Entrevista  
Depois de operar as cordas vocais, Maitena tirou um ano de férias e só rompeu o descanso para divulgar o livro Curvas Perigosas no Brasil
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CONTINUAÇÃO

Relação homossexual
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Maitena
‘‘As mulheres são insuportáveis’’
A cartunista argentina, que aborda com bom humor o universo
feminino, conta que viveu uma relação homossexual e hoje é
casada com o ex-noivo de uma amiga
Dirceu Alves Jr.
fotos: claudio gatti

Os gestos delicados e os sorrisos largos de Maitena contrastam com o estereótipo das “mulheres alteradas” criado pela cartunista argentina nos livros e tiras publicadas em mais de 30 países. Aos 44 anos, Maitena Burundarena dosa rebeldia e maturidade e rompe o ano sabático para lançar no Brasil o livro Curvas Perigosas. Casada com o agente literário Daniel Kon, 50, ela trocou o agito portenho pelo litoral uruguaio, onde cria a pequena Antonia, de seis anos, fruto de um amor desafiador. Desafios, porém, nunca a assustaram. Aos 17 anos, Maitena foi mãe solteira da fotógrafa Amaya, 26, e, passados dois anos, teve Juan Pablo, que, aos 24 anos, é produtor de tevê. Pouco antes dos 30, viveu uma relação homossexual e fez a descoberta que guia seu trabalho. “As mulheres são insuportáveis. São seres inseguros e cheios de medo”, afirma a cartunista.

Por que esse ano de descanso?
Desde julho do ano passado, minha vida pessoal se tornou prioridade. Operei as cordas vocais e fiquei dois meses totalmente muda. Parei de fumar, depois de 30 anos, de um dia para outro. Não bebo mais nada de álcool e isso sempre foi uma coisa especial para mim. Também vi que necessitava de mais atenção. Chegou a hora de trabalhar menos, ver o que é importante ou não na minha vida. Já não tenho necessidade de entregar tiras inéditas todas as semanas para revistas e jornais. Posso levar uma vida sem tanto esforço e até recuperar uma espontaneidade no meu trabalho que perdi no meio do caminho.

A perda da espontaneidade se deu por exigências do mercado
ou por acomodação sua?

As duas coisas. Publico em 30 países, precisei encontrar uma unidade de produção. E o trabalho deixou de ser prazer para ficar maçante. Quero trabalhar menos e cobrar mais. Estou nessa rotina desde os 17 anos. O que virá pela frente não sei. Talvez seja uma Maitena diferente, inclusive nos traços.

Sua mãe é arquiteta. Começou a desenhar por influência dela?
Não fui influenciada em nada por minha mãe. Comecei a desenhar
por absoluta necessidade. Tive uma filha aos 17 anos e não queria depender dos meus pais. Comecei a trabalhar no departamento de
arte de um jornal e acumulava outros quatro serviços extras. Aos 18, casei com outro namorado e, logo, tive meu segundo filho. Precisava manter uma casa. Nunca pude fazer poupança. Trabalhava para sustentar minhas despesas.

Como encarou a maternidade tão cedo?
Eu nunca planejei gravidez, sempre me cuidei e vi que diafragma e pílula realmente falham. Não é papo de mulher para prender homem. Ser mãe foi a melhor coisa. Eu amadureci, encontrei um foco na vida. Com 30 anos, estava com filhos crescidos, podia aproveitar a vida, e os meninos não eram empecilhos. As mulheres não sabem administrar essa bênção. Elas trabalham feito loucas, chega uma hora em que se desesperam para ter filhos e, com a criança nos braços, não conseguem se entregar a esse sentimento.

Ser mãe é fundamental para uma mulher?
Para mim, é, mas conheço grandes mulheres que não sentem vontade. Não entendo um casamento sem crianças. Com os anos, deve surgir uma tristeza, falta um tempero. Tive a terceira filha aos 37 anos e
foi uma experiência totalmente diferente. Vivia uma intensa felicidade com o Daniel, e esse bebê inesperado foi a cereja do nosso bolo. Mesmo que eu tenha sido presente na criação dos meus filhos,
sempre tive a preocupação de fazê-los dormir para sair à noite. Agora, eu quero contar histórias para a minha filha, vê-la dormindo. A Antonia nos sossegou. Deve ser por isso que ela é malcriada como os meus outros dois jamais foram.