 |
| Família
atravessa os Estados Unidos para
participar de concurso de beleza no filme
consagrado no Festival de Sundance |
O cinema exige uma ética? Pergunta difícil.
Certo é que a abordagem de cada filme merece um
cuidado na exposição dos personagens. Consagrado
no Festival de Sundance, a meca dos independentes, e sucesso
de público nos Estados Unidos, Pequena Miss
Sunshine se encaixa nesta questão. O primeiro
longa da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris, que tem
um gordo currículo na direção de
clipes, pode não ser um achado estético,
mas provoca e cria alguma graça. Todos os personagens
são apresentados como esquisitos e, nesta vampirização,
nem mesmo o mundo infantil é poupado.
Pequena Miss Sunshine segue a tendência
do cinema independente norte-americano. Centra foco
na família, expondo bizarrices e crises para
resumir um país em frangalhos, como se viu no
recente Eu, Você e Todos Nós,
de Miranda July. Há o avô (Alan Arkin)
devasso e viciado em heroína, o pai (Greg Kinnear)
falido financeiramente e em sua autoridade, a mãe
(Toni Collette) meio baqueada, o tio intelectual suicida
(Steve Carell), o filho rebelado com a vida e a tal
caçulinha, Olive (Abigail Breslin). Meio gordinha,
ela usa óculos fundo de garrafa e é classificada
por engano para um concurso de miss infantil. Disposto
a não naturalizar as esquisitices, o filme ganha
fôlego com a epopéia estabelecida a partir
do convite para o concurso de beleza. Rumo à
tentativa de estrelato, a família pega uma Kombi
e cruza os Estados Unidos, desnudando cacoetes da cultura
norte-americana e lavando roupa suja.
Essa virada se dá em tom cômico, claro,
o que funciona muito bem, principalmente pelo talento
dos intérpretes. O registro para o riso encontra
associação no cinema de Todd Solondz (Felicidade
e Histórias Proibidas), que também
debocha dos personagens num determinismo que os prende
em suas desgraças. Pequena Miss Sunshine
não chega a ser tão bem-sucedido quanto
as realizações de Solondz, mas a seqüência
do concurso, que critica ferozmente a indústria
de consumo, define o propósito dos diretores.
Iniciados pela MTV de Beavis&Butt-Head e
afins, o importante para eles é tirar sarro.
Nem que para isso seja necessário expor qualquer
um ao ridículo. Escola MTV.
|