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Asne Seierstad morou por quatro meses com a família Khan

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O Livreiro de Cabul
A jornalista Asne Seierstad mostra vida oprimida
e sem esperança dos afegãos
Fernando Oliveira
Depois dos ataques de 11 de setembro e da queda do Talibã, o mundo tem redescoberto o Afeganistão por meio da literatura. O Livreiro de Cabul (Record, 320 págs., R$ 45,90) pegou carona no sucesso de O Caçador de Pipas e já tem editada sua terceira edição no Brasil. Escrito pela jornalista norueguesa Asne Seierstad, o livro traça um retrato intimista de uma família afegã com a qual ela viveu por quatro meses em 2001, depois de cobrir a guerra.

Não há como não se encantar com o recorte das vidas dos integrantes da família Khan. O livro comove por mostrar que a desesperança é o sentimento que une os afegãos. Da garota que sonha ser professora mas não tem coragem de arranjar sua documentação ao adolescente que sonha estudar mas não consegue, vestígios dos regimes opressores se revelam arraigados em cada realidade.

No entanto, apesar do minucioso trabalho descritivo e da extensa pesquisa acerca dos costumes islâmicos, Asne incorre num erro comum dos que escrevem sobre o mundo muçulmano: o estranhamento cultural. Por vezes, a narrativa do tratamento dispensado às mulheres abarca juízos de valor dispensáveis à obra. O leitor é suficientemente esperto para tirar as próprias conclusões.

A obra reverberou com força na vida do personagem-título. Ao receber uma cópia, o livreiro Shah Mohammed Rais abriu um processo contra a norueguesa e costumeiramente é chamado nas ruas de Cabul como Sultan Khan, seu pseudônimo no livro. Asne conseguiu o que ninguém ousou: revelou segredos que iriam para o túmulo com a família e fez o livreiro enxergar a dureza da vida afegã pelos olhos ocidentais. A incômoda verdade.