| Tenho 14 anos de profissão e nunca
tirei férias”, diz Milhem Cortaz.
É verdade que, para o grande público,
não parece isso tudo: ele está
ficando conhecido agora, por causa das suas
duas primeiras novelas, Essas Mulheres e
Cidadão Brasileiro, da Record,
emissora com a
qual acaba de assinar contrato de três
anos. Quem acompanha cinema nacional, no entanto,
sabe que o ator é quase onipresente.
Ele tem a considerável marca de 20 longas
– mais ou menos, porque ele meio que perdeu
a conta. “Eu privilegio o cinema, sim”,
diz ele,
que ficou famoso na tela grande por causa do
matador que vira evangélico em Carandiru.
No entanto, não consegue assistir a cada
um de seus filmes mais de uma vez. “Geralmente,
não gosto do
meu trabalho. Eu venho do teatro, onde, se eu
errei hoje, posso consertar amanhã. No
cinema, não.”
Atualmente, está em cartaz no ousado
A Concepção, de José
Eduardo Belmonte, sobre um grupo de jovens que
vive anarquicamente. “O filme me modificou
como artista”, diz ele, que embarcou na
proposta radical do cineasta. Viveu três
meses em Brasília incorporando a identidade
do personagem Lino, inclusive o RG. “Milhem
foi uma espécie de guia, porque tem essa
coisa apaixonada e intensa do italiano, que
contagiou todo mundo”, afirma
o diretor. O ator, cujo nome pronuncia-se “Milem”,
é filho da dona de loja de roupas Maria
das Graças, descendente de italianos,
e do ex-administrador de várias empresas
e atual vendedor de cachorro-quente Milhem,
de ascendência árabe. “Ele
cansou do terno e optou por uma vida pacata”,
diz o filho.
Considerado rebelde pelos pais, tinha 12 anos
quando conheceu Walmor Chagas num encontro de
jovens da igreja e aceitou seu convite para
fazer a peça O Santo Milagroso.
Adolescente, foi morar na Itália e participou
da companhia Piccolo, de Milão. Rodou
o país fazendo teatro de rua. Voltou
ao Brasil com esperança de seguir
essa trilha. “Cheguei aqui e achei a coisa
mais pobre do mundo. No Brasil, eles confundem
pobreza com simplicidade”, afirma. Depois
de passar pelo Centro de Pesquisa Teatral de
Antunes Filho, destacou-se no papel de um homossexual
na peça O Melhor do Homem, no
começo da década de 90. “Ninguém
quis fazer. Não é como hoje que
é moda fazer um travesti, que você
vira bom ator se interpretar um”, diz
o ator de 33 anos.
Alto, forte e de voz grossa e rouca, ele vai
viver justamente um travesti no próximo
filme de Belmonte, Se Nada Mais Der Certo,
que roda no final do ano. “Não
sou matemático. Como artista, gosto do
risco, do erro”, diz ele, casado há
sete anos com a atriz Ziza Brisola. Até
lá, como bom workaholic, além
dos cinco longas que tem para lançar,
terá rodado Não por Acaso,
de Philippe Barcinski, e O Magnata,
baseado num roteiro de Chorão, vocalista
da banda Charlie Brown Jr. |