Depois dos ataques de 11 de setembro e
da queda do Talibã, o mundo tem redescoberto
o Afeganistão por meio da literatura. O Livreiro
de Cabul (Record, 320 págs., R$ 45,90) pegou
carona no sucesso de O Caçador de Pipas
e já tem editada sua terceira edição
no Brasil. Escrito pela jornalista norueguesa Asne Seierstad,
o livro traça um retrato intimista de uma família
afegã com a qual ela viveu por quatro meses em
2001, depois de cobrir a guerra.
Não há como não se encantar
com o recorte das vidas dos integrantes da família
Khan. O livro comove por mostrar que a desesperança
é o sentimento que une os afegãos. Da
garota que sonha ser professora mas não tem
coragem de arranjar sua documentação
ao adolescente que sonha estudar mas não consegue,
vestígios dos regimes opressores se revelam
arraigados em cada realidade.
No entanto, apesar do minucioso trabalho descritivo
e da extensa pesquisa acerca dos costumes islâmicos,
Asne incorre num erro comum dos que escrevem sobre
o mundo muçulmano: o estranhamento cultural.
Por vezes, a narrativa do tratamento dispensado às
mulheres abarca juízos de valor dispensáveis
à obra. O leitor é suficientemente esperto
para tirar as próprias conclusões.
A obra reverberou com força na vida do personagem-título.
Ao receber uma cópia, o livreiro Shah Mohammed
Rais abriu um processo contra a norueguesa e costumeiramente
é chamado nas ruas de Cabul como Sultan Khan,
seu pseudônimo no livro. Asne conseguiu o que
ninguém ousou: revelou segredos que iriam para
o túmulo com a família e fez o livreiro
enxergar a dureza da vida afegã pelos olhos
ocidentais. A incômoda verdade.