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Carlos
Alberto Ferreira Braga, 93 anos
O carinhoso e a flor do tempo
O arquiteto e compositor Braguinha, autor de “As Pastorinhas”,
usou pseudônimo para escapar da censura da família,
fazia serestas com Noel Rosa, trabalhou como executivo
de gravadora e marcou a carreira com marchinhas de Carnaval
Viviane
Rosalem
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André Durão
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“Eu
compunha até em bar. Escrevia no guardanapo e
levava para casa”, diz Braguinha, que escreveu,
para a música de Pixinguinha, a letra de “Carinhoso”
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Chegar
aos 93 anos não assusta Carlos Alberto Ferreira Braga,
o Braguinha. Pelo contrário. A idade avançada dá outro
sentido à vida do compositor, que, bem-humorado, é capaz
de lembrar cada verso de suas famosas marchinhas carnavalescas
e ainda recordar histórias marcantes de seus 70 anos
de carreira.
Uma
trajetória que começou ainda nos tempos de colégio.
“Gostava mais de encontrar meus amigos para cantar e
compor do que para estudar”, conta. Seu professor de
violão do Colégio Baptista, na Tijuca, zona norte do
Rio, era Henrique Brito, que, anos mais tarde, seria
seu parceiro como um dos integrantes do conjunto Flor
do Tempo, montado por Braguinha. “Nós nos apresentávamos
em festinhas de clubes e casas de amigos”, lembra.
O
grupo ficou cada vez mais conhecido e se transformou
no Bando dos Tangarás, em 1929. Braguinha, então estudante
de arquitetura, se viu obrigado a adotar o pseudônimo
João de Barro para despistar o pai, Jerônimo José Ferreira
Braga Neto, na época diretor da Companhia de Tecidos
e Fiação Confiança Industrial, que não admitia ver o
filho sambista. “Para ele, cantor de samba e malandro
era tudo a mesma coisa”, conta. O respeito pelo pai
fez com que o apelido sobrevivesse às quatro primeiras
décadas da carreira do compositor – que se transformou
numa presença cada vez mais forte nos carnavais. “Adorava
assistir ao corso passar, jogando serpentina nos foliões
que brincavam nas ruas”, lembra, referindo-se aos blocos
carnavalescos da época.
Em
1931, ele se casou com Astréia, uma amiga de infância.
Teve uma única filha, Maria Cecília, mas tem três netos
e seis bisnetos. “Ele se declarou para mim cantando”,
conta Astréia, hoje com 86 anos. “Naquela época, namorar
se resumia a conversar e ficar perto um do outro”, conta
o compositor. “Nem segurar na mão podia.” Braguinha
saía cedo da casa da namorada. De lá, seguia para programas
noturnos com o amigo Noel Rosa. “Era muito divertido
quando fazíamos seresta na casa dos amigos”, lembra.
Braguinha
sempre esteve atento ao que acontecia a sua volta. No
Carnaval de 1933, compôs seu primeiro sucesso, “Trem
Blindado”, inspirado pela Revolução Constitucionalista
deflagrada em São Paulo no ano anterior. Mas a carreira
só decolou quando conheceu Alberto Ribeiro, que se tornou
seu parceiro mais freqüente (em 85 canções), e Wallace
Downey, um americano que lhe abriu as portas para a
indústria fonográfica. Em 1937, compôs um de seus maiores
sucessos, “Carinhoso”, em parceria com Pixinguinha.
“Sempre me senti mais à vontade escrevendo letra do
que música”, ressalta. Ele ia de bonde para as apresentações
no Cassino da Urca, onde costumava se apresentar. “Eu,
Lamartine (Babo) e Ribeiro íamos cantando aquela música:
nós somos os cantores do rádio... e o motorista adorava”,
lembra. “Conseguíamos carona quando o dinheiro acabava.”
O
compositor dominou o Carnaval de 1938 com as marchinhas
“Balancê”, “As Pastorinhas” e “Yes, Nós Temos Bananas”.
Ele ainda se lembra do dia em que o jovem baiano Dorival
Caymmi lhe pediu um autógrafo quando o avistou. “Ele
acabava de chegar ao Rio e era meu fã”, orgulha-se.
No final daquele ano, Braguinha assumiu a direção artística
da gravadora Columbia e se desdobrou entre o trabalho
de executivo e o de compositor.
Durante
a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, ele sofreu
com a falta de gasolina. “O gás, único combustível da
época, só era liberado para os médicos”, conta o sambista,
que foi proprietário de um carro Ford. Em 1943, Braguinha
dirigiu a gravadora Continental, na qual se destacavam
artistas iniciantes como Dick Farney e Emilinha Borba.
Nessa época, também conheceu Carmem Miranda, que integrava
o elenco da gravadora. “Ela era muito boazinha”, comenta.
Quando Getúlio Vargas se suicidou, em 1954, Braguinha
compôs uma marchinha em sua homenagem, batizada de “Getúlio
Vargas”. “Estava em casa quando soube da tragédia e
compus uma música para ele”, conta. Compor de imediato
era marca registrada de Braguinha. “Compunha até em
bar”, diz. “Escrevia no guardanapo e levava para casa.”
Durante
o jogo entre Brasil e Espanha, na Copa de 50, ele se
emocionou ao ver os quase 200 mil brasileiros reunidos
num estádio cantando “Touradas em Madri”, um dos seus
sucessos da década de 30, quando a seleção brasileira
marcou o quarto gol. “Comecei a chorar quando vi todo
mundo cantando na arquibancada”, lembra. “Fiquei tão
emocionado que me confundiram com um torcedor espanhol”,
diverte-se.
Braguinha
brilhou nos carnavais cariocas com “Pirata da Perna
de Pau”, “Tem Gato na Tuba” e “Chiquita Bacana”. A preferência
pelas marchas não o impediu de se dedicar a outros gêneros,
como o samba, a valsa, o choro, o fox-trote e os musicais
infantis. Em 1970, viu o samba-enredo tomar conta da
festa mais popular do Brasil. Mas não se abateu. Adorou
quando foi homenageado, em 1984, pela Mangueira, que
o escolheu como tema. Naquele ano, em que o Sambódromo
era inaugurado, Braguinha desfilou chorando pela escola
que se consagraria campeã.
O
compositor mora num confortável apartamento em Copacabana,
zona sul do Rio, há 24 anos. Ele não se deixa abater
pelo saudosismo. “Cada tempo tem suas atrações e eu
aprecio todas elas”, justifica. Há três anos, parou
de caminhar na praia, hábito que mantinha até sofrer
seu primeiro enfarte. “Mas não deixo de passear pela
orla diariamente com meu motorista para ver a minha
princesinha do mar”, ressalta.
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