Entrevista  
"Fisicamente eu era um
negócio atrapalhado. Usava
uma sobrancelha enorme, roupas escuras. Estava me escondendo
do mundo, era esquisita mesmo"
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Marcia Tiburi
‘‘Não sabia que casamento precisava de sexo’’
continuação

Esteticamente bem resolvida?
Eu era um gurizão. De usar cabelo curto. Me achava toda torta. Até hoje não gosto que ponham defeito ou façam elogios sobre nada meu. Tive de fazer muita força para me relacionar com o espelho. Lembro de minhas tias reclamarem do meu jeito de andar. Gosto de andar curvada, da minha corcundisse. Eu era uma adolescente que achava tudo meio idiota e sem sentido.

Seu primeiro namorado e sua primeira transa foram
com quantos anos?
Dezoito. Mas não perdi a virgindade com o primeiro namorado. Eu já era feminista e tive uma história com um garoto, que durou uma noite e nem me lembro o nome dele. Um dia, resolvi transar com ele com o único objetivo de não ser mais virgem, sem nenhum romantismo. Depois, comecei a namorar o pai da Maria Luiza (hoje com 9 anos), aos 19 anos. Ele era poeta, virou jornalista e, depois, advogado. Casei com ele porque não gostava de mim. Fui atrás de um esconderijo. Ele era protetor e eu precisava de alguém que segurasse todas as ondas.

Quantos anos ficou casada?
Dos 21 aos 31 anos. Era cômodo. Tanto que o meu ex já estava arranjado, dois anos depois de a nossa filha nascer, com uma amiga minha. Eu estava escrevendo no computador, eles passavam e diziam: “Vamos tomar uma cerveja, comer pizza?”. E eu: “Vão vocês que eu tô engrenada numa história aqui”. Eu desconfiei, mas não queria ver. Minha vida de casada era eu no quarto com os livros e ele chegando tardíssimo em casa, 7h, 9h da manhã.

Quando resolveu dar um basta no casamento?
Aos 29 anos. Minha mãe e amigas conversavam comigo e vi que tinha algo errado. Por exemplo, eu não sabia que casamento precisava de sexo. Ficávamos anos sem transar. Não era um casamento, mas uma circunstância. Aos 29, terminei o doutorado, olhei para a Lulu e pensei: “Que mãe eu quero ser?”. Fisicamente, eu era um negócio atrapalhado. Usava uma sobrancelha enorme, roupas escuras com mangas compridas, óculos enormes. Estava me escondendo do mundo, era esquisita mesmo. Não fui boa esposa e ele não foi bom marido. Fui embora de casa. O pai da Lulu é um amigo dela. Mas ela substituiu o pai com a figura do Fernando (atual marido de Marcia).

Como conheceu o Fernando?
Em 2004, fiz o Café Filosófico (programa da tevê Cultura). Ele me viu na tevê e me mandou um e-mail. Trocamos desenhos, ele me mandou o disco que havia lançado e músicas amorosas que havia coletado para eu ouvir. Um dia, ele falou: “Ah, a gente precisa se conhecer”. E eu falei: “Vem aqui!”. E ele foi. Fui recebê-lo no aeroporto de Porto Alegre. A senha era: ele estaria de violão nas costas. Só que, antes dele, chegou um baixinho, de barba, com cabelos por cima do rosto, corcundinha, e o violão arrastava no chão de tão baixinho que ele era. Eu pensava: “Putz, me ferrei. Que feio!”. Mas, depois, vi uma pessoa de costas esperando as malas, com o violão. Era ele. Fernando ficou o Carnaval. Eu sumi das minhas amigas e disse a elas, depois: “Eu estava numa festa da carne”.

Já fez análise?
Minha primeira tentativa foi aos 24 anos. Eu sofria muito porque tinha uma intensa vida interna, cheia de pesadelos, sonhos, elucubrações, teorias, escritos e lidos, e coisas demais que eu não dava conta de elaborar. Parei a análise quando estava grávida. A Lulu nasceu e comecei outra, que durou quatro, cinco anos. Cheguei para ela (terapeuta) e minha primeira frase foi: “Quero ser outra pessoa”.

Que tipo de pessoa?
Tinha 29 anos e era vegetariana, não bebia, não fumava, não tinha sexo no casamento. Uma vez fui a um congresso em Ouro Preto e tive um sonho que mudou minha vida. Sonhei que estava na casa de meu pai e um psicopata rondava a casa. Meu pai dizia: “Não te preocupa com ele”. Mas me preocupei. Esse psicopata foi na vizinha, uma negra que tinha cinco filhas e matou todas as meninas. Quando eu chego na casa, o psicopata tinha jogado a carne fora e com a pele escrito caracteres que não consegui decifrar. Pensei que esse psicopata fosse alguma figura minha que estava revoltada comigo. Como se meu desejo, minha carne, meu lado animal, estivesse sendo massacrado por uma idéia que eu tinha de que a vida era puro espírito, intelecto, raciocínio, cultura, uma filosofia separada do corpo.

O que mudou a partir desse sonho?
Descobri que eu tinha outras pessoas por dentro que precisavam nascer. Fui me transformando, sendo uma pessoa mais normal. Tipo, comprar roupa, sapato, tirar sobrancelha. Passei a passar batom,
usar brinco, a beber vinho de leve, a me preocupar que eu tinha de arranjar um namorado, a ter um cuidado com o mundo feminino. Antes, era de homem para homem! Fiz análise até os 33. Chega uma hora
que perde o sentido.

Agradecimentos: tintas sherwin williams