Reportagens  
Brainpix
Adriano (na foto, na galeria
Vittorio Emanuele, em Milão)
adora comprar carros, relógios
e trocar de aparelho celular. Já deu casa para a mãe e terrenos para as sete tias
• • •
Brainpix
Isto é Adriano
Jogos pela Seleção: 31
Gols pela Seleção: 21
Clubes: Internazionale (ITA), Parma (ITA), Fiorentina (ITA) e Flamengo
Valor do passe: 70 milhões de euros* (multa para rescisão prevista em contrato:
200 milhões de euros)
Salário: 7 milhões de euros
por ano (valores estimados)
• • •
Brainpix
“Adriano praticamente morou na casa do Ronaldo. Ficavam jogando videogame até tarde da noite”, conta Gilmar Rinaldi, empresário de Adriano, citando a importância de Ronaldo, o Fenômeno, na adaptação de Adriano na Itália
• • •
Esporte
De Pipoca a Imperador

Atacante da Seleção, que na favela era conhecido
como Pipoca e na Inter de Milão virou Imperador, Adriano
ganha 7 milhões de euros por ano e se concentra no
vestiário antes dos jogos ouvindo hip-hop com um headphone
texto Jonas Furtado
 Envie esta matéria para um amigo

EFE

Adriano, vem comer pipoca!”, gritava dona Vanda, panela na mão,
na beira do campinho de areia da favela de Vila Cruzeiro, no bairro
da Penha, Rio de Janeiro. Correndo atrás da bola no meio da molecada, o neto dela, Adriano Leite Ribeiro, deixava de lado o apetite pelo futebol para atender ao chamado da avó. Por isso, ganhou o apelido de Pipoca entre a vizinhança. Já entre os familiares, ele era o Didico e treinava na escolinha do Flamengo. Seu pai, Almir, era office-boy. A mãe, Rosilda, trabalhava numa fábrica de roupas. A avó vendia doces e churrasquinho pelas ruas para ajudar o neto a pagar a mensalidade da escolinha de futebol e a passagem do ônibus que o levava para os treinos.

Hoje, aos 24 anos, Adriano mora em Como, na Itália, corre atrás da bola nos melhores gramados do mundo defendendo um grande time europeu, no caso a Inter de Milão, em troca de 7 milhões de euros por ano – seu contrato com o clube vai até 2010. E na beira do campo torcedores gritam o apelido que ganhou pela soberania de seu futebol: Imperador. “Toda vez que faz um gol, Adriano ergue os dedos para o céu, dedicando ao pai”, conta Gilmar Rinaldi, empresário do jogador. O atacante brasileiro perdeu o pai em 2004. Seu Almir convivia com uma bala alojada na cabeça em conseqüência de uma bala perdida na favela desde quando Adriano tinha 10 anos. Tomava remédios para controlar a pressão, as dores e os episódios de convulsões e morreu após um ataque cardíaco.

Adriano ficou abalado, como deveria ser, mas tinha consciência de que era a referência para o restante da família e dele dependiam mãe, um irmão mais novo, avó e tias. Ele assumiu esse papel e até hoje dá conta do bem-estar da família. Na Seleção Brasileira, Adriano, provável companheiro de ataque de Ronaldo na Copa da Alemanha, também mostrou que corresponde quando exigido. Ele conquistou um lugar entre os titulares depois de ser peça fundamental nas conquistas da Copa América, em 2004, e da Copa das Confederações, ano passado. A relação dele com a Seleção principal começou cedo. Aos 18 anos, em novembro de 2000, ele dormia quando a mãe entrou no quarto para acordá-lo e contar que ele havia sido convocado pela primeira vez, para o jogo das eliminatórias da Copa de 2002. Adriano escutou, achou que fosse brincadeira, virou para o lado e voltou a dormir. “Aí, o telefone começou a tocar, tocar, e caiu a ficha dele”, lembra o amigo Flávio Pinto, hoje assessor do jogador.

Adriano já havia jogado também pelas categorias de base da Seleção. Em 1999, disputando o Mundial Sub-17, na Nova Zelândia, ele passeava de teleférico num dia de folga. Olhou para baixo, viu algumas belas casas e sonhou um dia presentear a mãe com uma parecida. “Minha mãe tem hoje a casa dela e isso me deixa muito feliz”, diz o jogador. Ele, porém, não presenteou somente Rosilda – que atualmente mora na Barra da Tijuca. À exceção de um tio, todos os familiares de Adriano deixaram a favela de Vila Cruzeiro patrocinados por ele. “Adriano tem sete tias e cada uma ganhou um terreno dele para construir a própria casa”, conta Flávio, o amigo e assessor.

“Da Vila Cruzeiro, tenho saudade dos amigos, de soltar pipa e dos churrascos”, diz o Imperador da Inter. A saudade já incomodou mais. Em 2001, quando chegou na Itália para jogar, aos 19 anos, ele não tinha amigos, não falava italiano – pipa e churrasco, então, nem pensar! “Eu morava num hotel e uma das primeiras palavras que aprendi foi ‘tosta’, que era um sanduíche tipo misto-quente”, conta o jogador. “Então, todo dia era dia de ‘tosta’. Era como eu matava a minha fome.”

Foi assim até o dia em que Ronaldo, o Fenônemo, que também jogava na Inter, tornou-se uma espécie de anjo da guarda de Adriano. “O Ronaldo levava o Adriano para a casa dele e lá passavam o dia juntos. Ele também saía com o Adriano para jantar e conhecer a cidade. Ronaldo foi muito importante na adaptação do Adriano”, conta o amigo e assessor Flávio.

“Adriano praticamente morou na casa do Ronaldo. Ficavam jogando video-game até tarde da noite. O Adriano me dizia, brincando: ‘Só não posso ganhar dele’”, conta o empresário Gilmar, que diz que o clube inglês Chelsea ofereceu recentemente 70 milhões de euros pelo passe do atacante brasileiro.

A situação financeira do ex-menino pobre de Vila Cruzeiro não é nada má. Segundo Gilmar, o Imperador já teve um Bentley, tido por muitos como o mais elegante carro do mundo. Já Flávio conta que o amigo conseguiu realizar o sonho de ter um Mercedes. É Flávio quem entrega outros desejos do atacante. “Relógio, quando aparece um que ele gosta, costuma arrematar. E gosta de celular. Ele troca de aparelho com muita facilidade.”

Nenhum desses “brinquedinhos”, porém, é tão útil a Adriano quanto o headphone. É com ele que ele costuma se concentrar no vestiário, ouvindo hip-hop, antes dos jogos. Depois disso, o Pipoca já está pronto para ir ao gramado e estourar qualquer defesa adversária.