Celebridade  
Wellington Cerqueira

Hoje, ela vive uma escrava com menos glamour na novela Sinhá Moça, da Globo, e não abandona
a luta por melhores papéis para
os atores negros

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Zezé Motta

por diógenes campanha

Prensa Três
“Minha vida se divide em antes e depois de Xica
da Silva
”, diz Zezé Motta, sobre o filme de
1975 que foi o ponto alto de sua carreira.
Dentre as inúmeras fotos que tirou na época do filme Xica da Silva, em 1975, a imagem acima é uma das que Zezé Motta mais gosta. A cena captura a reação da protagonista ao descobrir, a bordo de uma galera, que o mar que ela tanto sonhava conhecer não passava de uma lagoa, em uma tapeação orquestrada pelo contratador João Fernandes (Walmor Chagas). “É uma característica do ser humano: você sonha, sonha, sonha e descobre que muita coisa nesse mundo é ilusão”, diz Zezé. Decepções, no entanto, não fazem parte das lembranças que a atriz guarda do trabalho mais marcante de sua carreira. Já nas filmagens, ela se surpreendeu com o status de estrela que havia alcançado com o papel de Xica. “Por onde passava, me estendiam tapete vermelho. Nem dizia ‘eu quero’ e as pessoas já me traziam o que eu ia pedir”, relata. “Foi um choque, pois antes eu não passava de uma quilombola, uma atriz coadjuvante.” Hoje, Zezé refere-se ao mercado de trabalho para artistas negros com a autoridade de quem fez muito para melhorá-lo. Presidente e fundadora do Cidan – Centro de Informação e Documentação do Artista Negro, ela diz que muita coisa mudou desde os anos 70, no cinema, na tevê e na publicidade. “Acho que já há uma preocupação dos diretores, dos produtores e dos autores em distribuir melhor os papéis.” Por isso, parece não incomodá-la o fato de estar no ar, atualmente, interpretando a escrava Virgínia, no remake de Sinhá Moça. “Já fui empresária, cantora, médica, enfermeira, universitária... Agora, posso fazer quantas escravas quiserem”, diz.