Reportagens  
“Cláudia é bonita, boa cantora e tem ótimo potencial artístico’, diz Ivete Sangalo
“Minha avó diz que a mulher se desvaloriza beijando qualquer um. Acredito nisso até hoje’’, afirma Cláudia Leitte
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Carnaval 2006
Axé beleza

À frente do grupo Babado Novo, sensação do momento na Bahia, Cláudia Leitte começou a carreira dando uma canja em cima do trio elétrico após entrevistar Ivete Sangalo e hoje é a nova musa do axé music
texto: Clarissa Monteagudo
fotos: Leandro Pimentel
Tratamento Gráfico: GUSTAVO GRANDJEAN
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 Ensaio: Cláudia Leite, a sensação da Bahia
A caminho da Enseada de Botafogo, no Rio, Cláudia Leitte se impressiona com a multidão. Cerca de 170 mil pessoas aguardam a presença da vocalista do Babado Novo no palco montado no Aterro do Flamengo. Antes de entrar em cena, ela convoca para uma oração os 23 integrantes do grupo baiano. Juntos, de mãos dadas e em voz alta, eles rezam o Pai-Nosso e pedem perdão pelos pecados. A prática é recorrente em todos os shows. No Rio, o público, indócil, clama pela presença de Cláudia, que aparece de minissaia branca e leva a multidão ao êxtase. A cena não poderia representar melhor a consagração da nova musa da música baiana além das fronteiras de seu território de origem.

O Babado Novo é o fenômeno do momento no mundo do axé. Lançado em dezembro de 2005, Diário de Claudinha, o quarto álbum do grupo, vendeu 70 mil cópias em apenas um mês, conquistando o Disco de Ouro. No ano anterior, UAU Babado Novo ao Vivo em Salvador já havia atingido a marca dos 100 mil CDs vendidos (Disco de Platina) e 70 mil DVDs (DVD de Platina). A ascensão de Cláudia Leitte e do Babado Novo começou em 2003, quando o álbum Sem Vergonha alcançou a vendagem de 90 mil e concedeu ao grupo seu primeiro Disco de Ouro. “Cláudia sempre foi uma aposta certa da Universal Music”, diz Max Pierre, vice-presidente artístico da gravadora. “Ela está no início de uma escalada absolutamente vitoriosa. Passa doçura e carisma, como Ivete Sangalo.”

Dona de um timbre de voz parecido com o de Ivete Sangalo, ela não nega a referência, mas deixa claras as diferenças: "Não sou clone de ninguém. Não fui concebida em laboratório"
Ivete concorda: “Cláudia é bonita, boa cantora e tem ótimo potencial artístico”, observa, vislumbrando um longo reinado para a novata. “Acho o máximo ser uma referência e não sei qual é a fórmula para alçar o posto de musa, mas ela está no caminho certo.” Outra autoridade no Olimpo das estrelas da música baiana, Daniela Mercury mostra entusiasmo ainda maior diante do sucesso de Cláudia. Convidou a cantora para dividir com ela seu trio elétrico no sábado de Carnaval em Salvador e, juntas, homenagearão o cinema nacional. Cláudia virá de Gabriela e Daniela, de Dona Flor, em referência às personagens do escritor Jorge Amado. “Dentro desse gênero, é preciso saber mobilizar e emocionar multidões, e Claudinha faz tudo isso com muito talento e competência”, afirma Daniela.

A cantora cultiva uma imagem que trafega entre a sensualidade inerente ao axé e a moça recatada. O guarda-roupa exclusivo dos shows confere a Cláudia ares de apresentadora infantil. Ela repele cores berrantes, como o vermelho, só sobe ao palco com short debaixo das microssaias e evita modelos transparentes. “Sensualidade não está no ato de tirar a roupa e se despudorar”, diz. “Não faço gestos que coloquem a mulher como objeto vulgar.” Leitora assídua da Bíblia, já se acostumou a ouvir que “é muito certinha”. Dá de ombros. “Minha avó diz que a mulher se desvaloriza beijando qualquer um. Acredito nisso até hoje”, enfatiza a cantora de 25 anos, que sonha em ser mãe de três crianças.

Filha do representante comercial Cláudio de Oliveira Inácio e da professora Ilna Leite, Cláudia foi uma adolescente que conviveu com a dúvida sobre o que seria quando crescesse: música ou advogada? Aos 13 anos, tirou a carteira profissional na Ordem dos Músicos de Salvador. Implorava ao pai que se apresentasse como seu agente. Pedia a ele para convencer os donos de bares e trios elétricos a deixá-la dar uma canja. “Quando levava a Cláudia para cantar nos barzinhos, as pessoas sempre me diziam: ‘Compra um trio elétrico para sua filha. Ela vai se pagar’”, lembra Cláudio. Aos 18 anos, ela cursou dois semestres de Direito na Universidade Católica, mas a vocação artística interrompeu qualquer plano nesse sentido. Ainda assim, insistiu no propósito de ter um diploma. Fez outra faculdade, de Comunicação Social. No primeiro semestre, conseguiu estágio como repórter de tevê no Carnaval. Sua missão: entrevistar Ivete Sangalo em cima do trio elétrico.

No meio da farra, foliões de um lado e a repórter do outro, Ivete quis unir o útil ao agradável e perguntou se Cláudia Leitte gostaria de dar uma canja ao seu lado. Era tudo o que Cláudia queria ouvir. Pegou o microfone e fez o dueto mais inesquecível da vida. Embora até hoje seja incapaz de lembrar qual foi a música cantada ao lado da musa, o episódio a fez desistir do jornalismo. “Imagina eu, com alma de cantora, entrevistando Ivete em pleno Carnaval. Era demais”, lembra ela, que tentou obter uma formação clássica, mas foi reprovada quatro vezes no vestibular para Música na Universidade Federal da Bahia. Hoje em dia, as semelhanças com um dos maiores expoentes do axé music não passam despercebidas. Dona de um timbre de voz parecido com o de Ivete, ela não nega a referência. Mas deixa claras as diferenças. “Não sou clone de ninguém”, afirma. “Não fui concebida
em laboratório.”

A fama repentina, porém, tem mostrado seus revezes. Cláudia ficou irritada recentemente com os boatos sobre um affair com Murilo Benício. Durante dias, colunistas cariocas repercutiram a informação de que a cantora havia sido vista aos beijos com o ator pela cidade. Aos beijos ela estava, sim. Mas com o namorado, o empresário baiano Márcio Pedreira, no Festival de Verão de Salvador. Cláudia ri – e não esconde uma certa irritação – do equívoco. “Que palhaçada!”, diz ela, que mantém um diário online no qual os fãs podem acompanhar sua rotina. Há quatro meses juntos, Márcio foi capaz de um feito: fazer Cláudia perder o mau humor matinal – algo providencial para quem irá arrastar até 2 milhões de pessoas pelas ruas de Salvador no Carnaval. “Ultimamente, vejo até passarinho azul. O amor é o mais importante de tudo”, diz ela. “Até a música flui de um
jeito especial.”

Produção: Márcia Montojos. Assistente de produção:Flávia Young. Agradecimentos: Hotel Glória, Tritton, Lenny, Colcci, Kilza Ribas, Cavendish e Santa Cor