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Há um mês da Copa, ele
foi assediado para
comandar a Inglaterra. “Imagine se eu cruzasse
com a Inglaterra no Mundial e tivesse que dizer
para os meus jogadores, ‘morram por Portugal’”,
disse, à época, Felipão, que disputará
uma vaga
na semifinal contra a seleção inglesa |
Faz um silêncio barulhento no estádio de Gelsenkirchen.
O locutor anuncia o hino de Portugal. Portugueses e mexicanos
estão perfilados. Luiz Felipe Scolari levanta-se e
começa a cantá-lo. Sabe a letra, não
erra. “Heróis do mar, nobre povo/Nação
valente, imortal/ Levantai hoje de novo/O esplendor de Portugal/”.
Nas oitavas de final, contra a Holanda, em Nuremberg, conteve-se
– não cantou porque um deputado, em Lisboa, disse
que não ficaria bem a um brasileiro. Manteve-se em
silêncio, antecipando a heróica vitória
por 1 a 0, com 9 homens em campo, e um recorde: venceu 11
partidas seguidas em Copas, incluindo as sete do Brasil em
2002.
As conquistas são parte da vida de Felipão.
A novidade
é entender o caminho que levou esse gaúcho de
Passo Fundo, de 58 anos, a cantar com emoção
o hino de
um país que não é o seu. Logo de cara,
ele estranhou que os jogadores, embora católicos, não
quisessem rezar antes de entrar nas partidas. Foi ajudado
pelo cantor Roberto Leal. “Expliquei, em um churrasco
que atravessou a madrugada, em Lisboa, que mais do que a religião,
os jogadores seriam movidos pelo patriotismo”, diz Leal.
“Ele percebeu isso e fez de suas preleções
quase discursos políticos.”
Para Leal, a presença do brasileiro no comando de
Portugal refletiu no país todo. “Seu jeito sincero
levou as pessoas a sair com bandeira pelas ruas, a colocá-las
nas janelas das residências. Portugal mudou com Scolari.”
Euzébio, o Pelé moçambicano que brilhou
com a camisa do Portugal na Copa de 1966, foi mais longe:
“É o novo rei de Portugal”.
No cotidiano, Scolari, a mulher Olga e os dois filhos, Leonardo,
de 21 anos, e Fabrício, de 15, levam vida espartana
na cidade litorânea de Cascais, colada a Lisboa. Saem
apenas para jantar em restaurantes típicos. Nas manhãs,
o treinador caminha pelo menos uma hora. Almoça e segue
para o centro de treinamento da Federação Portuguesa.
Leonardo e Fabrício não querem saber de futebol.
O mais velho estuda direito na Universidade Lusíadas.
Recentemente, os Scolari rodaram de carro pela Noruega, Suécia,
Dinamarca e República Tcheca. A amigos, ele não
esconde: “Por mim, ficaria vivendo aqui. É melhor
para a minha família, vivemos bem e com tranqüilidade”.
Um mês antes da Copa, Felipão foi procurado
por cartolas ingleses, que queriam que ele dirigisse a seleção.
O brasileiro disse não. “Não poderia assinar
um contrato para defender outra seleção antes
de uma Copa na qual eu represento Portugal”, disse.
“Sou um treinador à antiga, respeito acordos.
Imagine se eu cruzasse com a Inglaterra no Mundial e tivesse
que dizer para os meus jogadores,
‘morram por Portugal’, seria totalmente hipócrita.”
Detalhe: as quartas de final de Portugal serão justamente
diante da Inglaterra.
Comportamentos como esse, simples e diretos, transformaram
Scolari em cidadão querido entre os portugueses. Seu
contrato termina em 31 de julho – mas muitos apostam
que será prorrogado, depois de levar Portugal às
quartas de final na Alemanha, em uma partida, contra a Holanda,
que lembrou a Libertadores da América, com quatro expulsões
e muita catimba. Puro Felipão. “Foi uma guerra”,
resumiu. “Mas é o mínimo que posso oferecer
a um país que dá carinho a mim e à minha
família.”  |