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Luís Beltrani, 92 anos
A luta do poeta sem-terra

O lavrador Luís Beltrani escreve textos para os homens do campo, já percorreu 1.580 quilômetros entre Rio e Brasília e sonha com a reforma agrária

Luís Edmundo Araújo

Leandro Pimentel
“Espero poder viver para ver uma reforma agrária completa”, diz o lavrador Luís Beltrani, o mais velho integrante do Movimento dos Sem Terra

“Eu nos 92 anos, sempre na luta, lutando, eu penso a noite inteira em Eldorado de Carajás e em tudo o que aconteceu, na Fazenda Macaxeira.” O início da poesia mais conhecida do trabalhador rural Luís Beltrani de Castro não deixa dúvidas. O massacre dos 19 sem terra ocorrido no Pará, em 1996, é lembrança inesquecível na vida do representante mais antigo do Movimento dos Sem Terra (MST). A bandeira carregada pelo lavrador também tem lhe trazido prestígio. Depois de virar um dos símbolos do MST, Beltrani foi homenageado este mês com a Medalha Chico Mendes de Resistência, oferecida anualmente pelo Grupo Tortura Nunca Mais. Nada disso, porém, o faz esquecer das dificuldades da agricultura no início do século e de como era difícil viajar de um ponto a outro do País. “Hoje tem condução para tudo que é lugar”, diz Luís, que aos três anos acompanhou a família durante 15 dias de viagem – a pé, de barco e de trem – de Paramirim, no sertão da Bahia, até Bebedouro, em São Paulo. Filho do lavrador Antônio Pereira de Castro e de Josina de Jesus Castro, Beltrani não conheceu outra vida que não fosse a do trabalho na terra. Alfabetizado pelo próprio pai, que o ensinou a escrever o nome aos 14 anos, o lavrador nunca deixou de fazer suas poesias, em que a reforma agrária é tema freqüente. “Espero viver para ver uma reforma completa”, diz. Os animais sempre foram seus instrumentos de trabalho. “Amansei muito boi para trabalhar na roça. Hoje tem trator, é tudo mais fácil”, afirma. Com 47 netos, 25 bisnetos e dois tetranetos, Beltrani vive junto com um de seus oito filhos, Dejalma, 62, no assentamento do MST em Promissão, no interior de São Paulo. Depois da morte da mulher, Avelina Angélica de Castro, em 1966, Beltrani passou a viajar por todo o Brasil, sempre como bóia-fria. Foi com o MST que iniciou-se na política. Antes de aderir ao movimento, em 1987, o lavrador acompanhava de longe as mudanças no País. No governo João Goulart, chegou a acreditar que a reforma agrária sairia do papel. “Mas veio o Castello”, lamenta, referindo-se ao primeiro presidente do regime militar de 1964). Nessa época, Beltrani ainda gastava um dia da semana viajando a cavalo para vender sua produção na cidade. O segredo para sua longevidade está na ponta da língua. “Como de tudo e bebo também, um pouquinho de cada coisa, mas não até cair”, ensina, sem tirar o sorriso do rosto. Nas quatro marchas organizadas pelo MST, Beltrani mostrou que saúde não lhe falta. Na principal delas, entre julho e outubro de 1999, andou 1.580 quilômetros do Rio de Janeiro a Brasília. Algum cansaço? Nem pensar. “O pessoal tinha de me segurar porque eu andava rápido demais”, diz, rindo, ao lembrar da façanha.

 


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