Você
costuma assistir ao videoteipe de suas narrações?
Costumo, e não gosto. Há dois
momentos que me
incomodam especialmente.
Quais?
Primeiro é a narração
da F1, no Japão (1991), quando o Ayrton deixou o Berger
passar, na última volta, e gritei: “Eu sabia,
eu sabia”. Devia ter dito “eu imaginava”,
porque conhecia bem os dois. Recebi um memorando do Boni:
“Se você sabia, por que não contou antes?”.
Qual é o outro momento
de má lembrança?
O “É tetra, é tetra”,
em 1994. Não tem nada mais esganiçado, mais
histérico. O momento era realmente forte... o Pelé
me puxando de um lado, o Arnaldo César Coelho do outro,
o óculos caindo do rosto. Mas hoje, quando vejo, me
soa ridículo. Ficou over.
Em 32 anos de carreira deve
ter acumulado gafes. Qual a pior?
Já narrei o jogo errado. Foi na Copa
de 1974. Estava no Sistema Brasileiro de Televisão,
consórcio da Bandeirantes, Record e Gazeta. Transmitíamos
do Brasil, no estúdio. Um dia, o jogo escalado foi
Bulgária e Suécia. Entrou um time de branco
e o outro, de amarelo. Não tive dúvida: branco
é Bulgária, amarelo é Suécia.
Mandei bala: Ericsson para Singstron, que toca para Ergsson.
Bulgaróv para Romanóv... fui em frente. Até
que a câmera apontou para o placar, e lá estava,
Alemanha Oriental 0 x 0 Austrália. A partida era outra.
Na cara de pau, mudamos na hora e bola pra frente.
Há algo de que você
se arrependa?
Sim, e fui pedir desculpas. Há alguns
anos, durante a Copa América, fiz uma maldade com o
zagueiro Ronaldão. A bola estava com o Dunga, marcado.
Ele olhou para um lado, não viu ninguém livre,
olhou para o outro, idem. Ia passar para o Ronaldão,
e eu disse: “Para ele não”. O Ronaldo tropeçou
na bola e eu completei: “Não falei, Dunga?”.
Ele ficou chateado, com razão. Pedi desculpas no mesmo
dia, no ar e depois, pessoalmente. Foi sacanagem.
Certamente alguém da
família dele contou o que ouviu, não é?
Hoje, o que falo no primeiro tempo tem jogador
que já sabe no
vestiário, no intervalo. Veja a história do
Roque Júnior, que virou
uma grande bobagem.
O que aconteceu?
Disseram que ele não veio para a
Copa por minha influência. Quem dá essa notícia
tem desvio de caráter, não é inteligente.
Faz um ano exatamente. Era a Copa das Confederações,
ele não estava bem. O Casagrande e eu criticamos, especialmente
nos cruzamentos na área. No dia seguinte, estava no
treino e ele veio na minha direção. Pensei:
“Ih, é agora”. O Roque foi dizendo: “Você
não precisa me respeitar
como jogador, mas tem que respeitar como ser humano”.
Disse a ele para não entrar na onda dos outros e tudo
ficou acertado. Nos encontramos muitas vezes após aquele
episódio. Aí o Parreira faz uma opção
e dizem que foi por minha causa. Achar isso é indigno
com o Parreira. Ele é o que, um bobalhão?
Os bordões, como são
inventados?
São espontâneos, aparecem na
hora da transmissão. “Sai que é sua, Taffarel”...
sabe o que eu queria dizer? Vai na bola, fdp... sai debaixo
das traves. Sou amigo dele, reagi como qualquer torcedor reagiria,
mas não posso soltar palavrões no ar, é
claro. Tenho que respeitar a audiência, em todos os
sentidos.
Como assim?
Minha aparência no ar. Preciso estar
sempre bem, não é só questão de
vaidade. Faço exercícios, cuido da alimentação,
me sinto melhor hoje que há alguns anos. Já
sou avô e também pai de um menino de 5 anos,
que joga golfe e tênis comigo, e isso é genial. |