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Elas nasceram em Campo Belo, interior de Minas, e mudaram-se para São Paulo aos 16 anos.
“A primeira vez que vi uma menina sentada no colo de um menino
na escola foi um escândalo”,
diz Kênya (à direita)
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Revelação
Pizzaria, bordel e MTV

Em apenas três meses de MTV, as VJs gêmeas
Kênya e Keyla, que antes da fama já cantaram em
bordéis e pizzarias, comandam três programas na
emissora e contam que sustentam os pais
texto Jonas Furtado
foto murillo constantino
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Sozinhas, elas passam despercebidas em público. Ninguém reconhece Kênya sem Keyla e vice-versa. Mas basta as irmãs gêmeas saírem juntas na rua para que uma multidão de adolescentes se aglomere em volta delas. Tem sido assim há três meses, desde que a dupla passou a apresentar o Disk MTV e o Top 20 Brasil, os dois programas de maior audiência da emissora. Na terça-feira 13 de junho, elas assumiram o comando também da Copa de Clipes, que ficara no ar até o final da Copa da Alemanha. “Ainda acho estranho quando me pedem autógrafo. Mas é um barato”, diz a morena Kênya.

Os números tem sido favoráveis às gêmeas: desde que Kênya e Keyla Boaventura, 24 anos, assumiram o Disk MTV, a audiência aumentou em mais de 30%. “Identificamos nelas umas figuraças, como a Astrid foi um dia e o João Gordo ainda é. Claro que tem a história de serem gêmeas, mas cada uma delas é um personagem”, afirma Zico Góes, diretor de programação da emissora.

Kênya e Keyla estão na estrada há um bom tempo. Tinham 7 anos quando, de tanto cantarem, chamaram a atenção de uma professora do pré-primário da escola em Campo Belo, onde nasceram, a 218 quilômetros de Belo Horizonte (MG). “Ela disse: ‘Olha, vocês têm
ouro em casa e não sabem’”, conta o pai delas, José Soares Boaventura, ex-microempresário. Começaram então a se apresentar em concursos e festivais da região. Oito anos atrás, decidiram
tentar a sorte em São Paulo.

Dois anos mais tarde, com a microempresa falida, José Soares mudou-se para a capital paulista com a esposa Nilza, costureira, e a filha mais velha Luciana. A família Boaventura encontrou um ambiente diferente do que estava acostumada. “A primeira vez que vi uma menina sentada no colo de um menino na escola foi um escândalo”, lembra Kênya, que confessa já ter tirado proveito de ser tão parecida com a irmã. “Pedi a Keyla que se passasse por mim e saísse com o menino que eu ficava, para que eu pudesse ficar com outro”, diz. Até mesmo o pai se confundia na hora do castigo: “Muitas vezes uma cometia a travessura e a outra é quem apanhava. Quando uma pedia ‘não, pai, ela não merece’, aí eu percebia ‘ah, então foi você’”.

A primeira oportunidade que as duas tiveram em São Paulo como cantoras foi em uma pizzaria. Bateram na porta e combinaram com o dono: se o show fosse ruim, ele poderia parar na primeira música. Do contrário, pagaria um cachê a elas. “Foi legal e ele pagou”, diz Kênya. “Íamos às mesas perguntar para os clientes o que queriam ouvir. ‘Como os Nossos Pais’, ‘Maluco Beleza’, ‘Chão de Giz’, não agüento mais cantá-las. Eu dormia quando cantava.”

Para ganhar o dinheiro com o qual sustentam a casa – elas moram com os pais, aposentados, e a irmã mais velha – entre 2003 e 2004
as gêmeas se apresentaram em um lugar pitoresco. “A gente tocava num bordel e não via baixaria. Um dia, disse no microfone: ‘E aí, não vai rolar baixaria?’, diverte-se Keyla. “Os caras ficavam batendo palmas, pedindo música e esqueciam de transar. ‘Champagne’,
‘La Barca’, eles viajavam.”

Em outubro de 2005, Kênya e Keyla lançaram pela EMI o álbum Ksis, homônimo da banda que formam juntas. “Em Campo Belo, foi uma festa, meus tios soltaram fogos. Parecia que o Bono Vox estava com um trio elétrico na cidade. Lá, podemos dizer que somos celebridades”, diz Kênya. “Mas em São Paulo a gente tá tirando proveito nas festas. Todo dia tem festa boa, pô!”