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Prensa Três
Claudio Gatti
Doca Street garante que não planejou o crime. “Foi uma
briga que acabou com uma
pessoa morta”, diz, sobre
Ângela Diniz (no alto).
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Crime
"Penso em Ângela todos os dias
"
Trinta anos após matar a tiros uma das mais belas
mulheres do País, Doca Street, 71, conta a sua versão
do crime no livro Mea Culpa, afirma não se lembrar
dos disparos e diz que “matar por amor é besteira”
texto Jonas Furtado
 Leia também: a crítica do livro
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A corretora de imóveis Marilena Pires Ferreira Street, 68 anos, esposa de Doca Street, está preocupada. Casada com o assassino de Ângela Diniz – e que após 30 anos de silêncio conta a sua versão dos fatos em Mea Culpa –, ela tem medo do que o livro pode trazer à tona.
São lembranças e traumas que o tempo abrandou de um dos mais famosos crimes passionais cometidos no País. Marilena não quer que alterem o estado de humor de seu marido, e ele garante ser improvável que isso aconteça. “Sou um cara calmo”, diz. “A última vez em que fiquei nervoso passei cinco anos na cadeia.”

A frase não tem um tom ameaçador. Pelo contrário: é proferida serenamente entre as longas pausas que marcam a fala tranqüila de Raul Fernando do Amaral Street – o ‘Doca’, explica ele, vem do diminutivo de seu apelido de infância em família, ‘Fernandoca’. Aos 71 anos, ganha a vida trabalhando ocasionalmente no mercado financeiro e negociando carros – recebe ainda R$ 1,4 mil como aposentado pelo INSS por idade. Tem um apartamento próprio e dois carros. Casado pela terceira vez, há 14 anos, com Marilena, que conhece desde a adolescência e com quem começou a se relacionar em 1979, gosta de ir à praia nos finais de semana e, embora ainda fume um cigarrinho aqui, outro ali, diz que deixou para trás os vícios de outrora, como a bebida e a cocaína, dos quais usava e abusava por “pura farra” nas décadas de 60 e 70.

“Ângela e eu tínhamos mania de tomar champanhe Veuve Cliquot com laranjada de manhã. Hoje em dia eu tomo champanhe e fico com dor de cabeça, o ‘figueiredo’ já reclama”, afirma, em referência ao fígado. “A última vez que cheirei pó foi na cadeia. Lá não dá para não cheirar porque tem às pampas”, completa ele, que, condenado a 15 anos de cadeia, ficou trancafiado numa cela por 3 anos e meio e passou para o regime semi-aberto, até ser solto em 1987 em liberdade condicional. Para Doca, a dívida com a sociedade foi paga, mas não a com sua consciência: “Penso em Ângela todos os dias”.

A passagem pela penitenciária não mudou sua crença – ou a
ausência dela. Criado em uma tradicional família católica, Doca era obrigado pela avó a ir à missa todos os sábados e domingos. Nunca concordou com as palavras dos padres. “Sou agnóstico. Em vez de me confessar com o padre, me confessei com o papel”, explica, sobre os motivos que o levaram a escrever o livro ainda na prisão. O fator decisivo para a publicação foi a pressão do filho mais velho, Raul, 43 anos (ele também é pai de Marcela, 34, e Luís Felipe, 33). “O senhor trabalhou desde os 14 anos, que história é essa de playboy, de gigolô? Nós vamos carregar essa pecha para sempre?”, costumava reclamar o primogênito.

Os mesmos anos que negam alívio à aflição de Doca também o transformaram fisicamente. Cabelos brancos, pele enrugada, olhar flertando entre o vazio e a desconfiança, ele ainda assim desperta curiosidade entre as mulheres. “Eu era um garimpador de paixão. Achava que a vida sem paixão não valia a pena. Sempre fui muito bobo com esse negócio de mulher, às vezes sofria muito.” Conquistador de mão cheia, ele não se lembra de quantas amantes teve na vida – “Você também não se lembrará quando tiver 71 anos”, brinca –, mas não se esquece de qual o fez sofrer mais. “Ah, (suspira), essa eu nem preciso responder.”

O assassinato

Na tarde de 30 de dezembro de 1976, após uma briga, Doca Street mata com quatro tiros a socialite Ângela Diniz, 32, chamada de “A Pantera de Minas”, com quem vivia havia três meses, após ter deixado a mulher Adelita Escarpa e o filho Luís Felipe, então com
3 anos. “Me lembro de estar com a arma na mão e de armar a
arma, mas não me lembro de dar os tiros”, afirma, sobre a pistola Bereta 7.65 usada para cometer o crime na casa de praia de
Ângela, em Búzios.

O julgamento

Doca foi condenado a dois anos com sursis no primeiro julgamento, em 1979, baseado em uma tese de legítima defesa da honra do criminalista Evandro Lins e Silva. “Se eu fosse o juiz me condenaria. Mas eu tinha um advogado que era o máximo”, diz Doca. Grupos feministas protestaram contra a pena branda e o julgamento foi anulado. De volta ao tribunal em novembro de 1981, Doca foi condenado a 15 anos de detenção.

O arrependimento

“Sou arrependido, com uma grande dor, isso veio no minuto seguinte. Esse negócio de matar por amor é uma besteira. Foi uma briga que acabou com uma pessoa morta. Não tive a intenção...”, diz Doca. “Penso em Ângela todos os dias, com tristeza. Tenho muita pena de ter a feito a mãe dela sofrer tanto”, completa ele, que nunca mais teve contato algum com a família de Ângela.