Os gestos delicados e os sorrisos largos de Maitena
contrastam com o estereótipo das “mulheres
alteradas” criado pela cartunista argentina nos
livros e tiras publicadas em mais de 30 países.
Aos 44 anos, Maitena Burundarena dosa rebeldia e maturidade
e rompe o ano sabático para lançar no
Brasil o livro Curvas Perigosas. Casada com
o agente literário Daniel Kon, 50, ela trocou
o agito portenho pelo litoral uruguaio, onde cria a
pequena Antonia, de seis anos, fruto de um amor desafiador.
Desafios, porém, nunca a assustaram. Aos 17 anos,
Maitena foi mãe solteira da fotógrafa
Amaya, 26, e, passados dois anos, teve Juan Pablo, que,
aos 24 anos, é produtor de tevê. Pouco
antes dos 30, viveu uma relação homossexual
e fez a descoberta que guia seu trabalho. “As
mulheres são insuportáveis. São
seres inseguros e cheios de medo”, afirma a cartunista.
Por que esse ano de descanso?
Desde julho do ano passado, minha vida pessoal se tornou
prioridade. Operei as cordas vocais e fiquei dois meses
totalmente muda. Parei de fumar, depois de 30 anos,
de um dia para outro. Não bebo mais nada de álcool
e isso sempre foi uma coisa especial para mim. Também
vi que necessitava de mais atenção. Chegou
a hora de trabalhar menos, ver o que é importante
ou não na minha vida. Já não tenho
necessidade de entregar tiras inéditas todas
as semanas para revistas e jornais. Posso levar uma
vida sem tanto esforço e até recuperar
uma espontaneidade no meu trabalho que perdi no meio
do caminho.
A perda da espontaneidade
se deu por exigências do mercado
ou por acomodação sua?
As duas coisas. Publico em 30 países, precisei
encontrar uma unidade de produção. E o
trabalho deixou de ser prazer para ficar maçante.
Quero trabalhar menos e cobrar mais. Estou nessa rotina
desde os 17 anos. O que virá pela frente não
sei. Talvez seja uma Maitena diferente, inclusive nos
traços.
Sua mãe é
arquiteta. Começou a desenhar por influência
dela?
Não fui influenciada em nada por minha mãe.
Comecei a desenhar
por absoluta necessidade. Tive uma filha aos 17 anos
e não queria depender dos meus pais. Comecei
a trabalhar no departamento de
arte de um jornal e acumulava outros quatro serviços
extras. Aos 18, casei com outro namorado e, logo, tive
meu segundo filho. Precisava manter uma casa. Nunca
pude fazer poupança. Trabalhava para sustentar
minhas despesas.
Como encarou a maternidade
tão cedo?
Eu nunca planejei gravidez, sempre
me cuidei e vi que diafragma e pílula realmente
falham. Não é papo de mulher para prender
homem. Ser mãe foi a melhor coisa. Eu amadureci,
encontrei um foco na vida. Com 30 anos, estava com filhos
crescidos, podia aproveitar a vida, e os meninos não
eram empecilhos. As mulheres não sabem administrar
essa bênção. Elas trabalham feito
loucas, chega uma hora em que se desesperam para ter
filhos e, com a criança nos braços, não
conseguem se entregar a esse sentimento.
Ser mãe é
fundamental para uma mulher?
Para mim, é, mas conheço grandes mulheres
que não sentem vontade. Não entendo um
casamento sem crianças. Com os anos, deve surgir
uma tristeza, falta um tempero. Tive a terceira filha
aos 37 anos e
foi uma experiência totalmente diferente. Vivia
uma intensa felicidade com o Daniel, e esse bebê
inesperado foi a cereja do nosso bolo. Mesmo que eu
tenha sido presente na criação dos meus
filhos,
sempre tive a preocupação de fazê-los
dormir para sair à noite. Agora, eu quero contar
histórias para a minha filha, vê-la dormindo.
A Antonia nos sossegou. Deve ser por isso que ela é
malcriada como os meus outros dois jamais foram.
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