Entrevista  
Leandro Pimentel
‘‘O massacre a que estou sendo submetido confirma o que eu disse: que o jogo político é sujo. Dane-se
o meu direito de defesa. Fizeram gracinhas, frases de efeito’’
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Paulo Betti
‘‘Já perdi trabalhos por apoiar o PT’’
continuação

Arrependeu-se?
Arrepender não me arrependo. Disse uma verdade amplamente conhecida. O sistema político corrompe e avilta. Para se chegar ao poder, é preciso jogar o jogo, e depois tentar modificá-lo. Arrependo-me apenas de não ter perguntado o nome de cada um dos repórteres que estavam lá na chuva. Provavelmente com raiva por não terem podido entrar na reunião. Ossos do ofício! Pode ser que tenham transmitido a íntegra das declarações mas um editor passou a tesoura, ficou com as frases que dariam repercussão negativa e desprezou o complemento, minha condenação às práticas que sujam as mãos. Não dá! Foi só um jornal que publicou as frases no primeiro dia. A seguir os outros foram repercutindo, criando a bola de neve, aumentando a distorção. A imprensa está precisando refletir sobre si mesma, os brasileiros precisam discutir as práticas da imprensa, que não está acima de tudo e todos. Será que o jornalismo pratica a ética que cobra dos outros?

Então valeu o sofrimento?
Claro que eu não gosto de estar sendo injustamente acusado de ser inimigo da ética. Claro que eu preferia estar fazendo meu trabalho, preparando a estréia de meu filme Cafundó ou descansando com meus filhos. Em vez disso, gasto energias nesta luta insana, enfrentando todo o poder da mídia, emprestado a meus difamadores. Mas quem acreditar que isso possa ter um sentido, que sirva para alguma coisa. No mínimo, para alguma reflexão sobre a intolerância e sobre as mazelas políticas que apontei. Só tomando consciência disso podemos mudar o sistema, com uma reforma política, com mais consciência e discussão. Como dizia minha mãe, “o que não mata engorda”.

Você acha que está sofrendo a famosa patrulha ideológica?
Não sei que nome tem isso. Sei que está em curso um movimento para tentar desqualificar os apoiadores do presidente Lula. Patrulhamento, macarthismo, o nome não importa. Acho que algumas pessoas podem até ter acreditado mesmo que eu fui aos repórteres pregar o fim da ética. Mas, jornalistas tão experientes? De um jornal tão atento à apuração? Não sei... Prefiro acreditar que é o calor da campanha. Estava tudo sem graça, de repente acharam um assunto palpitante. Demonizar artistas tem seu charme. E, como dizia o ditado, pimenta nos olhos dos outros é colírio.

Já havia sentido isso antes?
Já perdi trabalhos por apoiar o PT. Recentemente, ao prestar solidariedade ao PT, apesar da crise, perdi o trabalho de mestre-de-cerimônias numa premiação em Recife. Recebi um e-mail dizendo claramente que foi por motivos políticos.

O que você acha da crise ética que se abateu sobre o PT?
Tudo isso irrita, não é? Deixa indignado, com raiva. Foi doloroso constatar que alguns petistas – veja bem, alguns, não todo o partido – fizeram coisas que sempre condenamos na direita e nos partidos do atraso. Como todo mundo, quero que todos sejam investigados e julgados, dentro do estado de direito. E não só os do PT, mas todos, até porque estas práticas vêm de longe. No “sanguessugas”, entre 72 acusados tem dois petistas. E o esquema começou em 1998.

Qual a sua avaliação sobre o presidente Lula?
Acho que ele faz o governo que pode, voltado realmente para os mais pobres. Ele representa este povo no poder, e isso ajuda a explicar sua sobrevivência política apesar da crise e do massacre de seu governo. Sou pelo Bolsa Família. Gosto da atenção que ele dá aos negros e aos índios. Gosto do Pro-Uni, que tem garantido a milhares de jovens pobres o sonho da faculdade. Gosto da política externa, que faz do Brasil um país mais soberano e respeitado. Gosto da idéia de que a dívida externa já não é um problema, embora tenhamos ainda a dívida interna, que através dos juros suga recursos de outras áreas. Gosto de saber que os mais pobres, quando entram no supermercado, já conseguem comprar produtos que apenas contemplavam de olho comprido nas prateleiras. Pelo que dizem as pesquisas, é isso que pensa a maioria do eleitorado.

O que você acha de Lula estar hoje em companhia de políticos sobre os quais pairam suspeitas, como Marcelo Crivella (candidato ao governo do Rio pelo PL), Newton Cardoso (candidato ao Senado pelo PMDB de Minas) e o deputado Jader Barbalho (candidato à reeleição pelo PMDB do Pará)?
Não gosto nem um pouco.