta da viagem.”
Com os ensaios, veio aquele que o elenco julgava
o maior desafio: enfrentar o Tietê. O frio e
o barulho do trânsito foram inimigos constantes.
Vacinas contra tétano e hepatite e doses semanais
de antibiótico contra a leptospirose viraram
rotina. Em março, BR-3 estreou como um acontecimento.
Poucos ficaram indiferentes à montagem. Passados
dois meses, porém, Araújo viu que a
instabilidade meteorológica era uma preocupação
infantil. Um aumento nos custos, principalmente no
serviço dos barcos, obrigou BR-3 a sair de
cartaz com menos de 50 apresentações.
“Dois anos e três meses de criação
e, agora, nenhuma perspectiva”, lamenta o diretor.
As dívidas com a Lei de Fomento e a Petrobras
estão sendo negociadas. O cineasta Evaldo Mocarzel
trabalha em um documentário sobre BR-3, e o
que existe é a possibilidade de mostrar o espetáculo
no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, em
outubro. “O Tó se defende o tempo inteiro,
diz que é ilusão nossa, mas eu não
parei de procurar patrocinadores”, afirma Eliana,
que não está sozinha no coro otimista.
“Sei que não naufragamos. Sofremos apenas
algumas avarias”, concorda o iluminador Guilherme
Bonfanti. |