Logo
 
Entrevista
Nando Reis
O músico Nando Reis, que lança o sexto CD solo, conta que só voltou a falar com os Titãs em 2005, três anos após sua saída e diz que se encanta com homens e mulheres
 

De cinco anos para cá, a vida do músico Nando Reis, 43, sofreu revezes. O colega de banda Marcelo Frommer morreu atropelado e a amiga Cássia Eller não resistiu a um ataque cardíaco – todos em 2001.Viveu ainda duas separações. A primeira foi sua saída dos Titãs, em 2002, banda que ajudou a fundar, e a segunda, da sua mulher Vânia, amor de adolescência e com quem teve Theodoro, 20, Sophia, 17, Sebastião, 11, e Zoé, 6. Nando se viu mergulhado no vício pelo álcool e drogas, companheiros na hora da diversão e do trabalho. Mas mudou. Controlou a dependência, fez as pazes com os Titãs, com a ex-mulher e lança seu sexto disco solo, Sim e Não. Nele, fala de sentimentos recentes, reflexos de uma visão positiva e amorosa em relação à vida. Nesse recomeço, Nando tem uma namorada nova (apresentada apenas como Nani) e a proximidade dos filhos, que gosta de buscar na escola.

Você usava drogas e bebia na hora de compor e subir
ao palco para tocar. Como foi em Sim e Não?

Foi a primeira vez que não bebi nem usei drogas para compor. Não foi fácil. Sempre fui visto como um artista ligado às drogas e ao álcool e não foi à toa. Tive isso como estimulante para o meu processo de criação. Por um tempo, teve seus benefícios. Mas, como toda dependência e vício, passou a ser ruim.

Quando isso aconteceu?
Quando passou a contribuir para a minha falta de concentração. Quando você está muito alterado ou entorpecido não tem memória do passo a passo do processo criativo. Tudo parece mágica. E isso uma hora é horrível. Eu estava deixando de produzir e tive um período muito longo
de angústia. Precipitou-se após a morte do Marcelo (Frommer) e da Cássia (Eller), definiu-se no meu desligamento dos Titãs e no fim de
um casamento de 20 anos. De certa forma, nesses 5 anos turbulentos, mudei muitas coisas. Não posso dizer que seja algo que tenha se concluído porque é um processo constante, mas nunca tive tanto
prazer em tocar como agora que estou extremamente lúcido e sóbrio
no palco. Foi uma descoberta incrível, vinte e três anos depois de
subir ao palco pela primeira vez.

Como compositor, considera-se uma espécie rara?
Brinco que sou uma espécie em extinção. Tenho um pouco de horror de olhar e ver que tanta gente da minha geração morreu tão cedo. E tenho uma forma tradicional de fazer música. Componho com um violão, papel e caneta e um gravador. Gosto de melodia.

No CD, homenageia sua filha caçula.
A Zoé é muito esperta. Um dia ela chegou para mim e falou: “Quando
é que você vai fazer a música ‘O mundo é bão, Zoézinha’?” (ele havia feito uma música para o irmão mais velho dela, ‘O mundo é bão, Sebastião!’). Eu dei uma enrolada mas ela não caiu. Daí fiz essa música (‘Espatódea’). Diferente dos outros filhos, há em nosso caso uma peculiaridade: ela é ruiva. E a música aborda esse nosso laço. ‘Espatódea’ é uma árvore que dá uma flor laranja. Zoé tem um laranja intenso porque é toda branquinha.

Em 1997, você disse que era um cara que nasceu para
casar e ter filhos. O que pensa hoje?

A minha concepção de casamento agora é diferente, após a experiência que tive com a Vânia por 20 anos, filhos e tudo o que construímos juntos. Independente de não sermos mais casados, temos uma relação amorosa e sadia. Que também teve um período de turbulência. A Vânia é um amor eterno. Não só pelo fato de ela ser a mãe dos meus filhos, mas por tudo que vivemos. Como foi também com a Ana (Butler, diretora da MTV), com quem fiquei depois que me separei. Na minha vida agora tem a Nani. Ela tem a vida dela em São Leopoldo (região da Grande Porto Alegre), eu, a minha aqui. O que vai acontecer não interessa a ninguém, mas não sei se sou um homem para casar, principalmente nos moldes que declarei em 1997. Talvez eu tenha características que não funcionem para um casamento ortodoxo.

Por exemplo?
Às vezes sou muito voltado para mim mesmo. Viajo muito para dentro de mim. Eu acho uma graça na vida. Talvez eu seja o cara que mais queira casar sem poder casar. A minha idéia de fidelidade não segue o conceito da maioria e estabelece um vínculo diferente. Tenho relação de sedução com muitas pessoas. Eu me encanto com outras pessoas, homens, mulheres.

Esse encantamento é sexual?
Eu não vou responder isso. Não tem porque, entende?

Por que saiu dos Titãs?
A minha saída foi determinante por uma questão: necessidade de espaço e tempo para o desenvolvimento do meu trabalho. Já tinha uns discos solo e fazia shows, mas tinha vontade de lançar o disco e de cuidar dele. Como era impossível conciliar, tive de me desligar. Claro que tudo misturado com a minha conturbada saída.

Houve discussões ou ofensas?
Fui insensível e até desatencioso porque poderia ter evitado (o desgaste). A gente vinha de um disco difícil (A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana), que tínhamos feito com o Marcelo, mas ele morreu antes da gravação. A reestruturação foi sofrida e o fato é que eu estava desestimulado e não conseguia enxergar isso. Não percebia a minha ausência... integral. E numa banda você não pode estar assim. Aquilo não é um cabide de empregos. Isso fez com que eu criasse uma situação desconfortável para meus amigos. Propus alternativas descabidas, até ofensivas, a eles.

Quais alternativas descabidas e ofensivas?
Eu tinha que me submeter à agenda dos Titãs e seguir as prioridades da banda. Combinamos que shows solo só segunda, terça e quarta. Mas, por exemplo, propus que a gente parasse um ano (depois da gravação do CD A Melhor Banda...), o que é descabido. Achei que a gente estava esgotado, quando a minha relação estava esgotada. Então eu propus uma desesperada forma de conciliar, enquanto não enxergava que isso poderia ser agressivo. E eu vinha me isolando como compositor, nos próprios discos, eu só tinha música sozinho. Isso foi um afastamento. Hoje eu entendo, mas na época, não, por desespero e medo.

Qual a relação de vocês hoje?
A gente ficou um período sem se falar. Falei muita besteira, eles também. Ficaram com muita raiva, eu também.

Poderia me relatar algum episódio de raiva?
Eu achei agressiva a resposta (dada pelos Titãs em relação ao seu comportamento e saída), embora compreensível. Mas foi deselegante, para usar o mesmo termo.

Qual resposta?
Por exemplo, a publicação da biografia (autorizada) da banda, que
não tinha minha foto, a do Marcelo e do Arnaldo (Antunes) na capa. Fiquei p. da vida!

Foi uma represália da banda à sua saída?
Claro. Os Titãs não iam permitir que eles (jornalistas que fizeram a biografia) publicassem uma capa sem que eles (Titãs) autorizassem. Foi logo após a minha saída! O último capítulo do livro foi escrito durante a minha saída. A minha posição ficou de vilão, estava todo mundo com raiva de mim, acho que até os jornalistas (risos).

Quando voltaram a se falar?
Em 2005, soube que a Malu (Mader) teve um problema de saúde (a atriz retirou um cisto do cérebro). Aquilo me tocou. Eu queria falar com o (Tony) Bellotto e com ela e tudo aquilo que me impedia de pegar o telefone era muita bobagem perto do meu amor por eles. Peguei o telefone e falei: “Meu, quero falar contigo. O que está acontecendo? Quero mandar um beijo para a Malu e dizer que torço muito por vocês. E queria que a gente esquecesse toda essa bobagem”. Foi uma surpresa para o Belloto. Através desse gesto colocamos as coisas em uma nova perspectiva. Nos reencontramos logo em seguida, pela primeira vez todos juntos, em uma premiação. Foi emocionante. A gente não tem a mesma convivência. Eu encontrava esses caras e falava no telefone todo dia. Mas não dá para falar apenas “são meus amigos”, os caras estão ligados à minha vida pra sempre. É uma categoria especial, que não se compara. Amigos eu tenho, os Titãs são os... Titãs.