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| Carros:
Relâmpago McQueen é um carro de
corrida que vai parar num pequeno vilarejo |
Começar uma animação com a tela preta
é uma ousadia. Em Carros, novo desenho
da Pixar, o blecaute é seguido pelo barulho e pelas
imagens de carros passando em altíssima velocidade.
E aí, tela preta de novo. É que Relâmpago
McQueen, o protagonista, está se concentrando para
sua próxima corrida. “Sou mais do que rápido,
mais do que veloz, eu sou um relâmpago”, diz
ele, enquanto visualiza a competição.
O segundo arrojo de Carros são seus personagens.
Porque já houve brinquedos falantes em Toy
Story 1 e 2, insetos falantes em Vida
de Inseto, e criaturas bizarras falantes em Monstros
S.A. Automóveis falantes, nunca. Pelo menos
em desenho para a telona. Eles provocam certa estranheza
inicial, já que normalmente são seres
inanimados, sem bocas e olhos. Relâmpago é
um carro de corrida famoso e jovem, que pode ser o primeiro
estreante a se tornar campeão da Copa Pistão.
Seus rivais são um corredor veterano e um desleal.
O desejo dele é, mais do que ganhar a taça,
conquistar um poderoso patrocinador. E assim ter fama,
status e riqueza. Num universo tão masculino,
é possível que as meninas se cansem no
início. Mas segurem-nas na sala.
Porque esses pequenos desafios impostos pelo diretor
John Lasseter, o homem que revolucionou a animação,
e o co-diretor Joe Ranft (que morreu no ano passado)
fazem com que a conquista do espectador seja quadro
a quadro, mas definitiva. Quando o veloz carro de corrida
vai parar num lugarejo perdido à beira da mítica
Rota 66, abandonada em favor de uma rodovia mais moderna
e reta, o filme desabrocha. Lá vivem personagens
de carne e osso, como um médico e juiz rabugento,
uma promotora e dona de pousada ativista, um guincho
caipira (Mate, o melhor personagem) e um dono de loja
de pneus italiano e apaixonado pela Ferrari –
um jeito de não deixar a Fórmula 1 de
fora.
Carros faz uma deliciosa ode aos Estados Unidos, e
ao mundo, de antigamente. O longa tem saudade de uma
época em que não se corria tanto e em
que a solidariedade e a amizade predominavam. Não
tem problema ser um loser, um perdedor –
o que isso quer dizer, afinal? Com suas técnicas
de animação modernas, o filme reforça
que a animação é o verdadeiro território
de experimentação do cinema americano
atual. E Lasseter, de novo, torna agradável a
experiência de acompanhar os créditos até
o final, criando pequenas versões de Monstros
S.A., Toy Story e Vida de Inseto
em formato Carros.
Encanto à segunda vista.
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