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Teatro

Sentidos da beleza segundo Cristina Pereira
Atriz fez análise para resgatar auto-estima perdida em papel de mulher feia, diz-se esquecida pela Globo e concentra vida no teatro

Alessandra Nalio

Rogerio Albuquerque
“Não sou linda, mas nunca me achei feia. Me arrumavam tanto que eu ficava até razoável. Mas, na Globo, para ser feia basta estar razoável’’

Por sete meses, a atriz Cristina Pereira foi chamada pelas ruas de “a feia da novela”. Até quando ia buscar sua filha no colégio, era obrigada a se esconder para que a menina não se sentisse constrangida diante dos colegas. O fato aconteceu em 1982, quando interpretou Ieda na novela Elas Por Elas, da Rede Globo. Era uma personagem boazinha, rica e estigmatizada por sua feiúra. “Encarei aquele trabalho como outro qualquer. Mas hoje não faria. Ele me trouxe mais prejuízos que lucros”, diz. Segundo ela, várias atrizes rejeitaram o trabalho, entre elas Regina Casé. Para recuperar a auto-estima, Cristina, 50 anos, recorreu à análise. “Não sou linda, mas nunca me achei feia. Me arrumavam tanto que eu até ficava razoável. Mas, na Globo, para ser feia basta estar razoável.” Depois de Ieda, a atriz fez outros papéis na tevê, mas concentrou sua carreira no teatro. Agora, reestréia a peça Rosita, de Federico Garcia Lorca, dirigida por Antônio Grassi, na sexta-feira 14, em São Paulo, depois de passar pelo Rio.

Do espetáculo participam seus filhos, Lourenço, 9 anos, que faz figuração, e Letícia, 20 anos, como assistente de cenografia. “É uma emoção”, diz ela. Os dois são fruto de seu casamento com o ator Rafael Ponzi, de quem se separou em 1994. Quando entrou no curso de artes cênicas, em 1968, na Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo (USP), Cristina tinha 18 anos e era uma garota tímida que queria ser atriz. Paulistana, filha do barbeiro Armando, já falecido, e da governanta Amélia, hoje com 83 anos, ela escrevia e encenava peças com a irmã Fátima, 45 anos. O cenário era a casa onde sua mãe trabalhava. “Parecia um castelo. Escrevíamos muitos dramas e tínhamos sempre à mão um balde d’água para molhar o rosto nas cenas de choro”, lembra. A platéia eram os empregados e os patrões de sua mãe. A veia cômica apareceu mais tarde: “Só descobri que era engraçada na faculdade. Por mais séria que fosse a cena, as pessoas sempre riam de mim”.

Consagrada no teatro, Cristina atuou em mais de 20 peças como atriz e diretora. No cinema, trabalhou com Hector Babenco, Bruno Barreto, Júlio Bressane e Ana Carolina. Mas ficou famosa com as personagens cômicas que interpretou na tevê, como a marcante Fedora Abdala, a Fefê, de Sassaricando, e os inúmeros quadros que fez no TV Pirata, ambos da Globo. Simpatizante do PT, ela fez campanha para Luiz Inácio Lula da Silva durante as eleições para presidente, em 1989. Na época, trabalhava no TV Pirata. Junto com o diretor Guel Arraes e os atores Guilherme Karan, Marco Nanini e Diogo Vilella, participou do quadro O Povo Pirata, no horário eleitoral gratuito do PT. Cristina acredita que o fim do programa, um mês após a eleição de Fernando Collor, tenha sido represália da emissora. “O TV Pirata tinha uma audiência incrível. Acho estranha a versão oficial de que tenha acabado por ter um custo alto”, diz. Na época, Cristina e os colegas receberam cartas e telefonemas anônimos de ameaça. “Ligavam dizendo que amanheceríamos boiando na praia”, lembra.

Pouco tempo depois, em 1991, seu contrato na Globo venceu e ela nunca mais fez um grande papel na emissora. Sua última participação foi no seriado Mulher, no ano passado. Se houve represália da emissora, ela não pode provar. Até porque seus parceiros de campanha da época continuam na Globo. “Acho que a concorrência é grande e acabei sendo esquecida”, diz. Anos antes da campanha do PT, seu engajamento político tinha lhe causado problemas. Cristina quase foi presa em 1972, em Portugal. Ela estava no elenco da peça A Missa Leiga, do diretor Ademar Guerra, e fez amizade com um grupo de atores que lutava contra o regime. Depois de ser seguida por vários dias, numa manhã a polícia invadiu a pensão onde hospedava-se e apreendeu seu passaporte. “Estava de pijama”, lembra. “Quem me livrou foi a Ruth Escobar, produtora do espetáculo. Como tinha contatos, ela esclareceu a situação.”

Cristina vive há 18 anos no Rio e trabalha como professora na Casa da Gávea, um centro de artes cênicas fundado por ela, Paulo Betti, Eliane Giardini, Antônio Grassi e outros atores. Também dá aulas de teatro para a terceira idade. Com o grupo, montou Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e viajou pelo país. “Talentosíssima, Cristina é a reserva moral e ética da classe artística. Todos querem trabalhar com ela”, diz Betti. “E tem mais: sempre a achei charmosa e sensualíssima.”

 

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