Diversão & arte - Teatro  
Os melhores de 2006 - Perfil
A provação do Teatro da Vertigem
Encenado no Rio Tietê, em São Paulo, o espetáculo
dirigido por Antônio Araújo foi concebido durante mais de
dois anos e tenta driblar os altos custos para voltar a cartaz
texto dirceu alves jr.
foto claudio gatti
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Claudio Gatti
“Não existia outra opção. Falamos de identidade e
devastação. E isso é o Tietê’’ Antônio Araújo
Desde setembro de 2005, a primeira coisa que o encenador Antônio Araújo, o Tó, pensava ao acordar era correr ao computador. Sua preocupação soaria fútil à maioria dos mortais. Para o diretor do Teatro da Vertigem, grupo que, há 14 anos, causa sensação com espetáculos incomuns, navegar pelos sites de meteorologia em busca das possibilidades de chuva definiria seu dia. “Virou obsessão”, diz ele. Foi nessa época que o Vertigem começou os ensaios de BR-3, saga escrita por Bernardo Carvalho e dirigida por Araújo orçada em R$ 900 mil, no palco pouco convencional para o qual foi concebida, o Rio Tietê, na capital paulista. Se chovesse, o trabalho estaria suspenso.
Claudio Gatti Claudio Gatti
A ação de BR-3, texto de Bernardo Carvalho (ao lado),
se passa em barcos e nas margens do Tietê
BR-3 foi encenado de março a maio deste ano. Em uma embarcação, espectadores acompanhavam a vida de uma nordestina que chefia o tráfico de drogas na Vila Brasilândia, em São Paulo, e momentos de sua história nas cidades de Brasília e Brasiléia, no Acre. A maioria das cenas se realizava em barcos ou nas margens do Tietê. O cenário é defendido pelo diretor mineiro de 41 anos, radicado em São Paulo desde os 16. “Não existia outra opção. Falamos de identidade e devastação. E isso é o Tietê”, afirma Araújo.

Montar espetáculos pouco convencionais é marca do Vertigem. A trilogia bíblica (1992-2001) é formada por Paraíso Perdido, que estreou em uma igreja, O Livro de Jó, encenado em um hospital, e Apocalipse 1.11, lançado no presídio do Hipódromo. BR-3 é a radicalização. Uma experiência iniciada no final de 2003, quando o grupo, contemplado com a Lei de Fomento da Prefeitura de São Paulo, começou uma pesquisa na Brasilândia que ainda passaria por Brasília e Brasiléia. Araújo tinha apenas a convicção de que o espetáculo falaria do País a partir das localidades que tinham em comum o radical “Brasil”. “Poderia dar em nada, mas faríamos uma pesquisa séria”, diz a assistente de direção Eliana Monteiro. “Essa capacidade de enfrentar o risco é uma coisa que o Vertigem não pode perder, mas só tive certeza de que BR-3 aconteceria quando o Bernardo nos apresentou um roteiro na volta da viagem.”

Com os ensaios, veio aquele que o elenco julgava o maior desafio: enfrentar o Tietê. O frio e o barulho do trânsito foram inimigos constantes. Vacinas contra tétano e hepatite e doses semanais de antibiótico contra a leptospirose viraram rotina. Em março, BR-3 estreou como um acontecimento. Poucos ficaram indiferentes à montagem. Passados dois meses, porém, Araújo viu que a instabilidade meteorológica era uma preocupação infantil. Um aumento nos custos, principalmente no serviço dos barcos, obrigou BR-3 a sair de cartaz com menos de 50 apresentações. “Dois anos e três meses de criação e, agora, nenhuma perspectiva”, lamenta o diretor. As dívidas com a Lei de Fomento e a Petrobras estão sendo negociadas. O cineasta Evaldo Mocarzel trabalha em um documentário sobre BR-3, e o que existe é a possibilidade de mostrar o espetáculo no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, em outubro. “O Tó se defende o tempo inteiro, diz que é ilusão nossa, mas eu não parei de procurar patrocinadores”, afirma Eliana, que não está sozinha no coro otimista. “Sei que não naufragamos. Sofremos apenas algumas avarias”, concorda o iluminador Guilherme Bonfanti.