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O enigma Silvio Santos
No ano em que o SBT completa 25 anos, Silvio Santos proíbe os apresentadores de citar seu nome no ar, perde para a Record no horário nobre e torna-se sócio de Gugu para evitar sua ida para a emissora de Edir Macedo
 
Darcio de Jesus
Você que é íntima do Joaquim, está sempre com ele, pede para ele olhar com mais carinho para os humorísticos – pediu Moacyr Franco, de microfone em punho, a Hebe Carmargo.

– O Joaquim é um homem de visão. Quando ele descobre um talento, vai lá e contrata – devolveu Hebe, que fazia as honras como mestre
de cerimônia.

– Dia desses, encontrei o Joaquim no corredor e ele me disse (imitando a voz de Silvio Santos): “Celso, você vai trabalhar bastante em 2006” – emendou Celso Portiolli.

Foi num festivo café da manhã no hotel Unique, em São Paulo, em 25 de novembro de 2005, que Joaquim nasceu. O “pai” é o humorista Moacyr Franco, que adotou o nome ao se referir a Silvio Santos (ele não estava presente). Moacyr inspirou-se num funcionário do SBT, conhecido pelos anos de casa, para criar o apelido. A brincadeira arrancou gargalhadas de artistas, jornalistas e executivos da segunda maior emissora do País naquele evento que marcava o início das comemorações pelos 25 anos do SBT.

Tudo porque, dias antes do café da manhã, Silvio Santos deixou todos embasbacados. Por meio da cúpula do SBT, enviou um comunicado aos diretores de cada programa proibindo os apresentadores de citar seu nome no ar. O veto, inédito em 25 anos, virou piada entre os “colegas de trabalho”. Mas provocou um mal estar no dono da emissora, que três semanas depois advertiu Moacyr com “um bilhetinho bem humorado”, como definiu o artista .

Darcio de Jesus
Galisteu voltou a apresentar o Charme diariamente à tarde, o quarto horário desde que estreou em outubro de 2004. Está registrando 6 pontos de média, quatro a menos do que atingia quando ia ao ar nas quartas-feiras à noite.
Aos 70 anos, prestes a assoprar as velinhas dos 25 anos do SBT, em agosto, Silvio não aparenta estar animado para a festa. A pergunta recorrente nos corredores da emissora e em alguns camarins é: o que está acontecendo com Silvio? A mudança de postura na relação com os artistas e o comunicado que proíbe falar seu nome no ar têm uma razão: o empresário sente-se incomodado com a intimidade com que alguns artistas falam dele no ar. Às vezes, acha que beira o desrespeito. Também não está satisfeito com a área comercial, que está sem diretor desde dezembro. Em 2005, o SBT faturou R$ 720 milhões (crescimento de 20%), mas carregou prejuízos de R$ 54,2 milhões em 2003 e R$ 9 milhões, em 2004.

Alguns de seus investimentos e apostas, como a contratação de Adriane Galisteu, parecem tê-lo frustrado. Ele já mudou quatro vezes o horário do Charme, desde outubro de 2004. A atração, hoje, vai ao ar de segunda a sexta-feira às 17h e atinge média de seis pontos de audiência – na época em que Galisteu o apresentava à noite, às quartas, alcançava 10. Depois de uma conversa considerada desgastante em meados de julho, Silvio parou de falar com a apresentadora em setembro.

Nem mesmo Nilton Travesso, profissional com 53 anos de carreira e passagens por Record, Globo e a extinta Manchete, que dirigia Galisteu, passou incólume pelos mandos e desmandos de Silvio. O dono do SBT colocou Carlos Amorim (ex-diretor do programa de Ratinho) no comando do Charme. “Silvio propôs ao Nilton que dirigisse o programa nas segundas, terças e quartas. E o Carlos, às quintas e sextas. Ele, claro, não topou e pediu para ir embora”, conta um produtor do SBT. Procurada, Galisteu preferiu não se manifestar.

Até mesmo antigos medalhões, como Gugu e Hebe, perderam a condição de intocáveis. Hebe, depois de 20 anos entrando no ar nas noites de segunda-feira, foi transferida para os sábados, às 22h30. Dois meses depois, uma nova mudança, para às 21h30 do mesmo dia, na hora da novela Belíssima. Hebe amarga o horário, já ocupado por Galisteu, apelidado de “boi de piranha”. Registra 3 pontos de média – a metade do que atingiu antes da última alteração. “O Silvio está meio perdido”, diz Marcello Camargo, filho de Hebe, que não se pronunciou. “Pôs minha mãe no sábado num horário e depois muda sem avisar! Ela ficou muito triste, chorou nessas duas mudanças. Minha mãe adora o SBT, quer ser feliz lá. Mas, nesse momento,
não está.”

Gugu perdeu prestígio e nunca mais conseguiu uma seqüência de vitórias sobre o concorrente Domingão do Faustão desde o caso PCC (em setembro de 2003, o programa Domingo Legal apresentou uma entrevista com falsos membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital e o caso foi parar na Justiça). Com ele, Silvio Santos foi duro na renovação do contrato, que venceria no fim do mês. Exigiu participação nos merchandisings – 80% iam para Gugu –, redução de 50% dos gastos da produção do Domingo Legal e diminuição do programa em duas hora e meia.

Chateado com o patrão, especialmente por conta dos merchandisings – graças a eles o apresentador ganhava entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões por mês –, Gugu por pouco não migrou para a Record. Dias antes de o apresentador renovar com o SBT, na sexta-feira 17, um executivo da emissora de Edir Macedo contou que Gugu estava aborrecido pela maneira como Silvio o estava tratando. “Fizemos uma proposta e Gugu fez uma contra-proposta. Em cima dela, fizemos outra”, disse o executivo.

Para ficar por mais 4 anos no SBT, Gugu aceitou dividir os ganhos com os merchandisings e os custos do programa (salário da equipe e verba de produção) com Silvio Santos, que deixou de ser seu patrão e virou sócio do apresentador no Domingo Legal. O programa continuará com quatro horas e meia de exibição. Por outro lado, Gugu passa a receber metade do que o SBT fatura nos intervalos de seu programa. “Apesar do bom relacionamento que Gugu tem com a Record,
uma empresa séria, pesou a história que ele tem com Silvio Santos
e que jamais terá com ninguém profissionalmente”, diz uma amiga
do apresentador.

A Record pode não ter acertado com Gugu, mas é uma pedra no sapato de Silvio. É a emissora do bispo Macedo quem, hoje, incomoda a líder Globo – e não mais o SBT. “A vez é da Record e o Silvio sabe disso”, diz Carlos Alberto de Nóbrega, apresentador da
A Praça é Nossa,
que teve seis mudanças de horário desde 2002 e, hoje, vai ao ar aos sábados às 23h. No horário nobre (das 18h à 0h), onde estão concentrados 75% do faturamento das emissoras com publicidade, o SBT já perde para a Record. Nesse intervalo, a Record registra 9,3 pontos de média de audiência, com crescimento de 24% em relação ao ano passado. O SBT tem 8,6 de média, 11% a menos do que em 2005. “O que está acontecendo com o Silvio é simples. De repente chega uma emissora, cujo dinheiro cai do céu, e quer tirar o segundo lugar dele. O Silvio vem fazendo tentativas e, ao tentar, corre o risco de errar”, opina Jorge Kajuru, que em abril apresentará no SBT o esportivo Jogo Duro, aos domingos.

Parceiro de longa data de Silvio Santos, Carlos Alberto de Nóbrega considera bom seu novo horário no sábado, mas não ideal. Ele não esconde a insatisfação frente às mudanças. Principalmente a de dezembro de 2005, que o fez trocar as noites de sábado pelas tardes de domingo. “Não gostei, reclamei, não adiantou. Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, diz. Um diretor tentou confortá-lo. Disse que Nóbrega tinha que se ver como jogador cumprindo ordem do técnico. “Se sou lateral-esquerdo e sou posto na direita, a culpa não é minha. O problema é do técnico”, resume o apresentador. “Ninguém tem entendido essas mudanças. Elas deixam a equipe apreensiva.”

Ratinho e sua equipe sentiram isso, quando Silvio Santos resolveu dirigi-los, em 2005. “Era uma tensão no estúdio. Ratinho e equipe tremiam”, conta um funcionário do SBT. Mudou de horário quatro vezes em 2005. Ficou chateado, mas já faz duas semanas que voltou a ir ao ar diariamente – menos às quartas –, às 21h30. Mas a pedido de Silvio não conta mais com o quadro teste de DNA, que alavancava a audiência. As alterações espantaram parte de seu público. Na primeira semana de reestréia no antigo horário, Ratinho atingiu 5,8 de média, perdendo para a Record, que reprisava A Escrava Isaura e cravou 6,8.

Em lua-de-mel com Silvio, o jornalismo do SBT não sofre com a inconstância dele. Depois de Ana Paula Padrão (SBT Brasil), contratou Carlos Nascimento, que estreou no Jornal do SBT (edição da noite). Ainda este semestre devem ir ao ar outro telejornal e o novo SBT Repórter, com César Filho. “Silvio me disse que a cada 6 meses traria um nome de peso do jornalismo”, diz Luiz Gonzaga Mineiro, diretor de jornalismo.

Em abril, o SBT lança nova programação. Quatro atrações estão prontas (os reality shows Super Nanny – produção nacional da série inglesa – e Ídolos, o programa de música Re Majestade e o esportivo Jogo Duro), além da novela Cristal, prevista para maio. Resta saber se o baú de pacotes do Joaquim trará felicidade ou mais insatisfação.

Colaborou Diogenes Campanha