Entrevista  
Aos 54 anos, tem 32 de carreira
e 25 de Globo: “Posso não ser
de muitas luzes, mas totalmente burro não sou”, diz
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CONTINUAÇÃO

A pior gafe
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Galvão Bueno
‘‘Queria muito ter gritado um gol do Ronaldo’’
O locutor da Globo fala da derrota do Brasil, reconhece que
sua popularidade pode atrair críticas e diz que soa ridículo
sua narração do “É tetra, é tetra!” da Copa de 1994

Fábio altman, enviado especial à copa da alemanha
fotos: monalisa lins

Galvão Bueno renovou contrato com a Globo até 2014. Estima-se que ganhe salário de R$ 1 milhão ao mês, o maior da emissora. É um dos mais polêmicos personagens da televisão brasileira, especialmente em tempo de Copa do Mundo – e sobretudo nas derrotas como a de sábado, para a França de Zidane. Aos 54 anos, com três filhos já adultos, é avô e pai de um menino de 5 anos, Luca, de seu segundo casamento, com Desirée, 19 anos mais nova. Galvão falou à Gente na Alemanha, com exclusividade.

Você estava especialmente emocionado na narração de França
e Brasil. O que houve?

Era um jogo especial, por causa da derrota de 1998. Ronaldo e Zagalo me emocionaram, eram os grandes personagens brasileiros da partida, viveram muito aquela derrota na final de oito anos atrás. E Zidane, é claro, do lado francês. Queria muito ter gritado um gol do Ronaldo, de preferência no meio das pernas do Barthez. Não deu, ficou só essa frustração. O Bial disse assim, antes da partida: “Pessoal, não sejamos tão cristãos, queremos mesmo é vingança”. Esse era o clima, mas eles foram melhores. Não podemos nos desesperar com a derrota, é esporte.

O brasileiro está preparado para perder?
Infelizmente, não. Tenho medo disso. Fernando Pessoa escreveu: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Muita gente acha que esse “preciso” é de necessidade, mas não é. É de precisão. Mas quando o assunto é futebol, o Brasil parece dizer: “Jogar é preciso, viver não é preciso”. E, aí sim, é “preciso” de necessário. A vida não é só futebol. Teremos sempre outras alegrias e tristezas.

Você é a voz do Brasil durante a Copa. Como é essa sensação?
É um espetáculo, mas sei que é para o bem e para o mal. Mexo com emoção, e por trabalhar com os sentimentos das pessoas me torno polêmico. Olha, tem uma expressão que detesto: “Politicamente correto”, é o avesso do meu jeito.

Por quê?
Falo o que acho que devo. Sou jornalista, locutor, mas me transformei em vendedor de emoções. São 32 anos de carreira e 25 na Globo. É muito tempo, muita história. É natural que muitas de minhas opiniões sejam combatidas.

As críticas incomodam? Na internet há um célebre site com o mote “Eu odeio o Galvão Bueno”...
Já me descabelei com isso, me irritava, ficava descabelado, hoje levo na boa. Mas ocorre que o sujeito que é do contra faz um site “Eu odeio o Galvão”. Quem admira não faz, assim é a vida.

As piadas não incomodam mesmo?
É o maior barato ser personagem do Casseta & Planeta. No dia da morte do Bussunda, a primeira pessoa que chegou ao hotel, lá em Munique, fui eu. Meu filho de 5 anos pega o telefone e diz: “Pai, ontem você tava engraçado pra caramba, com aquele nariz grandão”. O Macaco Simão, da Folha, tinha que me dar 10% do salário dele. Morro de rir com ele, embora às vezes tenha sacanagem. Olha, posso não ser de muitas luzes, mas totalmente burro não sou. Tem também o Bobueno, um “joão bobo” que inventaram. Acho graça. Temos um lá no escritório da Globo. Outro dia, numa conversa com o Pedro Bial, pensamos em criar um talkshow, o “Bobueno e Bobial”. Sabe por quê? Ele é um dos mais geniais repórteres do Brasil, um intelectual, belo texto, um craque, e depois que foi apresentar o Big Brother pegaram na pele dele. Viramos alvo de tudo quanto é ataque.

Na Copa de 2002, nos jogos da madrugada, pedia às pessoas que piscassem as luzes nas casas e apartamentos, e o País inteiro piscava. É uma demonstração de poder...
Sou abusado, não é? Gente, não é poder. Não tenho poder. Tenho
poder da comunicação, e talento. Essas invenções são positivas, é
só integração com o povo. Sou um cara bem resolvido. Me trato bem, tenho uma família feliz, curto as minhas coisas, ganho muito bem. Minha relação com o torcedor brasileiro, em sua maioria, é muito legal. Qual o problema de vivê-la? Mesmo com aqueles que não gostam de mim, insisto, a relação é legal. Vou para o estádio e o sujeito grita “Galvão, viad....”. Legal, deixa o cara gritar.