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Carros

Desenho da Pixar conquista aos poucos com
ode a valores perdidos como a amizade em
detrimento da busca da fama e do sucesso

Mariane Morisawa

Divulgação
Carros: Relâmpago McQueen é um carro de
corrida que vai parar num pequeno vilarejo
Começar uma animação com a tela preta é uma ousadia. Em Carros, novo desenho da Pixar, o blecaute é seguido pelo barulho e pelas imagens de carros passando em altíssima velocidade. E aí, tela preta de novo. É que Relâmpago McQueen, o protagonista, está se concentrando para sua próxima corrida. “Sou mais do que rápido, mais do que veloz, eu sou um relâmpago”, diz ele, enquanto visualiza a competição.

O segundo arrojo de Carros são seus personagens. Porque já houve brinquedos falantes em Toy Story 1 e 2, insetos falantes em Vida de Inseto, e criaturas bizarras falantes em Monstros S.A. Automóveis falantes, nunca. Pelo menos em desenho para a telona. Eles provocam certa estranheza inicial, já que normalmente são seres inanimados, sem bocas e olhos. Relâmpago é um carro de corrida famoso e jovem, que pode ser o primeiro estreante a se tornar campeão da Copa Pistão. Seus rivais são um corredor veterano e um desleal. O desejo dele é, mais do que ganhar a taça, conquistar um poderoso patrocinador. E assim ter fama, status e riqueza. Num universo tão masculino, é possível que as meninas se cansem no início. Mas segurem-nas na sala.

Porque esses pequenos desafios impostos pelo diretor John Lasseter, o homem que revolucionou a animação, e o co-diretor Joe Ranft (que morreu no ano passado) fazem com que a conquista do espectador seja quadro a quadro, mas definitiva. Quando o veloz carro de corrida vai parar num lugarejo perdido à beira da mítica Rota 66, abandonada em favor de uma rodovia mais moderna e reta, o filme desabrocha. Lá vivem personagens de carne e osso, como um médico e juiz rabugento, uma promotora e dona de pousada ativista, um guincho caipira (Mate, o melhor personagem) e um dono de loja de pneus italiano e apaixonado pela Ferrari – um jeito de não deixar a Fórmula 1 de fora.

Carros faz uma deliciosa ode aos Estados Unidos, e ao mundo, de antigamente. O longa tem saudade de uma época em que não se corria tanto e em que a solidariedade e a amizade predominavam. Não tem problema ser um loser, um perdedor – o que isso quer dizer, afinal? Com suas técnicas de animação modernas, o filme reforça que a animação é o verdadeiro território de experimentação do cinema americano atual. E Lasseter, de novo, torna agradável a experiência de acompanhar os créditos até o final, criando pequenas versões de Monstros S.A., Toy Story e Vida de Inseto em formato Carros.
Encanto à segunda vista.