O senhor
experimentaria a família?
Se não fosse religioso, experimentaria.
É muito gostoso. Nada melhor do que um ombro amigo.
O que o senhor pensa da castidade?
É um caminho santificador. Traz também
um sofrimento, mas não é que não traga
uma libertação. Outro dia, vi o quanto um colega
de vocês (jornalistas) sofreu durante uma reunião.
A menina que ele namora ligava de cinco em cinco minutos.
Eu disse: “Porra, diga a ela que pare”. Não
tem cabimento essa cadela ligando o tempo inteiro. Ninguém
merece uma pessoa no pé. Por outro lado, queria estar
só? Não queria. Era melhor ter alguém.
Mas nesses 33 anos de padre, consegui me manter na linha.
Então o senhor se manteve
casto?
Não fui castrado (risos). A gente
escorrega de um lado, peca do outro. Pelo olhar, pelo desejo,
pelos arrepios tantos. De repente arrepia tudo. Mas a gente
vai se mantendo. É fácil? Não, é
dificílimo. Haja parede pra subir, haja p. para bater.
Isso é da natureza. Isso é biológico.
O passarinho é assim, a mosquinha é assim. A
mosquinha trepando na mesa, não é legal?
O senhor é homossexual?
Não sou não. Não sou
homo nem não sou, não sou hetero nem
não sou.
Como está sua situação
na Igreja?
Quando você opta pela obediência
significa dizer que vai abdicar de certas posturas pessoais
para obedecer. Mas não é uma obediência
cega, burra. Por exemplo, no momento em que o Conselho Provincial
diz que tenho três dias pra sair da Lapinha, não
obedeço. Conscientemente, não obedeço.
Se obedecesse, seria tão burro quanto o Conselho Provincial.
Não é cabível que eu esteja aqui há
31 anos e, em três dias, tenha que desmontar tudo. É
desumano, é desrespeitador, é castrador, é
antidemocrático.
E quanto ao voto de pobreza?
Eu me desfiz de três apartamentos
que meus pais deixaram. O que herdei apliquei na creche e
na Igreja. Minha família aplicou na creche
R$ 60 mil, fazendo quatro salas e um salão. Já
gastei mais R$ 20 mil pra dar continuidade. Também
passei meu carro para a Congregação. Hoje não
tenho pra onde ir. Tenho que cantar como Caymmi: “Eu
não tenho onde morar, por isso eu moro na areia”.
Por que então escolheu
a Igreja Católica?
Aí você se encarna no meu pai,
que dizia: “Criatura, tu não tá vendo
que tu não dá pra Igreja? Tu gosta de Carnaval,
twist, rock”. Eu me vestia como Elvis Presley, de bota
com salto, calça saint-tropez, lá em baixo,
baixérrima. Quando entrei para a Igreja, eu disse:
“Eles vão ter que me aturar”. Vou ficar
como a mosca que pousou na sopa deles. Até porque tenho
uma ladainha diferenciada de santos. Tenho São Renato
Russo, São Cazuza, Santa Irmã Dulce. Tenho ainda
a Santa Adriana Calcanhotto, principalmente naquela música
que ela diz: “Não gosto
do bom gosto, não gosto, não gosto de bom senso,
eu gosto de
mau senso”.
Imagine o papa Bento XVI ouvindo
o senhor dizer isso...
Pelo amor de
Deus! Eu não tava nem lembrando do querido irmão.
Bentinho... Eu fiz um curso com ele há uns 22 anos.
Ele pegou os documentos do concílio para renová-los,
enquanto a imprensa italiana dizia que estava retomando para
retrancá-los. Constatou-se, posteriormente, que o cardeal
Ratzinger estava trabalhando nos documentos para fazê-los
voltar atrás. E foi fazendo esse retrocesso até
a morte de João Paulo II. E aí assumiu. Veja
que agora ele resolveu o quê? Usar as vestes da Idade
Média. Este foi um questionamento que fiz ao cardeal
(dom Geraldo Majella). Por que o Santo Padre pode usar vestes
da Idade Média, e eu não posso usar as do século
21, que é o século que eu vivo?
O senhor tem medo do papa?
Tenho. Sou uma
pessoa brincalhona, espontânea, e a Igreja não
gosta que a gente seja brincalhão, espontâneo.
O senhor espera ser perdoado?
Espero. Não acho que errei. Acontece
que o espectador de Igreja não está preparado
para a maneira que eu sou. Espero que eles abram os olhos
e me dêem perdão. Estive no Conselho Psiquiátrico,
e o laudo foi ótimo. Em que se baseiam pra dizer que
tenho problema mental? Não lembro de um padre dentro
da Igreja estar insistentemente dizendo a verdade, tirando
lixo debaixo do tapete. Não é pra cima de mim
que vão tirar de santinho do pau oco. Porque eu os
conheço. 
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