Entrevista  
Lauro César Muniz, consagrado com as novelas Escalada,
Roda de Fogo e O Salvador da Pátria, estava sem produzir na Globo havia cinco anos: “Vivia
um congelamento delicado”
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Lauro César Muniz
‘‘Já tentei aliciar três autores da Globo’’
O autor de Cidadão Brasileiro diz que trocou de emissora
para não retroceder, acha a telenovela descartável e se
arrepende de ter dedicado 40 anos ao gênero
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: murillo constantino

Autor consagrado por Escalada (1974) e O Casarão (1976), Lauro César Muniz, 68, não escrevia havia cinco anos para a Globo quando fechou com a Record. Os 14 pontos de média que a novela Cidadão Brasileiro alcança são modestos perto da comoção já causada por personagens como Renato Villar (Tarcísio Meira) ou Sassá Mutema (Lima Duarte), criados por Lauro respectivamente em Roda de Fogo (1986) e O Salvador da Pátria (1989). Para a Record, porém, é mais uma vitória no campo da teledramaturgia. “Nunca quis fazer uma novela óbvia. E a Record me possibilita isso”, diz ele, que é casado há dois anos com a atriz Bárbara Bruno e pai de três filhos de suas uniões anteriores.

Quando decidiu sair da Globo?
Eu tinha uma incompatibilidade com o Mário Lúcio Vaz (diretor artístico da Globo). Todos os projetos que apresentava eram vetados. Vivia um congelamento delicado. Em 2004, numa reunião, ouvi absurdos. Um
dos diretores disse que a intenção era fazer novelas nos moldes mexicanos para exportar mais. Vi que era hora de ir embora. A Globo está disposta a retroceder, e não quero isso para mim. A Marluce
Dias da Silva (ex-diretora geral) ficou surpresa quando saí, me ligou e falamos longamente. Senti que ela não tinha consciência do tempo
que eu estava parado.

Suas novelas sempre foram ousadas, e algumas falharam na audiência. Por isso a Globo não o aproveitou mais?
Nunca quis fazer novela simplificadora, com o bom e o mau, cedendo a clichês. Minhas novelas são arriscadas. Não se faz arte sem correr risco. E tenho a pretensão de fazer arte e telenovela. Sou de um tempo em que a Globo tinha autores corajosos. O Dias Gomes, o Walter George Durst, o Jorge Andrade e o Bráulio Pedroso eram arrojados.

Você citou apenas homens de teatro. Essa crise é reflexo da qualidade dos dramaturgos?
De jeito nenhum. O time da Globo é ótimo. O que me deixa profundamente chateado é ver colegas talentosíssimos se prestando
a essas concessões. Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Manoel
Carlos e Glória Perez são excepcionais e, no entanto, o que eles produzem está muito aquém dos seus potenciais. Já tentei aliciar
três autores da Globo.

Quem?
Não vou dizer. Levei dois para falar com a diretoria da Record. Com outro, tive uma longa conversa. Um deles renovou contrato e fez um péssimo negócio financeiro. Ouvi que o Daniel Filho reassumiria a direção artística. Se o Daniel voltar, a Record vai ter trabalho.

Parece desiludido com a situação atual das telenovelas...
Dediquei 40 anos às novelas e não valeu a pena. Deveria ter feito mais teatro, cinema. Sinto uma sensação de vazio ao ver esse lixo que está no ar. A telenovela é descartável, as pessoas se esquecem do nosso trabalho. A imprensa me chama de noveleiro, e é pejorativo. Eu não sou noveleiro. Sou um dramaturgo.

Essa recuperação está na Record?
Não sei, mas na Record tenho a chance de escrever o que quero. Eles não me restringem em nada. Cidadão Brasileiro tem um herói ambíguo, que oscila entre o sonho profissional e a tentação do dinheiro fácil. Isso seria difícil de abordar até em uma minissérie na Globo. Todas estão didáticas, parecendo um livro escolar.

De que forma sua vida se reflete em sua obra?
Em Cidadão Brasileiro, isso é muito claro. Nasci em Ribeirão Preto porque não havia maternidade em Guará, a cidade onde fui criado e a novela é ambientada. Meu pai trabalhava com algodão e era dono de cinema, o Cine Glória, que está lá na novela. Era a paixão dele. Comprou projetor italiano, colocou cortinas de veludo. Estávamos enriquecendo, mas os negócios desabaram, perdemos tudo em quatro dias. Meu pai vendeu títulos de capitalização para nos sustentar. Talvez por isso eu tenha escolhido uma profissão rentável, a engenharia, que exerci mediocremente por três anos.