Reportagens  
Caco Alzugaray/Arquivo Pessoal
Vitor Negrete em uma de
suas viagens, fazendo trekking
na Nova Zelândia
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Especial
Uma vida de emoções

A história de Vitor Negrete, que, horas antes de
morrer, tornou-se o primeiro brasileiro a alcançar
o pico do Everest sem oxigênio suplementar
texto Diógenes Campanha e Gisele Vitória
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Marina Soler/Arquivo Pessoal
Vitor com o filho Leon, de 2 anos, a bordo do “Trovão
Azul”, como chamava sua pick up Ford 1987
Na tarde da quinta-feira 18, Leon brincava feliz com seu velocípede. Na rua do condomínio no Jardim Nova Europa, em Campinas, a criança de 2 anos se divertia com a mãe, a socióloga Marina Soler, 28, mulher do alpinista Vitor Negrete. Ao lado, no carrinho, estava o caçula Davi, de sete meses, que ainda mama no peito. Ela os levou para fora de casa a fim de afugentar a angústia de um dia inteiro preocupada com o arriscado percurso que o marido, um dos maiores alpinistas do Brasil, cumpria rumo ao cume do Everest, a 8.850m. Não era a primeira vez que ele conquistava a montanha mais alta do mundo, mas desta vez o desafio era subir sem oxigênio suplementar. “Volta, papai”, disse Leon, risonho, interrompendo os pensamentos da mãe. Marina chorou, como se a frase inesperada do filho confirmasse o mau pressentimento que a assaltava desde a manhã. “Tinha certeza de que algo havia acontecido”, diz. Às 4h da manhã da sexta-feira 19, ela abriu a porta de casa para seus pais, que traziam a notícia: Vitor Negrete havia morrido no Everest, aos 38 anos.

A morte, às 17h15 de quinta-feira, no horário do Brasil – praticamente na mesma hora em que Marina brincava na rua com Leon – não o impediu de realizar a conquista inédita para o alpinismo brasileiro: naquela madrugada, ele se tornou o primeiro brasileiro a alcançar o cume do Everest sem oxigênio suplementar. O parceiro Rodrigo Raineri não pôde acompanhá-lo porque estava com dor de garganta
e subiria até o cume no dia 25 de maio, quando estava prevista
uma nova janela de bom tempo. Durante a descida, contudo, Vitor sentiu-se mal, devido ao ar rarefeito e às baixíssimas temperaturas. Pelo rádio, pediu o auxílio de um sherpa (nativo do Nepal que acompanha os alpinistas nas expedições) e foi levado a uma
barraca do acampamento 3, a 8.300m, onde morreu, provavelmente
de exaustão. O corpo não pôde ser resgatado e ficou na montanha. Foi enrolado na própria barraca e sepultado na segunda-feira 22 por três sherpas. “É difícil não poder me despedir, mas também não gostaria de receber o meu marido morto. Não é a imagem que
quero guardar dele”, diz Marina.

Fotos: Caco Alzugaray / Arquivo Pessoal
Além do montanhismo, uma das paixões de Vitor eram as corridas de aventura. Membro da equipe Try On Landscape, ele participava, ao lado de cinco amigos,
de provas de corrida, bicicleta e rafting (à dir.) e, no ano passado, disputou
um campeonato mundial na Nova Zelândia

O alpinista e a socióloga eram casados havia 3 anos, depois de namorarem seis meses. O casal se conheceu na academia que freqüentavam em Campinas e Marina ficou atraída pelo senso de humor de Vitor. “Além de tê-lo achado bonito, percebi que todo mundo dava risada quando ele falava”, conta. Destemido e bem-humorado, fazia piadas até com os riscos que corria no esporte e deixava o medo para a mulher. “Nunca fiquei apavorada, sempre tentei segurar a onda”, diz Marina. “Talvez eu tenha guardado muita coisa, mas não adiantava falar, porque ele era muito determinado.” Consciente do risco que corria, Vitor tinha um pacto com alguns amigos, de que eles dariam suporte à sua família, caso algo lhe acontecesse.

Marina nunca foi seduzida pelo esporte do marido. “Não gosto de sofrimento. Gosto de fazer algo e voltar para casa”, diz. Isso não impediu que o primeiro filho do casal fosse concebido em um acampamento na base do monte Aconcágua, na América do Sul, a 10 graus abaixo de zero. “Nem estava tão frio!”, brinca Marina, contando que a gravidez não foi planejada. A montanha mais alta do continente americano (6.962m) também foi fundamental na trajetória de Vitor como alpinista. Em janeiro de 2002, ele e o parceiro Rodrigo Raineri se tornaram os primeiros brasileiros a alcançarem o cume do Aconcágua pela face sul, a mais difícil de ser vencida. As vitórias como esportista aconteciam paralelamente às conquistas na vida pessoal. No ano passado, quando a dupla chegou ao cume do Everest (com oxigênio suplementar), Marina estava grávida do caçula Davi, hoje com sete meses.

Em casa, com os filhos, Vitor gostava de correr e brincar de bola. Fã dos conjuntos New Order e Depeche Mode, também costumava colocar as músicas dos Ramones, grupo de punk rock, para embalar os primeiros movimentos de Leon. Passeava com ele em seu “Trovão Azul”, um barulhento Ford pick up 87 que, segundo os amigos, às vezes tinha o velocímetro quebrado, mas o som estava sempre impecável. O primogênito passou um mês sendo chamado apenas de “bebê”, porque os pais não tinham decidido o nome da criança. E, tranqüilos e apaixonados, Vitor e Marina não entendiam por que as pessoas ficavam tão aflitas com aquilo. “Eu queria Otto ou Wolfgang, mas ele dizia que parecia nome de pastor alemão”, diz Marina. Um dia, decidido a encerrar o impasse, o casal começou a pensar em nomes de personalidades. Quando chegaram nos revolucionários, optaram pelo primeiro nome do líder comunista Leon Trotsky. O pai de Vitor, o médico paraguaio Silvio Negrete, 80 anos, residente no Brasil desde 1952 e hoje dono de uma farmácia de manipulação em São Paulo, foi um socialista revolucionário. Preso político em Assunção, lutou como oficial no Paraguai na década de 40.