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Televisão
Um
show de repórter
Primeira repórter negra da Globo, Glória Maria eleva
audiência do Fantástico e diz que desistiu de entrevistar
Alain Delon, intimidada com sua beleza
Rosângela
Honor
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O GLOBO
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Pausa
na reportagem, no Rio, em 1980
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Há quase 30 anos, uma jovem de apenas 16 anos, que até
então exercia a função de telefonista da Embratel, batia
à porta da Rede Globo. O Brasil vivia sob a ditadura
militar e a moça, batizada de Glória Maria Malta da
Silva, precisou suar muito a camisa para provar que
tinha talento. Além de driblar a censura, enfrentaria
mais um empecilho. Seria a primeira negra a se tornar
repórter na emissora. Glória Maria nunca esmoreceu.
Hoje,
ela é a repórter mais popular da Globo. Há dois anos
no comando do Fantástico, ao lado de Pedro Bial, Glória
saboreia saltos de até seis pontos no Ibope quando suas
reportagens vão ao ar. Deixou de ser somente uma jornalista
e se transformou numa celebridade, uma espécie de repórter
show.
Apaixonada
pela profissão, ela não se contenta com o conforto dos
estúdios. “Apresentar o Fantástico é ótimo, dá glamour,
dá ibope, mas não é só o que eu quero.” A jornalista
tem um contrato com a emissora que lhe permite se ausentar
do programa por dois domingos a cada quatro meses para
fazer grandes reportagens. “É por isso que a minha bunda
não cai e que não tenho rugas”, teoriza. Já conheceu,
por causa do trabalho, mais de 50 países. “Quero ir
agora ao Afeganistão e à Sibéria.” Tem uma vida confortável,
diz que ganha um salário digno, mas abaixo do que poderia
conseguir. “Sou burra para negociar salário, meus valores
não giram em torno de dinheiro.”
Seu
patrimônio inclui um amplo apartamento no Leblon e uma
casa em Búzios, na Região dos Lagos. “Consegui isso
a duras penas”, diz. Certamente teria uma conta bancária
mais gorda se não fosse tão generosa com a família,
de origem humilde. Ela sustenta a mãe, Edna, e ajuda
a única irmã, Lúcia, e o sobrinho Flávio. Mas se permite
alguns luxos. Compra modelos Valentino e Lanvin e só
toma champanhe. “Adoro champanhe. Para mim, é como água”,
diz.
VIRAR
ESCRITORA
Glória
Maria não conhece a palavra rotina. “A hora em que eu
parar de fazer reportagens, morro”, acredita. Não traça
planos para sua carreira, mas diz qual será o sinal
para se aposentar. “Quando não puder mais subir o Himalaia,
vou virar escritora”, promete.
Sua
paixão sempre foi escrever. Costuma dizer que a televisão
é um acidente de percurso. Mas não se arrepende de nada,
tampouco de não ter levantado bandeiras em nome do movimento
negro, embora já tenha sido cobrada por isso. “O meu
movimento negro sou eu. Basta olhar para mim, sempre
brigando, sempre correndo atrás”, diz. “Eu sou, literalmente,
a ovelha negra do jornalismo.” Glória Maria fala com
a autoridade de quem teve de enfrentar o racismo em
diversos momentos de sua carreira.
Responsável
pela cobertura da Presidência da República, ela encarou
corajosamente a hostilidade do então presidente João
Figueiredo, que só se referia a ela como a “neguinha
da Globo”. “Ele me odiava e diversas vezes mandou a
segurança me expulsar de vários lugares”, recorda. Orgulha-se
de ter sido a primeira cidadã brasileira a fazer valer
a lei Afonso Arinos. Barrada na porta da frente de um
hotel em São Conrado, zona sul do Rio, ela deu queixa
na polícia. Em outros momentos, a cor a ajudou, quando
foi designada para a cobertura da posse do presidente
Jimmy Carter. “Sabia que era interessante para ele,
um democrata, ser entrevistado por uma negra.”
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