Entrevista  
“A publicação da biografia (autorizada) da banda (Titãs) não tinha a minha foto, a do Marcelo (Frommer) e do Arnaldo (Antunes) na capa. Eu fiquei p. da vida!”, diz o cantor, sobre a briga com os Titãs
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Nando Reis
‘‘Nunca tive tanto prazer em tocar,
como agora, lúcido e sóbrio’’

O músico Nando Reis, que lança o sexto CD solo, conta
que só voltou a falar com os Titãs em 2005, três anos após
sua saída e diz que se encanta com homens e mulheres
texto: Claudia Jordão
fotos: murillo constantino

De cinco anos para cá, a vida do músico Nando Reis, 43, sofreu revezes. O colega de banda Marcelo Frommer morreu atropelado e a amiga Cássia Eller não resistiu a um ataque cardíaco – todos em 2001.Viveu ainda duas separações. A primeira foi sua saída dos Titãs, em 2002, banda que ajudou a fundar, e a segunda, da sua mulher Vânia, amor de adolescência e com quem teve Theodoro, 20, Sophia, 17, Sebastião, 11, e Zoé, 6. Nando se viu mergulhado no vício pelo álcool e drogas, companheiros na hora da diversão e do trabalho. Mas mudou. Controlou a dependência, fez as pazes com os Titãs, com a ex-mulher e lança seu sexto disco solo, Sim e Não. Nele, fala de sentimentos recentes, reflexos de uma visão positiva e amorosa em relação à vida. Nesse recomeço, Nando tem uma namorada nova (apresentada apenas como Nani) e a proximidade dos filhos, que gosta de buscar na escola.

Você usava drogas e bebia na hora de compor e subir
ao palco para tocar. Como foi em Sim e Não?

Foi a primeira vez que não bebi nem usei drogas para compor. Não foi fácil. Sempre fui visto como um artista ligado às drogas e ao álcool e não foi à toa. Tive isso como estimulante para o meu processo de criação. Por um tempo, teve seus benefícios. Mas, como toda dependência e vício, passou a ser ruim.

Quando isso aconteceu?
Quando passou a contribuir para a minha falta de concentração. Quando você está muito alterado ou entorpecido não tem memória do passo a passo do processo criativo. Tudo parece mágica. E isso uma hora é horrível. Eu estava deixando de produzir e tive um período muito longo
de angústia. Precipitou-se após a morte do Marcelo (Frommer) e da Cássia (Eller), definiu-se no meu desligamento dos Titãs e no fim de
um casamento de 20 anos. De certa forma, nesses 5 anos turbulentos, mudei muitas coisas. Não posso dizer que seja algo que tenha se concluído porque é um processo constante, mas nunca tive tanto
prazer em tocar como agora que estou extremamente lúcido e sóbrio
no palco. Foi uma descoberta incrível, vinte e três anos depois de
subir ao palco pela primeira vez.

Como compositor, considera-se uma espécie rara?
Brinco que sou uma espécie em extinção. Tenho um pouco de horror de olhar e ver que tanta gente da minha geração morreu tão cedo. E tenho uma forma tradicional de fazer música. Componho com um violão, papel e caneta e um gravador. Gosto de melodia.

No CD, homenageia sua filha caçula.
A Zoé é muito esperta. Um dia ela chegou para mim e falou: “Quando
é que você vai fazer a música ‘O mundo é bão, Zoézinha’?” (ele havia feito uma música para o irmão mais velho dela, ‘O mundo é bão, Sebastião!’). Eu dei uma enrolada mas ela não caiu. Daí fiz essa música (‘Espatódea’). Diferente dos outros filhos, há em nosso caso uma peculiaridade: ela é ruiva. E a música aborda esse nosso laço. ‘Espatódea’ é uma árvore que dá uma flor laranja. Zoé tem um laranja intenso porque é toda branquinha.

Em 1997, você disse que era um cara que nasceu para
casar e ter filhos. O que pensa hoje?

A minha concepção de casamento agora é diferente, após a experiência que tive com a Vânia por 20 anos, filhos e tudo o que construímos juntos. Independente de não sermos mais casados, temos uma relação amorosa e sadia. Que também teve um período de turbulência. A Vânia é um amor eterno. Não só pelo fato de ela ser a mãe dos meus filhos, mas por tudo que vivemos. Como foi também com a Ana (Butler, diretora da MTV), com quem fiquei depois que me separei. Na minha vida agora tem a Nani. Ela tem a vida dela em São Leopoldo (região da Grande Porto Alegre), eu, a minha aqui. O que vai acontecer não interessa a ninguém, mas não sei se sou um homem para casar, principalmente nos moldes que declarei em 1997. Talvez eu tenha características que não funcionem para um casamento ortodoxo.

Por exemplo?
Às vezes sou muito voltado para mim mesmo. Viajo muito para dentro de mim. Eu acho uma graça na vida. Talvez eu seja o cara que mais queira casar sem poder casar. A minha idéia de fidelidade não segue o conceito da maioria e estabelece um vínculo diferente. Tenho relação de sedução com muitas pessoas. Eu me encanto com outras pessoas, homens, mulheres.