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Os melhores de 2006 - Perfil
O mundo de Ignácio de Loyola Brandão
Escritor recria em A Altura e a Largura do Nada
as memórias de sua araraquara natal e, aos
70 anos, quer trabalhar menos e viver mais
texto Dirceu Alves Jr.
foto Murillo Constantino
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Ignácio se inspirou em conterrâneos ilustres, como
Ruth Cardoso e Zé Celso, para o novo livro

A primeira vez que Ignácio de Loyola Brandão sentiu o coração saltar pela boca diante de uma mulher foi em 1945. O moleque cruzava, volta e meia, uma rua de sua Araraquara e se fixava em uma jovem, de 18 anos, que contemplava o tempo passar na janela. Ignácio cresceu, sentiu o coração palpitar outras vezes, casou e descasou. Mais de quatro décadas depois, em 1986, o já consagrado escritor se casou com a arquiteta Márcia Gullo, conterrânea de Araraquara, 21 anos mais jovem. Numa reunião de família, veio a surpresa. A tal mulher da janela era tia de Márcia, que, na infância, atendia pelo apelido de Vandinha por sua semelhança com a parente. “A vida tem dessas coisas. Eu me apaixonei pela Márcia 12 anos antes de ela nascer”, afirma o escritor.

São histórias desse tipo, simples, curiosas, ternas, que formam o romance A Altura e a Largura do Nada, misto de memória e invenção, como se fosse o filme Amarcord, de Federico Fellini. O idílio do garoto e Vanda bem que poderia, mas não está no livro. Nele, Ignácio reserva a vaga de protagonista para a cidade. Os outros personagens são personalidades ou anônimos que nasceram ou passaram por lá. O diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa cresceu com Ignácio. Tônia Carrero lambuzou-se com pão e manteiga na padaria central, e até Pelé e Jean-Paul Sartre se cruzaram em Araraquara. Outra filha ilustre e personagem do livro, a socióloga e ex-primeira-dama Ruth Cardoso também tem suas histórias. “O Ignácio foi aluno da minha mãe e lembro-me de sua adolescência. Pouco depois, ouvia falar dele pelo meu pai, que escrevia para o jornal local, e elogiava Ignácio”, lembra Ruth Cardoso.

Foi por “ser pobre” que Ignácio parou no jornalismo. Começou como crítico de cinema para assistir de graça aos filmes. Quando se mudou para São Paulo, em 1956, conhecia de cor as malandragens de uma redação e, logo, encontrou emprego. O primeiro livro, Depois do Sol (1965), reunia contos sobre a noite, coisa que o jovem dominava, pois batia ponto nos bares e via a bossa nova nascer. “Meu sonho era ser Scott Fitzgerald. Ele escreveu A Era do Jazz, e eu queria fazer A Era
da Bossa
”, brinca. O sucesso veio com Bebel que a Cidade Comeu
e Zero, que arrepiou os cabelos dos militares e, depois de liberado, vendeu como água. Ignácio viveu de direitos autorais na década de 80.
Só voltou ao jornalismo em 1990, depois do Plano Collor, que deixou o escritor e o País falidos.

Hoje, aos 70 anos e com 31 livros, Inácio é repórter free-lancer e se garante. “Tenho tudo o que preciso. O que não tenho mais é saúde para virar noite em redação”, diz. Essa consciência, de trabalhar menos e viver mais, fortaleceu-se em 1996, quando sofreu um AVC e percebeu a fragilidade da vida. “Hoje eu quero mais é perder tempo”, afirma Ignácio, que redescobriu, inclusive, a relação com os filhos, o agrônomo Daniel, 34, o fotógrafo André, 32, e Maria Rita, 22, que estuda canto. “Quero ficar mais tempo com eles. Viajo com minha mulher nos finais de semana. Se preciso entregar um texto na segunda, tudo bem. Faço na volta e, se não der tempo, o mundo não acaba.”