Entrevista  
Marcia fez análise por duas
vezes. “Minha primeira frase foi:
‘Quero ser outra pessoa’”
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Marcia Tiburi
‘‘Não sabia que casamento precisava de sexo’’
A filósofa conheceu o marido pelo computador, conta
que, aos 18 anos, resolveu transar para não ser mais
virgem e fala das companheiras de Saia Justa
Rodrigo Cardoso
fotos: edu lopes

E la é a segunda de cinco filhos de um funcionário público aposentado e de uma dona de casa. Nasceu em Vacaria (RS), e no Sul graduou-se em Filosofia e Artes Plásticas e tornou-se mestra e doutora em Filosofia. Mas foi em São Paulo que ganhou notoriedade. Aos 36 anos, mãe de Maria Luiza, de 9, e esposa do músico Fernando Chuí, Marcia Tiburi mudou-se para a capital paulista no começo do ano e é uma das apresentadoras do Saia Justa, do GNT. Marcia, que começou a flertar com as câmeras de tevê no Café Filosófico, da Cultura, acaba de lançar seu segundo romance, A Mulher de Costas.

O Saia Justa é uma espécie de análise?
Serve de um grande e louquíssimo aprendizado. Ali, cada pessoa mostra apenas um lado de si. Eu me vendo, descobri que sou um cubo, tem pelo menos outros cinco lados que as pessoas não vêem. Apesar de não ser espectadora de tevê, no início, não me senti estranha no meio das outras integrantes. O estranho não era elas, mas a conversa.

A comunicação?
Era difícil como cada pessoa não conseguia compreender o jargão da outra. O que mostra que, para conversar, é necessário o afeto mediando. Eu gostei delas. A Betty (Lago) é de uma inteligência cômica. É tão encenado, histriônico, palhaço, o jeito que ela conta as coisas. A Mônica Waldvoguel tem vocabulário rico, elaborações. A Luana (Piovani, que não faz mais parte do Saia Justa) tem a espontaneidade e ingenuidade que são bonitas, mas, às vezes, me enchiam, com todo carinho e respeito que tenho por ela.

Como assim?
Às vezes, eu queria que a conversa ficasse mais densa e ela fazia
umas perguntas, escancarava, escrachava. Eu falava sobre um assunto que exigia determinado grau de atenção e algum conhecimento prévio
e ela tratava como se eu fosse doida, falando um negócio que ninguém entendeu, quando na verdade era só ela que não havia entendido.

E hoje, com as novas integrantes?
A conversa é outra. A Maitê é muito inteligente, uma boa conversa. E
a Ana Carolina gosta de ler e eu respeito muito pessoas que gostam
de livros. Essa equipe é mais trágica, a outra, mais cômica. A tragédia lida com o ser humano quando ele está lançado no limite – e o meu registro é trágico.

Como foi sua infância, em Vacaria?
Lá, havia os fazendeiros muito ricos e o resto da população. Eu era da plebe rude. Minha tia, que é minha madrinha, era muito sui generis. Eu vivia no cemitério por causa dela. Sabe a imagem da infância que mais me pega? É o cemitério de Vacaria. Minha tia curtia esse ambiente. Não de um jeito mórbido, mas bonito. Lá, a gente brincava, ficava lendo túmulos, dava água para os mortos. E tinha as lendas, superstições. O cemitério foi o meu playground. Só adulta fui achar isso esquisito.

O que seus pais achavam disso?
Eles não falavam nada. Na verdade, meus pais não falavam. Na minha família não se conversa até hoje. Meu pai vive na dele, minha mãe, na dela e eu na minha. Não existia diálogo entre nós. Por temperamento. Não havia desamor, agressividade, egoísmo, é um modo de ser no silêncio. Isso inclui, muitas vezes, não estar junto deles. Tenho uma ligação de respeito, bom afeto, mas não sou apegada aos meus pais. Fui uma adolescente ruim. Era angustiada, sofria pra caramba. Não tinha turma, amigos, não entendia nada, era tudo estranho. Nunca tive namorados na adolescência. Vivia para estudar e ler os livros. Ao mesmo tempo, os livros ajudaram a me tornar mais complicada.