Entrevista  
Samuel, 40, cursou psicologia influenciado pelo seu pai. “Os professores jogavam na minha cara o fato de meu pai ter sido um ótimo aluno e ter se transformado em um ótimo profissional”
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Samuel Rosa
‘‘Sei que o Skank vai acabar’’
O vocalista da banda mineira diz que a superexposição dos
roqueiros se deve a problemas de estima, afirma que não tem
vocação para flertar com o jet set e comenta relação com a família
Dirceu Alves Jr.
fotos: murillo constantino

Lá se vão 15 anos da criação do Skank, e Samuel Rosa já é um roqueiro quarentão com cara de garoto. O líder da banda mineira não cansa de se surpreender com o tempo e também com os resultados dessa caminhada. Nascido em Belo Horizonte, ele nunca precisou sair da cidade para se firmar no cenário do pop rock, é figura rara em eventos e faz questão de tomar cerveja com os ex-colegas dos tempos de escola até hoje. Casado com a produtora Angela Castanheira, é pai de Juliano, 7, e Ana, 4, e, nos próximos meses, vai ver pouco a família. A turnê de Carrossel, show inspirado no CD homônimo lançado em agosto, fica na estrada até o final do ano que vem.

Carrossel marca os 15 anos do Skank e sempre com a mesma formação. Isso é uma proeza, não?
A gente faz parte de uma minoria. A explicação é que a banda dá
certo. Se a banda não fizesse sucesso, ficaria mais difícil de administrar. Vejo grupos em que os componentes são amigos, se gostam verdadeiramente, mas chega um momento em que o trabalho não dá retorno financeiro e, quando isso acontece, não há amizade
que segure. Nossa relação é muito boa, mas seria boa mesmo se
a banda acabasse.

E esse dia deve chegar?
Certamente. Nada é eterno. Sei que o Skank vai acabar e quero que a gente continue amigos. Nos conhecemos no colégio, cada um tocava em uma banda. Só eu e o Henrique (Portugal) tocávamos na mesma. Não digo isso por pessimismo, mas vai chegar uma hora em que o retorno do Skank não será suficiente para nós. Existe uma equação de grana, satisfação e motivação que precisa ser bem resolvida e, um dia, nossos interesses não serão mais comuns.

Sempre morou em Belo Horizonte. Nunca pensou em fixar residência no Rio ou em São Paulo?
Fico surpreso que nunca precisamos nos mudar. Sempre pensei que um dia isso seria inevitável. E pensava com pesar porque gosto muito da cidade. Com o tempo, criamos condições que nos permitem uma boa rotina e muita coisa mudou nos últimos 15 anos. Pegar um avião virou algo corriqueiro. Hoje, componho em MP3. Mando a melodia para um parceiro no Rio e é como se estivéssemos lado a lado. Por outro lado, isso só dá certo porque não tenho vocação para flertar com o jet set como outros artistas têm.

Que flerte é esse?
Não preciso conhecer um fulano importante e nem bater ponto em estréias de filmes ou shows para aparecer nos jornais. Até já pensei que para consolidar a banda isso seria necessário. Com o tempo vi que não. Não preciso aparecer toda hora na MTV ou em outros canais. Isso me surpreende. Essa aparição constante na mídia tem menos a ver com o trabalho do artista e mais com questões pessoais. Alguns precisam circular, aparecer nos jornais e na tevê. É uma forma de alimentar a auto-estima, de segurar uma onda pessoal. Não digo que o Skank abriria mão disso, mas usamos a mídia de uma forma que não seja tão pesada na nossa vida.

Isso se deve por você ter uma vida pessoal equilibrada?
Realmente eu tenho uma família, dois filhos e outras preocupações. Mas deveria ser assim com todo mundo. Eu não deixo de tomar cerveja em um bar de esquina com os colegas do tempo de faculdade. Até passa alguém, me olha e faz um aceno. Aceno de volta e sigo no papo. Por que eu me privaria de ser o Samuel e ter uma vida normal? Alguns artistas se levam a sério demais. Compram um pacote completo quando começam a ficar famosos e depois reclamam. Mas é uma postura pessoal, é um traço da minha personalidade. Eu sou seduzido pela vida que existe por trás do palco.

E que vida é essa?
Uma vida que passa longe do glamour, em que todo mundo passa por bons momentos e por dificuldades, em que existe aquela tia chata que nos enche o saco e em que aparece aquele amigo babaca que a gente adora, mesmo que ele viva em um mundo bem limitado perto do nosso. Preciso conviver com a turma de futebol e ver que as preocupações deles são outras. Preciso ficar em contato com esse mundo distante do showbiz para saber que o Samuel Rosa só precisa entrar em cena quando eu pego um avião para um compromisso profissional. Isso provoca até uma relação diferente com os fãs. Não temos histórias de fãs histéricas que invadiram o hotel, que rasgaram nossas roupas.