Saúde  
Quando elas bebem demais
Cresce o alcoolismo entre mulheres no País e
doenças do fígado podem aparecer em cinco
anos de ingestão alcoólica excessiva
Sérgio de Paula Ramos
Divulgação
Ramos: a mulher é mais
frágil para o álcool
O movimento feminista trouxe para as mulheres uma série de conquistas. Pena que não só isso, pois nos últimos 10 anos as mulheres, dispostas a garantir seus feitos, tornaram-se presas fáceis da propaganda que, deste modo, as convenceu de que têm o direito de fumar e o de consumir bebidas alcoólicas.

De fato, estatísticas recentes, oriundas de diferentes regiões do Brasil, dão conta que as moças estão fumando mais que os rapazes e que em alguns serviços de tratamento já chegam à equivalência do número de homens as mulheres que procuram se recuperar do alcoolismo. Há 30 anos, no Brasil, a proporção era de 10 homens abusadores de álcool para cada mulher. Esta proporção tem caído e, em 2004, na cidade de Pelotas (RS), Juvenal Soares Dias da Costa (do Departamento de Medicina Social da UFPel), encontrou 8 para 1. Já em 2005, na Bahia, o pesquisador Almeida Filho percebeu uma relação de 6 para 1.

Está claro que num país onde mais que a metade da população é constituída por mulheres, a indústria do álcool passou a ver nestas um valioso mercado a ser expandido e as louras monumentais das propagandas de cerveja pretendem passar para o imaginário feminino que, se beberem, ficarão com o corpo delas e estarão cercadas de tantos homens quanto elas nos comerciais.

Quem entende um mínimo de fisiologia humana sabe que a verdade é o inverso, que quem bebe ganha peso e demonstra tendência a reter líquidos. Mais que isso: como a mulher tem uma adaptação biológica ao álcool inferior à do homem, apresenta conseqüências mais cedo e com menor dose ingerida. Tome-se, por exemplo, o caso da cirrose, doença do fígado causada pela ingestão crônica de álcool. Um homem, para apresentá-la, necessita de uma média de 10 a 15 anos de ingestão pesada de álcool, enquanto para a mulher, às vezes, 5 anos são suficientes.

Outro lado perverso no aumento de consumo de álcool por mulheres é a questão de beber na gravidez. Fetos expostos ao consumo de álcool por parte das gestantes podem desenvolver a chamada síndrome do alcoolismo fetal, doença grave e irreversível, na qual a criança nasce com retardo mental e um rosto deformado. Como as pesquisas não foram capazes, até agora, de evidenciar uma dose de bebida alcoólica que seja de consumo seguro durante a gestação, as autoridades médicas não relutam em propor às suas clientes a abstinência na gravidez.

Quanto ao alcoolismo propriamente dito, há diferenças nos quadros clínicos de homens e mulheres. Estas, quando a doença já está instalada, tendem a um beber mais solitário e em casa, sendo típico o cenário de garrafas de bebida escondidas em armários e cantos secretos. Devido à contínua colisão com mesas e demais móveis, também é característica a permanente presença de manchas roxas nas pernas da mulher alcoólica.

Por tudo isso, torna-se um imperativo de nossos dias a percepção que o pilequinho continuado não é mais privativo dos homens. Cabe aos familiares e aos profissionais de saúde a precoce suspeição diagnóstica e o incentivo para a busca de auxílio especializado que, quanto mais cedo for oferecido, maiores serão as chances de sucesso.

Sérgio de Paula Ramos Psiquiatra e psicanalista, trabalha na unidade de Dependência Química do Hospital
Mãe de Deus de Porto Alegre, respeitado centro de tratamento de dependência química, e preside a Associação
Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)

 
Pílulas
 
» Trabalhos brasileiros recentes demonstram que as adolescentes estão
bebendo tanto quanto os rapazes

» Com a mesma quantidade de bebida alcoólica ingerida, as mulheres
apresentam danos mais rapidamente e de forma mais severa que os homens

» A percepção por parte de familiares e amigos que determinada mulher esteja bebendo
um pouco a mais deve ser suficiente para o incentivo de procurar ajuda profissional

» Quando houver a recusa, a consulta inicial pode ser feita com quem está preocupado