O historiador alemão Jörg Friedrich não
é fã de futebol, mas vê com simpatia
a invasão de turistas em seu país. Acha
uma boa oportunidade para se visitar museus e relembrar
a Segunda Guerra, agora sob o ponto de vista dos vencidos.
Autor de livros sobre crimes nazistas e colaborador
da Enciclopédia do Holocausto, ele
provocou polêmica com O Incêndio (Record,
588 págs, R$ 64,90), que descreve os efeitos
do bombardeio inglês e americano sobre cidades
alemãs. Friedrich falou a Gente.
Por que o interesse
pela Segunda Guerra?
Nasci na guerra e cresci em um país aniquilado.
A geração de meu pai não olhava
para trás, queria apenas reerguer a nação.
Herdei a derrota, a vergonha do Holocausto e a sensação
de ser filho de criminosos. Precisava entender o passado
e identificar os culpados. Durante a Copa, turistas
deveriam ir a museus de guerra.
O livro gerou polêmica.
Nem tanto por falar do sofrimento
alemão, mas por certas palavras. Durante os
bombardeios, o porão das casas virava refúgio
e era
tomado pela fumaça e por um calor que torrava
as pessoas, viravam cinza. Descrevo o lugar como “crematório”
e me acusaram de fazer comparação com
Auschwitz. Não digo que aquela gente foi queimada
por ter a raça “errada” ou o “nariz
errado”, mas que foram vítimas de
uma nova técnica de guerra.
Fala-se pouco dos efeitos
da guerra aérea.
Os relatos costumam terminar no lançar da bomba.
Há inibições
em descrever a desgraça alemã. Eles
começaram a guerra, fizeram bombardeios e era
natural que sofressem as conseqüências,
mas
as bombas atingiram mulheres, velhos e crianças.
Hitler estava
protegido no bunker.
O livro pode estimular
novas regras para ataques aéreos?
Se soubesse que faria efeito enviaria
um para Bin Laden. Mas veja a Guerra do Iraque, nos
bombardeios a Bagdá os civis morreram por falha
técnica. Na Segunda Guerra, a ordem era matar
900 mil pessoas.