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‘‘É hipócrita essa coisa de o padre falar 'e você jura fidelidade até que a morte os separe'. É um mentindo para o outro!’’
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“Fiquei um ano de luto”
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: CLAUDIO GATTI
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 Luana se transforma em menino
 Leia resenha de O Pequeno Príncipe

Luana se define como uma criança crescida – mas pensa como gente grande. A seguir, ela fala sobre o aborto que a pôs de luto e de fidelidade, casamento, maconha e vaidade.

Onde identifica meninice em seu comportamento?
Gosto de ficar descalça, de brincar com a mão: desenhar, recortar, pintar camiseta. Quando vou calçar sapato, até hoje eu sento (no chão). Há músicas de roda na minha cabeça e fico cantarolando: “Terezinha de Jesus foi à terra, foi ao chão...” Fui criada no interior, em Jaboticabal (SP), e brincava de carrinho de rolimã, fazia balanço em galho de árvore, roubava fruta das vizinhas, fazia e empinava pipa, pulava rampa de bicicleta. Por isso consigo me comunicar bem com criança. É um dom. As opções que fiz na vida são aquelas que me deixam próxima da infância.

A peça mostra várias virtudes do príncipe. Quais são as suas?
Sou otimista, muito batalhadora. Sabe corajosa? Não tenho medo de trabalhar, de ficar cansada, de arriscar. Vou com tudo. Nesse processo do Pequeno Príncipe uso muito uma frase de amigos: “Tá com medo, porque veio?”. Sempre faço do limão uma limonada e isso graças à terapia. A vida não é um mar de rosas, mas problema para mim é ter alguém com câncer na família, uma dívida impagável. Uma hora e meia de trânsito, não conseguir decorar... há problemas imaginários e problemas reais. A terapia me ajudou a dar a
dimensão certa.

Por que procurou terapia?
Porque, antes de ser atriz, tive vontade de ser psicóloga, de entender o ser humano. Quando cheguei no Rio com 19 anos, pensei: “Saí da casa da minha mãe, vou morar sozinha, estou optando pela carreira
de atriz, que traz o sucesso e o fracasso o tempo todo, mas sonho com a carreira de psicóloga”. Juntaram essas três coisas e decidi fazer terapia.

Como se sente ao chegar num lugar e 90% das pessoas olharem para você?
Como sou poliana, otimista, hoje nem noto. Outro dia fui à praia... eu não vendo calcinha, vendo arte. Então, a bunda que tenho me basta para o que preciso, que é sentar. E tem paparazzi na praia, é chato. Posso estar sentada, mexendo no dedo, passando protetor na bunda. Aí o cara me pega numa posição infeliz e tô na merda. Eu reajo: mando todos à merda! Dou dedo, xingo mermo!

Teve algum conflito na transição da infância para
a adolescência?
Sofri demais porque usava bota ortopédica quando lançaram a Melissinha. Eu tinha o pé chato e o joelho em X. Tinha de usar bota para fazer a curvatura do pé e abrir a perna. Mas nunca fui o patinho feio da família. Minhas irmãs são lindas também, mas eu sempre fui paquerada. Minha mãe me criou como uma criança linda. Eu sempre tive certeza de que era linda. Engraçado, vejo essas modelos falando: “Ai, porque me chamavam de magrela. Ai, me chamavam de saracura (por conta da perna fina)”. Você vende o próprio peixe! Eu nunca me achei saracura e nunca me chamaram de magricela.

Nunca sofreu gozação por causa do tamanho de peito,
do bumbum?

Não. Claro que eu adoraria ter a bunda, sei lá, da (triatleta) Fernanda Keller. A bunda dela deve ser linda, puro músculo, nada de gordura. Mas não tenho porque não quero, sou atriz e não atleta. Prefiro livro, amigo, chope, cinema, teatro, à academia. Vou porque preciso ter alongamento, quero ser saudável, ter 80 anos e ir a bailes de
Carnaval ainda.

Como se sente perto dos 30 anos?
Feliz com minha vida profissional, pessoal, com meu corpo. Tinha os caninos infantis, fininhos, mas fiz uma plástica dentária, completei o dente com massa. Resolvi isso e tô bem. Quando era criança, achava que iria ter filho com 22 anos. Nunca pensei nos 30 (anos). Mas estou muito feliz e pode me chamar de balzaquiana!

Fidelidade é essencial para manter um relacionamento?
É meio hipócrita essa coisa de o padre falar “e você jura fidelidade até que a morte os separe”. Gente, é um mentindo para o outro! Todo mundo sabe que desejo é algo incondicional. Você pode ser apaixonado, cruzar com outra pessoa na rua e falar: “Hããã, c.”. Acontece comigo e com todos. A gente pode frear esse impulso, ofuscar o desejo, reagir de várias maneiras. Mas que o desejo existe, é fato! Cabe a cada um saber em qual relacionamento está, quais suas prioridades, se leva em consideração não fazer algo que não quer que o outro faça. Cada relacionamento tem um código e você cria o “sim” e “não” no início.

Como reage se o seu parceiro olha para outra mulher?
Fazer cobrança do tipo “está olhando o quê?” não existe. Você pode estar chamando a atenção para algo que, talvez para ele, tenha sido só um lance. E também é falta de segurança em você. Passou uma coisa bonita? Ué, olha! Também olho, também checo, vejo. E isso não acontece só com pessoa bonita, mas com flor, quadro, casa. A beleza é boa aos olhos. Não é infidelidade, é natural. Já vivi situações em que outras pessoas flertavam com meu parceiro e não tomei atitude. O mais importante é no que acredito que ele sente por mim. Ciúme é a receita do fracasso. Se eu tiver com alguém que faça ciúme para mim, falo: “Querido, a gente está em sintonias erradas”.

Tem gente que experimenta maconha só por curiosidade. Você é contra?
É proibido proibir. Posso mostrar exemplos, mas não posso dizer “não pode fazer”. O legal é que, se você vive numa casa onde há diálogo, isso vai ser trazido para dentro. “Quer fumar maconha, meu filho? Vem falar comigo, fuma aqui em casa, porque não quero que fume na rua e desmaie. Tô aqui para te ajudar, sou teu amigo. Tá com vontade do quê? Quer fumar um cigarro? Toma um cigarro aqui, fuma, vê se gosta, se acha bom”. Vou trabalhar para que meus filhos sejam meus amigos e exista um diálogo grande.

O que pensa sobre aborto?
Não acho que o aborto possa ser uma forma de anticoncepcional. Mas se há má formação, se a mãe corre risco de vida, se foi estuprada, se não tem a menor condição de criar a criança, é um direito da mulher. Ela deveria ter tido uma educação sexual antes de engravidar, ter do governo o direito à camisinha, à pílula. Agora, o governo não faz p. nenhuma pela mulher, daí ela fica grávida e neguinho quer que ela tenha filho? É muito fácil!

Como encarou o aborto natural que sofreu?
Não tem quem seja forte para encarar isso. Fiquei um ano de luto. Perdi meu bebê uma semana antes do meu aniversário, em agosto de 2004. Estava de dois meses, foi uma gravidez planejada. É uma dor que tenho dentro de mim. Está na estante dos meus sentimentos. Tem um lugar com um luto. Se eu sentar na terapia e falar, essa dor voltará, porque convive comigo.

Como se imaginava como mãe?
Imaginava criar meu filho na coxia. Falei para a produtora: “Vou ter filho e depois de quatro meses a gente começa a ensaiar O Pequeno Príncipe”. Sorte a dele (risos), que é muito bom! Eu seria a melhor mãe do mundo, a mais divertida, a mais companheira, ao mesmo tempo muito exigente. Mas, por exemplo, eu não cozinho. Ia ser complicado (risos).

Você é apaixonada por seu namorado?
Sou. Posso dizer três, quatro qualidades dele maravilhosas e que posso achá-las em outra pessoa pela qual não sou apaixonada.
O amor não tem explicação, é mais que uma coisa matemática. Quando um olhou no olho do outro, os violinos tocaram, sabe?
O Rico é divertido – bom humor é importante pra mim –, admiro o fato de ele ser esportista, acho chiquérrimo, o máximo. Ele tem o coração bom, é generoso. Já namorei pessoas egoístas e me dava asco
ver uma pessoa que se importava pouco com o próximo. Pessoas
que ganhavam dinheiro e não faziam uma doação, que discutiam
por dinheiro.

Casaria na igreja?
Sonho em casar na igreja, porque amo igreja. Quando eu tô morando fora, estou triste, me sinto sozinha, procuro uma igreja, sento, fico rezando e, às vezes, não fazendo nada, só quieta, pensando. Tenho respeito pela casa de Deus. Acredito nesse ritual de um representante da palavra de Deus lhe dar uma bênção. Eu sou religiosa. Sou evangélica e fui criada na adventista do sétimo dia. Eu rezo, agradeço e, quando faço coisas que julgo erradas, peço perdão.

Tem manias?
De gloss, de band-aid. Só uso de bichinho que combine com a minha roupa. Tenho mania de palavrão. Queria falar um pouco menos... trabalho com criança, né?