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Livro
A literatura da filha do toureiro
Como uma das estrelas da 19ª Bienal Internacional do Livro, encerrada no domingo 19, Rosa Monterolançou o romance História do Rei Transparente, que lidera as listas de mais vendidos na Espanha desde setembro
 
Fotos: Divulgação

A espanhola Rosa Montero:
uma das atrações da Bienal
de São Paulo

Quem vê Rosa Montero no saguão de um hotel paulistano pode pensar que se trata de uma personagem de Pedro Almodóvar. O cabelo avermelhado, o figurino colorido e a salamandra tatuada no antebraço direito são apenas detalhes diante da velocidade com que essa madrilenha de 55 anos dispara as palavras. Como uma das estrelas da 19ª Bienal Internacional do Livro, encerrada no domingo 19, Rosa lançou o romance História do Rei Transparente, que lidera as listas de mais vendidos na Espanha desde setembro, e ficou surpresa com a popularidade no Brasil de sua obra, que inclui A Louca da Casa e Paixões – Amores e Desamores que Mudaram a História. “Eu escrevo livros que gostaria de ler e, como trata-se de um exercício solitário, preciso de um retorno dos leitores para ver o sentido do que faço. Não adianta vender ou ganhar prêmio, quero ouvir como mexo com as pessoas”, diz a escritora.

Foi numa infância solitária que Rosa descobriu as letras. Dos 5 aos 9 anos, ficou na cama, acometida por uma tuberculose. “Escrever passou a ser meu jogo. Só senti que isso tinha um peso diferente para mim quando voltei a conviver com outras crianças e vi que elas não faziam isso”, recorda ela.

Filha de um toureiro e uma dona de casa, Rosa cresceu vendo os pais contarem os tostões e tinha a imaginação como o melhor dos brinquedos. “Lembro-me ainda agora de meu pai voltando das touradas com a camisa branca suja de sangue e minha cabeça inventando histórias para entender aquilo”, conta a autora. Certa de que queria ser escritora, Rosa apostou no pragmatismo. “Literatura é rito de liberdade. Pagar casa e comida é outra coisa. Faço isso até hoje como jornalista”, afirma ela, que foi editora-chefe da revista dominical do El Pais e é colaboradora e cronista do jornal.

As redações não são mais o habitat de Rosa. “Vivi uma rotina estressante por 30 anos. Hoje, só piso no jornal para fazer um brinde de final de ano com os colegas”, conta ela. É de sua espaçosa casa em Madri, onde mora sozinha, que Rosa cria personagens, com os dois cachorros de estimação a sua volta. “Nunca pensei em ter filhos, porque nunca quis cuidar de crianças. Sou uma operária da literatura e não posso parar de sonhar nunca.”

O Livro - História do Rei Transparente

Fotos: DivulgaçãoRosa Montero sempre teve fascínio pela Idade Média e lia apaixonadamente tudo sobre o assunto. Isso explica a brilhante reconstrução de época de História do Rei Transparente (Ediouro, 400 págs., R$ 44,90), épico medieval ambientado no século 12. Leola é uma camponesa que se perde da família. Para sobreviver, rouba uma armadura e se faz passar por homem, sendo ajudada por Nyneve, jovem aprendiz de bruxa.

Montero esbanja talento ao criar personagens envolventes em meio a um cuidadoso painel do cotidiano da Europa antiga, onde os cruzados massacravam povoados de infiéis, e hordas de errantes vagavam pela Europa na busca da sobrevivência. Como pano de fundo, o crescimento do poder da Igreja e o domínio da Inquisição, dando início a mais um período de trevas.

O livro tem elementos de Os Cavaleiros da Távola Redonda, mas o cavaleiro errante à procura de aventura, acompanhado por uma escudeira bruxa (alusão ao Mago Merlin), tem algo do clima do Quixote, sem o impiedoso humor de Cervantes. Nas entrelinhas, a autora discute a posição da mulher numa sociedade conservadora, que só lhe permite liberdade e ascensão social quando travestida em armadura e sua simbologia de poder. O cavaleiro era ela (Marcelo Lyra)