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Carreira
Muito além dos fantoches

Autor de Trair e Coçar, É Só Começar, no teatro há 20 anos consecutivos,
Marcos Caruso fez quatro filmes em 2006, atuará na próxima novela das oito
da Globo e fala sobre o casamento com a mulher 22 anos mais nova
texto Diógenes Campanha
foto CLAUDIO GATTI
“Não vou obrigá-la a ficar com meus amigos de 70 anos e
ela não vai me obrigar a ir dançar com a garotada de 25’’,
diz Marcos Caruso, 54 anos, sobre a mulher, Dani Calichio, 31. Ele revela que, aos sete, transformava retalhos em fantoches para brincar
Em março passado, Marcos Caruso viveu uma emoção única. Na sessão que comemorou os 20 anos ininterruptos de sucesso de Trair e Coçar, É Só Começar, viu reunidas várias encarnações dos personagens da peça escrita por ele em 1979 – que foi vista por mais de 4 milhões de espectadores. Eram cerca de 60 pessoas no palco, o que o levou às lágrimas. “Tive a sensação de que eram meus filhos perdidos, vindo passar o Natal em casa”, diz Caruso. Não é só por isso, porém, que 2006 é especial para o ator, autor e diretor paulistano. No teatro, ele está em Operação Abafa, comédia política em cartaz em São Paulo, na qual assina o texto (pela quinta vez, em parceria com Jandira Martini). No cinema, atuou em quatro filmes: Irma Vap – O Retorno, Depois daquele Baile e os inéditos O Diário de Tati e Polaróides Urbanas, além de ter escrito o roteiro da adaptação cinematográfica de Trair e Coçar, que estréia em 26 de agosto. Para finalizar, grava Páginas da Vida, próxima novela das 20h da Globo. “Não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tenho que fazer cinco, seis.”

Tantas atividades trouxeram experiências inéditas até para quem tem 54 anos – e 34, de carreira. Em Depois daquele Baile, Caruso ficou nervoso ao contracenar com Lima Duarte. “Ele é um dos maiores ícones da televisão e do cinema brasileiros. Se fosse estrangeiro, teria pelo menos cinco Oscar”, diz. “Vejo um homem como Lima e percebo o quanto me falta para chegar aos joelhos dele.” Dono de uma interpretação considerada “teatral”, Caruso diz que seu primeiro contato com a dramaturgia foi aos sete anos, quando passava férias, no Rio. No ateliê da avó costureira, transformava retalhos em fantoches e divertia as freguesas. “Ali surgiu o autor, o ator e o diretor”, diz.

Caruso, atualmente, assina um dos poucos textos teatrais sobre a crise política: Operação Abafa, no qual cinco ex-militantes de esquerda são chamados a participar de uma negociata. As sessões lotam, mas, diferentemente de outras montagens dele, nenhum político foi ver a peça. “Os que sentirão a carapuça servir, não irão”, diz o autor. E quem não vestiria a carapuça? “Eduardo Suplicy. É o
único em quem ainda confio”, diz, ressalvando que não é petista. “Não voto em partido. Sou artista,
minha função é criticar.”

Caruso foi casado até 1994 com a atriz Jussara Freire, que lhe deu os filhos Mari, 32 anos, e Caetano, 27. Atualmente, vive com a bailarina e coreógrafa Dani Calichio, 31, que conheceu nos bastidores da peça Intimidade Indecente, em 2004. Após uma apresentação em Campinas (SP), ela levou a dupla Sandy & Junior ao camarim, para conhecer o elenco. “Quando olhei para ela, esqueci os dois”, conta Caruso. A diferença de 22 anos não atrapalha, graças ao respeito mútuo: “Não vou obrigá-la a ficar com meus amigos de 70 anos e ela não vai me obrigar a ir dançar com a garotada de 25”, diz ele. Entre os planos do casal para o segundo semestre, está Doidivanas, espetáculo-solo de Dani, com direção de Caruso. E não planejam oficializar a relação. “Não temos e nem queremos papel passado”, diz Dani. Caruso completa: “Pra quê? Qualquer coisa, é só escrever: ‘Quando eu morrer, você fica com a cadeira’”, brinca, com o humor que já arrastou milhões ao teatro.