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“Não sou matemático. Como artista, gosto do risco, do erro”, diz Milhem, que está em sua segunda novela, Cidadão Brasileiro
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Carreira
O rei do cinema

Em cartaz com o filme A Concepção, o ator
Milhem Cortaz tem cinco longas para estrear
e mais três para rodar ainda neste ano
texto Mariane Morisawa
foto CLAUDIO GATTI
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Tenho 14 anos de profissão e nunca tirei férias”, diz Milhem Cortaz.
É verdade que, para o grande público, não parece isso tudo: ele está ficando conhecido agora, por causa das suas duas primeiras novelas, Essas Mulheres e Cidadão Brasileiro, da Record, emissora com a
qual acaba de assinar contrato de três anos. Quem acompanha cinema nacional, no entanto, sabe que o ator é quase onipresente.
Ele tem a considerável marca de 20 longas – mais ou menos, porque ele meio que perdeu a conta. “Eu privilegio o cinema, sim”, diz ele,
que ficou famoso na tela grande por causa do matador que vira evangélico em Carandiru. No entanto, não consegue assistir a cada um de seus filmes mais de uma vez. “Geralmente, não gosto do
meu trabalho. Eu venho do teatro, onde, se eu errei hoje, posso consertar amanhã. No cinema, não.”

Atualmente, está em cartaz no ousado A Concepção, de José Eduardo Belmonte, sobre um grupo de jovens que vive anarquicamente. “O filme me modificou como artista”, diz ele, que embarcou na proposta radical do cineasta. Viveu três meses em Brasília incorporando a identidade do personagem Lino, inclusive o RG. “Milhem foi uma espécie de guia, porque tem essa coisa apaixonada e intensa do italiano, que contagiou todo mundo”, afirma
o diretor. O ator, cujo nome pronuncia-se “Milem”, é filho da dona de loja de roupas Maria das Graças, descendente de italianos, e do ex-administrador de várias empresas e atual vendedor de cachorro-quente Milhem, de ascendência árabe. “Ele cansou do terno e optou por uma vida pacata”, diz o filho.

Considerado rebelde pelos pais, tinha 12 anos quando conheceu Walmor Chagas num encontro de jovens da igreja e aceitou seu convite para fazer a peça O Santo Milagroso. Adolescente, foi morar na Itália e participou da companhia Piccolo, de Milão. Rodou o país fazendo teatro de rua. Voltou ao Brasil com esperança de seguir
essa trilha. “Cheguei aqui e achei a coisa mais pobre do mundo. No Brasil, eles confundem pobreza com simplicidade”, afirma. Depois
de passar pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, destacou-se no papel de um homossexual na peça O Melhor do Homem, no começo da década de 90. “Ninguém quis fazer. Não é como hoje que é moda fazer um travesti, que você vira bom ator se interpretar um”, diz o ator de 33 anos.

Alto, forte e de voz grossa e rouca, ele vai viver justamente um travesti no próximo filme de Belmonte, Se Nada Mais Der Certo, que roda no final do ano. “Não sou matemático. Como artista, gosto do risco, do erro”, diz ele, casado há sete anos com a atriz Ziza Brisola. Até lá, como bom workaholic, além dos cinco longas que tem para lançar, terá rodado Não por Acaso, de Philippe Barcinski, e O Magnata, baseado num roteiro de Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr.