Entrevista  
EFE
‘‘Houve o telefonema do Zé Dirceu (para a Record). A diretoria me pôs a par: ‘Ele disse que vai prejudicar a Record e você pessoalmente se você não parar’’’
• • •
• • •
Boris Casoy
‘‘Fui tratado como bandido’’
continuação

Do que os políticos reclamavam?
Não eram os comentários. A queixa era com a insistência no noticiário. E eu perguntava: “Qual é o ponto?”. Mas jamais o governo explicou! Uma vez noticiamos – todo mundo noticiou – o fato de 14, 15 jovens terem usado o Palácio, transportados de avião, amigos de um filho do Lula. Aí, um senador do PT me procurou e disse que o Lula tinha se ofendido, considerou invasão da privacidade. Falou: “Ele está separado do filho dele. A maneira de ter os filhos mais próximo é convidar os amigos para ficarem junto dele no Palácio nas férias”. Eu falei: “Perfeito. Só que não às minhas custas, às do País”.

Houve pressões similares no governo Fernando Henrique?
Não. Quando errávamos, ligavam o secretário de Imprensa ou o próprio presidente e nós retificávamos. Havia um diálogo democrático. Mas nenhuma pressão ou ameaça de retaliação, do tipo “vamos prejudicar”.

Com as pressões, imaginava que pudesse ser demitido?
Quando vi que a Igreja Universal fez um partido político, achei que as coisas podiam engrossar, mas não imaginava que ia ser assim. A maneira como foi feita, dia 30 de dezembro, foi truculenta. Estaria de folga no dia (era uma sexta-feira) e na segunda viajaria. Foi pensado para evitar divulgação. Sou chamado às quatro da tarde da sexta, informado que o contrato está rompido e que a Salete Lemos seria impedida de apresentar o jornal aquele dia. Durou 10 minutos. Falei: “Tá bom. Quando o sr. quer que eu pare?”. E o bispo Honorílton Gonçalves (superintendente executivo da Record): “Já. Imediatamente”. Não é soco, eu levei um coice! Fui tratado como um bandido. Me senti humilhado! Fui tratado com uma violência imerecida, como um inimigo, uma pessoa suspeita.

Enquanto Lula estiver no governo é um jornalista desempregado?
Não. Tô desempregado de televisão, mas tenho convites de jornais,
de rádios, que basta eu dizer sim. Estou órfão de tevê, mas não imaginei isso.

Por que ainda não foi contratado?
Emissoras conversaram comigo. Não devo falar quais. Não se colocou, mas eu iria colocar que não vou trabalhar num jornal ou programa de entrevista onde eu seja cerceado. Já passei da idade! Pode ser – ninguém me disse – que isso possa ser um entrave em ano de eleição. Mas sou um bom produto publicitário. Prefiro televisão. Se não der, faço jornal, rádio-jornal. Espero o tempo que precisar para encontrar uma proposta que me dê prazer profissional. Do contrário, prefiro ficar fora. Esse dia chegará, quaisquer que sejam as circunstâncias. E tanto faz bancada de jornal, programa de entrevista.

Como é estar desempregado?
Achei que fosse ficar deprimido, mas estou gostando. Pensava que acabaria o contrato (com a Record), ia fazer vestibular para veterinária e mudar de vida. Agora não quero. Pela maneira que fui expulso, expelido. Sigo confiando no meu taco! Estou surpreendido porque estou lendo mais, visitando mais as pessoas, indo a cinema, teatro. Não me deu o que temia: uma terrível depressão. Mas dizem que vai dar!

O que acha do novo Jornal da Record?
Não quero fazer análise. A Record tem gente muito boa, mas um problema: tem de decidir se é uma emissora de tevê, uma igreja ou um partido político. Os três são uma mistura explosiva.

Por que não revelou esses detalhes da sua saída antes?
Deveria me situar, não sabia se devia falar. Não estava preparado. Deveria dar um tempo para não me manifestar sob o impacto do soco na cara. Medo? De quê? O máximo que poderiam era me matar. Mas posso ser morto por um assaltante que encosta um revólver em mim, como aconteceu semana passada: Vem cá, se no Brasil você exercer um jornalismo crítico e tiver medo, tem de parar!

Verdade que foi goleiro de futebol?
Tive poliomielite, não pude andar até 9 anos. Voltei a andar com 12 e só podia jogar melhor no gol. Procurava através de exercícios compensar as deficiências. Fui goleiro do colégio, de bons times de várzea. Treinava todos os dias! Fim de semana participava de quatro jogos. Isso foi até os 20. Fui ficando mais míope. Tentei jogar de óculos, mas quebrou no primeiro jogo. Virei juiz.

Por quanto tempo?
Até a última surra! A última foi no Ibirapuera. Era uma final de congregações marianas (associações religiosas). Era uma disputa feroz, havia caminhões de torcida. No jogo, os dois capitães disseram que eu apanharia no final. Minha roupa estava atrás do gol. Pensei: “Vou perder calça, sapato”. E tinha dez minutos a mais e eu não terminava o jogo. Tinha medo! Aí, houve uma briga. Ao invés de separar, saí correndo com bola e apito e peguei um táxi. Jurei que não apitaria mais se escapasse da surra.