Reportagens  
Cláudio Gatti
“Serão quatro meses de luta.
Vai dar tudo certo’’, diz Eliana Tranchesi, ao falar sobre o tratamento a uma amiga
Um alerta para todos

O tumor diagnosticado no pulmão esquerdo de Eliana Tranchesi é um adenocarcinoma, tipo mais comum entre os não fumantes. “Depois de 15 anos sem fumar, ela já é considerada uma não fumante”, diz o especialista, que é cauteloso ao apontar as prováveis causas da doença, entre elas o estresse a que a dona da Daslu esteve submetida nos últimos meses. “Não dá para generalizar e dizer que estresse causa câncer. Mas é bom ficar com a pulga atrás da orelha, embora não haja estatísticas para comprovar esta relação de causa e efeito”, afirma o oncologista Artur Katz, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. No caso de Eliana, trata-se de um tumor localizado, que foi diagnosticado precocemente. Ainda assim, a empresária será submetida a quatro meses de quimioterapia e a cerca de 30 sessões de radioterapia. O câncer de pulmão é o terceiro tipo mais comum entre os brasileiros, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Pode acometer qualquer pessoa, mas sua incidência é 40 vezes maior entre os fumantes.

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Capa
"Vou ficar boa"

Quatorze meses depois de ter sido presa, a empresária
Eliana Tranchesi, dona da Daslu, retira um tumor maligno
do pulmão esquerdo e enfrenta com vitalidade, fé e o
apoio da família a batalha para vencer o câncer
texto Eliane Trindade
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Divulgação
Dez dias depois de ser operada para a retirada do nódulo no pulmão esquerdo, Eliana já estava trabalhando na Daslu
Na tarde da sexta-feira 8, a empresária Eliana Tranchesi passeava pelos corners da Daslu – ícone do consumo de luxo no País,
fundada por sua mãe há 48 anos –, quando foi abordada por uma cliente. “Acabei de sair do hospital”, ela disse a Eliana. “Estava internada para tirar um tumor no seio e uma das primeiras coisas que eu quis fazer quando tive alta foi vir aqui.” A cena foi presenciada por uma ex-dasluzete, como são conhecidas as vendedoras da Daslu. A cliente buscava no prazer das compras uma trégua antes da quimioterapia e encontrou na dona da Daslu palavras de carinho e de incentivo. Mas não sabia que Eliana Tranchesi está vivendo um drama parecido: em 23 de agosto, ela descobriu um nódulo no pulmão esquerdo. Dois dias depois, era confirmado o diagnóstico de câncer. Em 26 de agosto, a empresária foi submetida a uma cirurgia para retirada do tumor. Procurada por Gente, Eliana preferiu não dar entrevista sobre o seu estado de saúde, com o argumento de que agora a sua principal preocupação é o tratamento da doença. Nessa nova batalha que teve início 14 meses depois de sua prisão numa operação da Polícia Federal, a empresária vem surpreendendo a todos pela força e pela coragem.

Enquanto o mundo inteiro parava na segunda-feira 11 de setembro para lembrar os cinco anos dos atentados às torres gêmeas em Nova York, Eliana começava na mesma data uma guerra muito particular. Foi o dia escolhido pelos médicos para o início da quimioterapia, tratamento capaz de aterrorizar a muitos. Não a Eliana. Dias antes de começar as sessões que vão se estender por quatro meses – a última está prevista para 8 de janeiro de 2007 –, a dona da Daslu exalava confiança pelos corredores da loja. “Serão quatro meses de luta. Vai dar tudo certo e vou ficar boa.” A frase virou uma espécie de mantra e foi dita a várias pessoas que ligaram para se solidarizar com a empresária nas últimas semanas. Com a convicção de que câncer deixou de ser sinônimo de morte quando diagnosticado e tratado precocemente, como parece ser o seu caso, ela assumiu uma postura positiva. Eliana Tranchesi acredita na cura. Católica praticante, prefere encarar a doença como mais um desígnio de Deus. “Eliana não tem revolta nem fica perguntando por que isso aconteceu com ela. Tenho certeza de que se sentiu muito mais impotente quando se defrontou com o irmão preso novamente”, afirma um parente que pediu para não ser identificado, referindo-se a Antônio Carlos Piva de Albuquerque, diretor financeiro da Daslu. O irmão de Eliana voltou para a prisão em 16 de agosto. Foi solto, por efeito de uma liminar do Superior Tribunal de Justiça, em 6 de setembro – em mais um lance da ação judicial movida contra a Daslu.

O inferno astral de Eliana começou em 13 de julho de 2005, quando foi desencadeada a Operação Narciso, movida pelo Ministério Público, Receita Federal e Polícia Federal. A saúde da empresária, que desde então vive sob constante estresse, começou a preocupar os familiares. Seu ex-marido, o cardiologista Bernardino Tranchesi, com quem foi casada por 19 anos, resolveu tomar providências. Dias depois da nova prisão do irmão, convenceu Eliana a se submeter a um check-up. “Não é possível passar por tudo o que ela passou e o corpo não responder de alguma forma”, disse Tranchesi a um colega que examinou a empresária a seu pedido. Eliana foi virada do avesso. O primeiro susto veio logo com o exame de sangue alterado, que fez os médicos solicitarem uma bateria de novos e sofisticados exames. Dois dias depois, era descoberto o nódulo que a levou ao consultório do oncologista Artur Katz. Eliana tinha estado ali antes para acompanhar uma prima e contou a uma amiga que na ocasião pensou: “Espero nunca entrar aqui como paciente”. Quando se descobriu nesta condição, estava na companhia do ex-marido. Confirmado o diagnóstico, Bernardino a encaminhou para um outro colega do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O escolhido foi o cirurgião Riad Younes, especialista em tórax, que decidiu pela operação o quanto antes. A boa notícia: o câncer era um problema localizado e não havia sinais de outros nódulos no corpo.