No hall de entrada do apartamento onde mora em Ipanema,
no Rio, Maria Estela Kubitschek tem presa na parede
uma das heranças mais queridas do pai: um quadro
do artista equatoriano Oswaldo Guayasamín, pintado
na época em que Juscelino, pai adotivo dela,
era presidente da República. “Ele não
gostava. Dizia que não franzia a testa com o
olhar”, diverte-se ela em frente à imagem.
É apenas uma das inúmeras recordações
que povoam a casa. Telespectadora assídua de
minissérie JK, da Globo, aproveitou
a ocasião da minissérie para contar no
livro Simples e Princesa sua história
de adoção. Foi a maneira que encontrou
de agradecer publicamente toda a gratidão sentida
pelo fato de os pais biológicos, Judith e Osvaldo,
terem aberto mão da filha em prol de uma vida
melhor na casa dos Kubitschek. Aos 63 anos de idade,
arquiteta de formação, é mãe
de Jussarah, 42, João César, 41, Marta
Maria, 37, e avó das gêmeas Mariana e Gabriela,
de 8 anos. Maria Estela está casada há
quatro décadas com Rodrigo Lopes, filho de Lucas
Lopes, ministro da Fazenda de Juscelino.
Por que JK se tornou tão
popular a ponto de virar
uma minissérie?
Ele tinha uma personalidade fantástica. Não
chegou aonde chegou por acaso. Traçou metas e
batalhou para alcançá-las. Nunca improvisou.
Sua vida sempre foi muito pensada. Se hoje há
essa disposição de fazer uma minissérie
sobre ele, eu diria que é porque as pessoas estão
precisando do espírito de um líder que
as motive, que faça com que se sintam cidadãs.
Como JK reagiria no lugar
do presidente Lula em relação aos escândalos
de corrupção?
Em uma ocasião um ministro da Saúde de
papai esteve envolvido em uma suspeita de corrupção.
Papai demitiu-o na hora, apesar de ser seu amigo. Papai
não admitia corrupção em seu governo.
Sou de uma época em que honestidade era obrigação.
Fui educada ouvindo isso. Quando você começa
a achar que honestidade é qualidade, alguma coisa
vai muito mal.
A minissérie pode
influenciar em ano de eleições?
Se influenciar, será no bom sentido. Já
está influenciando. Há interesse dos políticos
em se espelharem em JK. O povo deseja encontrar alguém
por quem tenha o respeito que tinha por JK.
Quem a senhora prefere
na presidência: Lula ou o
Geraldo Alckmin?
Eu sou Alckmin. Sou filiada ao PSDB.
Não preciso nem pensar para te responder. Alckmin
é uma pessoa sensível e tem aquela que
foi uma das maiores qualidade de papai: a formação
médica. Foi essa formação que qualificou
JK e permitiu a ele olhar o ser humano sob um prisma
diferente. O Alckmin tem muita chance de ganhar. É
uma pessoa séria, um político estruturado.
Uma vez, ele me confidenciou que, quando se decidiu
pela política, estudou muito sobre papai. Ele
disse: “Posso dizer que entrei para a política
por conta do seu pai”. Estou pronta para a campanha
de Alckmin.
Como vê a postura
de Lula se comparar a JK?
Quando Lula diz que tem a paciência de JK, só
esquece de um detalhe: JK não era paciente. Era
absolutamente impaciente em resolver o problema do Brasil.
Trabalhava, executava. Era chefe de Estado em todos
os sentidos. Era líder.
Quais as principais semelhanças
e diferenças entre os dois?
Papai é incomparável.
Todos os presidentes eleitos têm uma representatividade
– e exatamente por isso têm que agir mantendo
o respeito de quem acreditou neles. Não estou
dizendo que JK seja um mito, um Deus. Não. Ele
era um ser humano normal.
Onde aparecia essa normalidade?
Ele sentava no chão, tirava o sapato, adorava
comer pão de queijo, ouvia serenata, era boêmio...
Adorava assistir a novelas. A última novela a
que assistiu foi Anjo Mau, com José
Wilker. Ninguém podia abrir a boca nesta hora.
Trinta anos depois, o Wilker interpreta sua vida.
JK foi tido como um homem
que gostava de mulheres. Na minissérie, tentou-se
unificá-las na presença de uma única
personagem, a de Letícia Sabatella. Por que evitaram
que esse lado Don Juan fosse mostrado?
Não sei, não tenho a menor idéia. Papai
era um homem de muito charme e deve ter inspirado paixões
fantásticas. Se eu não fosse filha dele, também
teria me apaixonado. Por que a Maria Adelaide Amaral (autora
da minissérie junto com Alcides Nogueira) está
fazendo a minissérie desta forma? Isso é com
ela e não com a família.
A senhora conversou com Letícia
Sabatella?
No dia do lançamento da minissérie,
em Brasília, ela estava nervosíssima em função
da personagem. Sentamos juntas na hora do jantar, e eu disse
a ela: “Relaxa, você é linda, uma atriz
fantástica. Faça apenas o seu papel”.
Ela ficou tão feliz por eu ter dito aquilo... Acho
que a ajudei. Ela estava achando seu papel antipático
dentro do contexto da história – e não
é verdade. Está fazendo um trabalho muito
bem feito.
Deu dicas à atriz Samara
Felippo, que a interpreta na minissérie?
Samara é muito profissional, tem vontade de aprender.
Veio aqui em casa, viu todos os álbuns de fotografias.
Outro dia, ligou para saber como eu e o Rodrigo namorávamos.
Falei: ‘Traga o Sidney (o ator Sidney Sampaio,
namorado da atriz) que a gente fica namorando juntos
no sofá. Você vai aprender’ (risos).
Guarda ressentimento por seus
pais biológicos terem dado você em adoção?
Minha idéia ao escrever o livro foi dar um exemplo
de um caso de adoção bem resolvido. Foi tudo
muito aberto, o que propiciou um clima de amizade e respeito
entre todos. A atitude de meus pais biológicos foi
uma prova de amor maravilhosa. Me deram a oportunidade de
ter uma vida melhor.
É diferente o amor
que sente em relação aos seus pais biológicos
e adotivos?
A diferença está na convivência, que
é algo muito importante. O que posso dizer é
que, depois de ter sido adotada, nunca mais me vi vivendo
longe de papai JK, mamãe Sarah e Márcia (filha
do casal).
Como JK era como pai?
Era muito amigo e cúmplice dos
filhos. Passou para a gente um dos maiores ensinamentos
– e que passamos para nossos filhos e netos. Dizia:
“Se um dia vocês estiverem erradas e cometerem
qualquer ato que eu não concorde, eu posso não
aceitar, mas estarei sempre ao lado de vocês”.
Era uma prova de amor e confiança muito grande, que
acabou despertando na gente a vontade de não errar,
de não decepcionar a confiança dele. Outra
máxima dele era: “A verdade, por mais que doa,
sempre doerá menos do que você descobrir que
não tem a confiança do seu filho, ou o filho
do seu pai”. Passava isso para a gente o tempo todo.
Nunca foi um pai rabugento?
Era severo. Não deixava a gente
sair sozinha. Se tínhamos uma festa, ele ficava de
plantão com a mamãe, esperando a gente voltar.
Papai tinha muita confiança na mamãe para
nos educar. Nenhum passava por cima da decisão do
outro, o que demonstrava um respeito muito grande e mútuo
entre os dois.
Teve tratamento diferente
por ser adotiva?
Nunca. Vem daí a importância do amor que eu
tive. Nunca fui insegura por ser adotiva ou achei que talvez
precisasse acertar mais do que a Márcia por causa
disso. Papai e mamãe sempre me passaram a noção
de que eles precisavam de mim mais do que eu deles. Isso
foi vital na minha vida.
A família quis censurar
uma cena do filme do cineasta
Zelito Viana, em que JK dança com uma mulher casada
no Palácio Laranjeiras?
Não. Zelito fez um filme com uma conotação
direcionada para algo pequeno dentro do contexto da vida
de uma pessoa tão grande. Em momento algum ele consultou
a gente – e declarou que não sabia porque eu
estava tão aborrecida, já que ele gostava
tanto de papai. Não quero que as pessoas gostem de
papai, mas que mostrem todos os lados dele. Zelito poderia
ter feito um filme lindo, e nós poderíamos
ter dado subsídios a ele. Seu filme não beneficia
ninguém, não cria uma imagem boa para ninguém.
Sobretudo para ele como diretor. 
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