Entrevista  
“Demonizar artista tem seu charme”, diz Betti
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Paulo Betti
‘‘Já perdi trabalhos por apoiar o PT’’
O ator diz que foi mal interpretado quando falou
que não dá para fazer política sem sujar as mãos
e admite não gostar de ver Lula em companhia de
políticos como Marcelo Crivella e Jader Barbalho
Cecília Maia
Fotos:Leandro Pimentel

O ator Paulo Betti, 53 anos de idade e 35 de carreira, tem trabalhado muito nos últimos tempos. Na noite de 31 de agosto, gravou as últimas cenas do filme A Grande Família. Nos finais de semana, viaja pelo Brasil com o musical A Canção Brasileira, no qual dirige, entre outros atores, suas duas filhas, Mariana e Juliana. E se prepara para fazer algo que nunca fez, distribuir, pessoalmente, seu primeiro longa-metragem, Cafundó, que estréia no dia 15 de setembro. Sempre que pode, acha tempo para exercer o papel que mais gosta: o de pai do pequeno João, de três anos, seu filho com a atriz Maria Ribeiro. Mas, nos últimos dias, o que tem ocupado mesmo Paulo Betti é a repercussão das declarações que deu em defesa do PT após uma reunião entre artistas
e o presidente Lula, na casa do ministro Gilberto Gil, no Rio, no dia 21 de agosto. Indignado, chegou a agradecer o fato de ter sido procurado por Gente para se explicar: “Vocês foram os primeiros a me ligar. Os outros saíram me atacando”, disse.

O que você quis dizer quando declarou que “política não
existe sem mãos sujas” e “não dá para fazer (política) sem
meter a mão na m.?”

Fiz uma constatação. Apontei o que todos os brasileiros estão cansados de saber. O que minha avó dizia, o que minha mãe dizia. O que Sartre disse na peça As Mãos Sujas, sobre a resistência francesa, se não me engano. O que Brecht escreveu em quase todas as suas peças. Disse tudo isso para os jornalistas na saída da casa de Gil mas só foi publicada a frase isolada, criando a mentira de que eu defendi aquilo que estava apenas constatando e rechaçando. Como alguém pode acreditar que eu defendo o fim da ética? Nem o político mais corrupto faria isso. Fui parceiro do saudoso Betinho na Campanha
pela Ética na Política. Participei das lutas pela democracia. Tenho
uma história. Sou ator e não político. Não estou sendo acusado,
graças a Deus, em nenhum processo por corrupção. Por que iria
falar isso sem deixar claro que era contra? Por que iria cravar em
mim mesmo a marca de amoral?

O que você está sentindo com a repercussão das declarações?
É doloroso, machuca, revolta. Mas acho que é ruim também para nossa sociedade, para a democracia. Caçar bruxas é um esporte autoritário. O massacre a que estou sendo submetido confirma o que eu disse: que o jogo político é sujo. Embora seja impossível não perceber, em qualquer contexto, que eu estava condenando as práticas sujas da política, os que estão envolvidos no jogo político eleitoral valeram-se da minha frase para reforçar suas posições, auferir lucro político, sem a menor consideração para com os danos que estão me causando. Dane-se o meu direito de defesa, o meu direito à livre expressão da verdade. O que lhes importa é que meu nome os ajuda a atingir seus objetivos. Fizeram gracinhas, frases de efeito, posaram de baluartes da ética.

As pessoas foram agressivas? Quem?
Não vou dar nomes, mas um grande jornal, que não publicou até esse momento a carta que mandei, disse que sou velhaco, mensaleiro, Marcola do PCC, sanguessuga, decadente. E fizeram diversos editoriais. É mole? Mas quando se exagera no ataque, as pessoas percebem. Muitas pessoas inteligentes, sensatas, de grande valor, embora nem sendo minhas amigas, estão se manifestando, percebendo o clima de linchamento. Chico Buarque disse numa entrevista: “Eu entendi o que eles (Betti e Wagner Tiso) disseram não como uma posição pessoal deles, descartando a ética, mas como constatação
de como a política é feita na realidade do Brasil. E essa é a realidade política”. Ainda bem que existe o Chico! Graças a Deus que o Brasil
tem um artista e intelectual desta grandeza e honestidade.