Do que os
políticos reclamavam?
Não eram
os comentários. A queixa era com a insistência
no noticiário. E eu perguntava: “Qual é
o ponto?”. Mas jamais o governo explicou! Uma vez noticiamos
– todo mundo noticiou – o fato de 14, 15 jovens
terem usado o Palácio, transportados de avião,
amigos de um filho do Lula. Aí, um senador do PT me
procurou e disse que o Lula tinha se ofendido, considerou
invasão da privacidade. Falou: “Ele está
separado do filho dele. A maneira de ter os filhos mais próximo
é convidar os amigos para ficarem junto dele no Palácio
nas férias”. Eu falei: “Perfeito. Só
que não às minhas custas, às do País”.
Houve pressões similares
no governo Fernando Henrique?
Não. Quando errávamos, ligavam o secretário
de Imprensa ou o próprio presidente e nós retificávamos.
Havia um diálogo democrático. Mas nenhuma pressão
ou ameaça de retaliação, do tipo “vamos
prejudicar”.
Com as pressões, imaginava
que pudesse ser demitido?
Quando vi que a Igreja Universal fez um partido político,
achei que as coisas podiam engrossar, mas não imaginava
que ia ser assim. A maneira como foi feita, dia 30 de dezembro,
foi truculenta. Estaria de folga no dia (era uma sexta-feira)
e na segunda viajaria. Foi pensado para evitar divulgação.
Sou chamado às quatro da tarde da sexta, informado
que o contrato está rompido e que a Salete Lemos seria
impedida de apresentar o jornal aquele dia. Durou 10 minutos.
Falei: “Tá bom. Quando o sr. quer que eu pare?”.
E o bispo Honorílton Gonçalves (superintendente
executivo da Record): “Já. Imediatamente”.
Não é soco, eu levei um coice! Fui tratado como
um bandido. Me senti humilhado! Fui tratado com uma violência
imerecida, como um inimigo, uma pessoa suspeita.
Enquanto Lula estiver no governo
é um jornalista desempregado?
Não. Tô desempregado de televisão, mas
tenho convites de jornais,
de rádios, que basta eu dizer sim. Estou órfão
de tevê, mas não imaginei isso.
Por que ainda não foi
contratado?
Emissoras conversaram comigo. Não devo falar quais.
Não se colocou, mas eu iria colocar que não
vou trabalhar num jornal ou programa de entrevista onde eu
seja cerceado. Já passei da idade! Pode ser –
ninguém me disse – que isso possa ser um entrave
em ano de eleição. Mas sou um bom produto publicitário.
Prefiro televisão. Se não der, faço jornal,
rádio-jornal. Espero o tempo que precisar para encontrar
uma proposta que me dê prazer profissional. Do contrário,
prefiro ficar fora. Esse dia chegará, quaisquer que
sejam as circunstâncias. E tanto faz bancada de jornal,
programa de entrevista.
Como é estar desempregado?
Achei que fosse ficar deprimido, mas estou gostando. Pensava
que acabaria o contrato (com a Record), ia fazer
vestibular para veterinária e mudar de vida. Agora
não quero. Pela maneira que fui expulso, expelido.
Sigo confiando no meu taco! Estou surpreendido porque estou
lendo mais, visitando mais as pessoas, indo a cinema, teatro.
Não me deu o que temia: uma terrível depressão.
Mas dizem que vai dar!
O que acha do novo Jornal
da Record?
Não quero fazer análise. A Record tem gente
muito boa, mas um problema: tem de decidir se é uma
emissora de tevê, uma igreja ou um partido político.
Os três são uma mistura explosiva.
Por que não revelou esses
detalhes da sua saída antes?
Deveria me situar, não sabia se devia falar. Não
estava preparado. Deveria dar um tempo para não me
manifestar sob o impacto do soco na cara. Medo? De quê?
O máximo que poderiam era me matar. Mas posso ser morto
por um assaltante que encosta um revólver em mim, como
aconteceu semana passada: Vem cá, se no Brasil você
exercer um jornalismo crítico e tiver medo, tem de
parar!
Verdade que foi goleiro de futebol?
Tive poliomielite, não pude andar até 9 anos.
Voltei a andar com 12 e só podia jogar melhor no gol.
Procurava através de exercícios compensar as
deficiências. Fui goleiro do colégio, de bons
times de várzea. Treinava todos os dias! Fim de semana
participava de quatro jogos. Isso foi até os 20. Fui
ficando mais míope. Tentei jogar de óculos,
mas quebrou no primeiro jogo. Virei juiz.
Por quanto tempo?
Até a última surra! A última foi no Ibirapuera.
Era uma final de congregações marianas (associações
religiosas). Era uma disputa feroz, havia caminhões
de torcida. No jogo, os dois capitães disseram que
eu apanharia no final. Minha roupa estava atrás do
gol. Pensei: “Vou perder calça, sapato”.
E tinha dez minutos a mais e eu não terminava o jogo.
Tinha medo! Aí, houve uma briga. Ao invés de
separar, saí correndo com bola e apito e peguei um
táxi. Jurei que não apitaria mais se escapasse
da surra. 
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