Entrevista  
Leandro Pimentel
‘‘Para o meu gosto, abusar do
Seu Creysson de novo nesta campanha eleitoral cairia muito
na repetição. Prefiro não fazer.
Essa piada já passou’’
• • •

CONTINUAÇÃO

Casseta sem Bussunda
• • •
Claudio Manoel
‘‘A morte do Bussunda ainda dói’’
continuação

Ou seja: de repente, o trabalho que tinha todo o lado lúdico da brincadeira ganhou a cara dura de um trabalho de verdade.
É... na verdade, não foi de repente. Ninguém é tão ingênuo ou imaturo
a ponto de não saber dos deveres da nossa profissão, da qualidade e
da competitividade que ela exige. Tem que levar a sério, tem que ralar. Não é apenas “ohh, vou fazer umas piadas com uns amigos e ganhar um dindim”. É óbvio que já tínhamos essa consciência da labuta,
mas é óbvio também que ela fica mais presente em um momento
em que você não está tão contente assim. Você tem que tirar com palitinho, entende? E mais: você tem que ser engraçado! Mas o fato
de trabalharmos dentro de um coletivo facilita. Um dá uma segurada
na peteca do outro. Todo mundo é homem. Pagar chororô só no
dia do enterro do Bussunda. No dia seguinte tem que matar o leão,
não tem jeito.

Passados dois meses da morte do Bussunda, como vocês se
vêem e se sentem?
Não dá para definir pelo grupo. É um sentimento particular de cada um. Eu, por exemplo, perdi um irmão. Conheci o Bussunda muito, muito antes de sonhar em ter uma profissão, quando tinha 14 anos de idade. Moramos juntos, viajamos juntos. Para ser sincero, ainda não sei direito o tanto que perdi.

Do que mais sente falta?
Bussunda tinha uma sagacidade, uma esperteza e uma rapidez dentro de um espírito tranqüilo, o que é muito raro. Essa rapidez é comum
em pessoas mais agitadas e ansiosas. Bussunda não era assim.
Tinha um lado zen-esperto e zen-perspicaz muito interessante e
difícil de encontrar.

Lavigne disse que Bussunda era uma espécie de “ponto de equilíbrio” do grupo. Você concorda?
Bussunda tinha uma característica amortecedora. Quando o Bussunda fervia, era um mau sinal para o mundo. O mundo devia estar muito f. para o Bussunda ferver. O Bussunda era um cara que não esquentava! Era o equilíbrio dentro de um grupo de personalidades muito fortes e com a mesma hierarquia, onde todo mundo é cacique. Ele tinha essa presença importante, tinha um jeito tranqüilo de lidar com situações ásperas promovidas por tantos homens juntos.

Seus Problemas Acabaram apresenta novos personagens. Serão incorporados ao programa?
Não. A única motivação pensada antes mesmo de fazer o roteiro foi a de realizar um filme que fosse o mais pop possível, em que a gente pudesse brincar com os universos do cinema, da tevê, do desenho animado e da publicidade. Nosso lema? Piada, piada e piada. A intenção foi fazer a platéia rir do início ao fim.

O filme aborda muito a questão sexo e há cenas fortes, como a do Bussunda transando com uma tartaruga gigante e com a atriz Luana Piovani. Não temeram pelo público infanto-juvenil?
Mas a tartaruga é tão irreal... Se fosse uma vaca, uma cabrita, um cachorro, um bicho do universo da bestialogia ou da zoofilia, eu concordava com você. Optamos pelo universo da tartaruga exatamente para transformar o que seria uma tara em uma idiotice. Se fizéssemos um filme na zona rural, não cairíamos na piada de comer a vaca, a galinha. Fica muito sexual. Já a transa do Bussunda com a Luana Piovani lembra desenho animado. A intenção não era ficar pesada, mas ficar no terreno adolescente da sacanagem. O filme agradará e desagradará. Ninguém tem a pretensão da unanimidade.

Seu Creysson é um personagem com grande destaque no filme. Pretendem dar mais espaço para ele no programa, sobretudo às vésperas da eleição, já que ele teve um grande caráter político nas eleições de 2002?
Seu Creysson tem sua importância, mas também tem sua dosagem. Não dá para ficar esgarçando demais o personagem – sobretudo ele, que é over para caramba. Para o meu gosto, abusar dele de novo nesta campanha eleitoral cairia muito na repetição. Prefiro não fazer. Essa piada já passou.

Como vê a possibilidade de Lula ser reeleito até mesmo em primeiro turno?
Acho triste. Nunca fui eleitor do Lula e nunca esperei muita coisa dele. Acho triste a permanência de um governo em que eu pessoalmente não acredito. A reeleição tem esse deformador: o cara precisa ser ruim para c... para não se reeleger. O Lula até beirou isso, mas não chegou a desencadear uma crise enorme. Então, era meio previsível que teria uma enorme chance de ser reeleito.