Entrevista  
‘‘Uma vez cheguei em Salvador
e meu carro estava com insulfilm. Os seguranças mandaram colocar e eu, tirar. O que mais gosto é
ser reconhecida’’
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Ivete Sangalo
‘‘Não me importo se dizem que estou magra ou gorda’’
continuação

Você tem tido contato com os jogadores, na concentração?
Engraçado, tá parecendo o povo que me dá cartas, pedindo que eu entregue à Xuxa. Acham que encontro ela todo dia, toda hora. Não tenho esse convívio.

No estádio, ou diante da televisão, como você assiste um jogo?
Superconcentrada. Se não houver concentração, ouvimos apenas
o barulho. Não sou torcedora apenas de Copa. Futebol é arte, é
um esporte bonito, elegante, o controle de bola... piro com jogada invertida, aquela mudança de jogo repentina. Cafu é o rei da invertida. Bicho, já fui goleira!

A Seleção é a única favorita, olhando para todas as
modalidades esportivas, que não gera raiva, nem ciúmes,
pelo contrário. Por quê?

Porque é um pentacampeão que imprime a presença positiva, carismática. A diversidade do Brasil é impressionante, no campo
de futebol, na rua, na música.

Se tivesse nascido em outro país, faria a música que faz?
Não, né, paizinho? Não tem lugar igual ao Brasil, não tem povo que
lide com as oportunidades como o brasileiro.

Como explicar seu sucesso também fora do Brasil?
Eu e outros artistas representamos o sentimento brasileiro. É impressionante como o brasileiro é improvisador e feliz. Somos musicais. Isso, para um mundo prático e previsível como o da Alemanha, da maior parte dos países europeus, significa muito.
Mas o pragmatismo deles não elimina a possibilidade de serem agradáveis. Já para nós tudo é possível, dá para resolver, mesmo
nas situações complicadas.

Seu show, percebe-se pela reação da platéia, brasileiros ou não, não pára um segundo. Por isso a platéia sai tão entusiasmada?
Precisa alguém me ligar e dizer: “Olha, minha filha, acalma aí, fica quieta”. O show é pulsante demais. Alguém precisa me avisar:
“Querida, chega”.

O sucesso é bom?
Desfruto isso diariamente. Uma vez cheguei em Salvador e meu carro estava com insulfilm, todo preto. Os seguranças mandaram colocar e pedi para tirar. Para quê? O que mais gosto é ser reconhecida. Tô numa batalha disgramada para aparecer em tudo quanto é canto e você me bota insulfilm? Pelo amor de Deus, tira essa porcaria daí... Entendo artistas mais retraídos, introspectivos, mas para mim é diferente – se proponho na minha música algo popular, por que me esconder?

Sua popularidade é resultado apenas de sua música ou
também desse seu jeito fácil de falar, sincero?

Tem gente que gosta de mim e não gosta do som que eu faço.

Tem isso, é?
Ôxe!... você provavelmente deve ser assim. Acho isso ótimo. Não dá para ficar criando um personagem. Seria muito cansativo, daria um trabalho desgraçado. Seria um equívoco diário.

Em quem se mirava quando começou?
Todos os baianos, a começar por Dorival Caymmi. Carlinhos Brown, Caetano, Bethânia. Imitava a Bethânia na frente do espelho, descalça. Brinco com ela, sempre gentil comigo. Digo: “Bethânia, quando você tira os sapatos...”. Ela ri. Gal (Costa) é muito talento. Tenho foto do (Gilberto) Gil na minha cabeceira. Há outros que não aparecem no meu trabalho, evidenciados. Não dá para aplicar no trabalho tudo que se gosta. Ia parecer uma maluca dessas, bem chatas, dizendo: “Ah, cara, tenho uma superinfluência de tudo o que escuto...”. Não dá.